22 Mai 2026
"A Igreja, testemunha de palavras vivas, graças ao Espírito, põe a palavra à prova da vida e a vida à luz da palavra. A pluralidade que a constitui não deve ser uma simples justaposição de individualidades autorreferenciais, mas uma expressão do sonho divino que nenhuma forma pode esgotar", escreve Lidia Maggi, pastora batista italiana, em artigo publicado pela revista Riforma, 22-05-2026.
Eis o artigo.
Pentecostes, ou 50 dias depois.
Depois de quê? Depois da gloriosa fuga da casa da escravidão.
Finalmente, pessoas livres, não mais sujeitas aos caprichos do Faraó. A Páscoa é um grito de alegria pela libertação inesperada. Miriam e Moisés cantam canções de vitória que moldam os sentimentos do povo liberto.
Uma explosão de alegria, destinada a ser de curta duração, imediatamente substituída por preocupações com água e comida: é bom se sentir livre, mas depois é preciso sobreviver. A partir do dia seguinte, quando a ressaca festiva passa, a pergunta paira no ar: o que fazemos agora? O que fazemos com a liberdade que conquistamos? Uma pergunta dolorosa, porque é mais fácil quebrar as correntes que nos impedem de andar do que traçar o caminho que precisamos seguir. Sem mencionar o desejo indizível de voltar, a tentação indizível de que, talvez, as coisas fossem melhores no Egito.
Cinquenta dias depois, há outras águas a atravessar: as águas turbulentas dos corações, onde as ondas aterrorizantes da dúvida e da suspeita se chocam, junto com os demônios que assolavam o Egito, entre eles, o fascínio da força, do poder que exalta alguns e esmaga outros. O que fazemos com a liberdade que conquistamos? Usamo-la para tomar o poder e refazer o Egito em outra terra, com os antes oprimidos como opressores?
"Não bastava que Israel deixasse o Egito; o Egito tinha que deixar Israel." Cinquenta dias depois, a encruzilhada aparece, nas encostas do Monte Sinai.
Ali mesmo, o povo ouve uma palavra diferente daquela que ouvira até então. Além das palavras do Faraó, e até mesmo além dos gritos exultantes do povo libertado, uma palavra do alto, delineando uma nova maneira de habitar a terra. Cinquenta dias depois, o povo recebe a Torá. E a partir de então eles comemorarão esse dom na festa de Pentecostes. Um dia que nos apresenta o desafio de habitar a terra de forma diferente. Uma festa com um gosto amargo, como alertam os profetas, devido às infinitas negações daquelas palavras solenes.
Como se cada geração devesse considerá-la um evento ainda não realizado, que sempre ocorrerá cinquenta dias após nossas supostas vitórias.
Ao confrontar esse desafio perene, um discípulo de Jesus, Lucas, narra o evento fundador da comunidade messiânica. Cinquenta dias após outra Páscoa. Mais uma vez, a irrupção de uma palavra diferente, que narra as maravilhas de Deus diante das injustiças dos poderosos. Não se trata tanto de instruções de uso. Não é uma questão de informação — se fosse esse o caso, a inteligência artificial nos bastaria; é um evento de comunicação, no qual a palavra tece laços de significado que moldam o "comum" — este é o desafio da comunicação! O que ressoa não é a letra morta de uma palavra petrificada e embalsamada. É uma palavra-semente, que encontra o terreno existencial de uma pluralidade de sujeitos que falam o mundo em línguas diferentes, mas que sentem que essa palavra é capaz de abrir sua própria linguagem ao desconhecido.
Cinquenta dias depois, quando os Aleluias da Páscoa se esgotam, enquanto cruzes continuam a ser plantadas nos muitos Gólgotas da história, a necessidade de outra palavra surge novamente, juntamente com aquele espírito divino que a arranca do uso retórico e a reapresenta como uma palavra viva, pascal. Quão absurdo seria separar a palavra do Espírito, ter dado origem a igrejas da palavra e igrejas carismáticas! Cinquenta dias após a Páscoa de Jesus, uma palavra ressoa, entregue desde o princípio ao povo, democratizada. Uma palavra que o Espírito torna audível a todos, dando assim vida a uma comunidade carismática, um antídoto para instituições hierárquicas, patriarcado e ditaduras.
Uma palavra que atesta a remoção definitiva das muitas pedras que cercam a vida em túmulos. E que nos adverte contra sermos trancados, por sua vez, como se fosse um talento a ser enterrado, por nobres razões de salvaguardar o depósito, removê-lo dos movimentos da história e defini-lo de uma vez por todas.
O Espírito a torna uma moeda, um tesouro a ser gasto, não embalado a vácuo. Cinquenta dias depois, os discípulos de Jesus enfrentam o desafio de se lembrarem de sua palavra e tentarem vivê-la, de se colocarem à prova seguindo o vento do Espírito, dando voz àqueles que se encontraram — às vezes contra a sua vontade — compartilhando o sonho de Jesus, onde Deus reina.
No Pentecostes, o desafio do êxodo rumo a uma terra que permanece para sempre prometida se renova. Nesta jornada que se estende diante de nós, encontramos uma humanidade plural, que fala do mundo de diferentes maneiras. A Igreja, testemunha de palavras vivas, graças ao Espírito, põe a palavra à prova da vida e a vida à luz da palavra. A pluralidade que a constitui não deve ser uma simples justaposição de individualidades autorreferenciais, mas uma expressão do sonho divino que nenhuma forma pode esgotar.
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