01 Abril 2026
"Como podemos permitir hoje que Jesus faça sua entrada em uma liturgia que não esqueça a vida, a cidade, com suas expectativas e esperanças, uma liturgia que faça entrar a história, o mundo com todas as suas feridas, com os tumultos da guerra, com os escombros? Uma liturgia mansa, sem privilégios, que não traga mais destruição, mas traga salvação, aqui e agora, salvação e paz", escreve Lidia Maggi, pastora batista italiana, em artigo publicado pela revista Riforma, 01-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A entrada de Jesus em Jerusalém conta quem é o Deus que Jesus nos revela: Ele é o rei manso que deseja entrar nas cidades e na vida de cada crente sem violência ou abusos; ele é aquele que ouve o clamor dos que buscam a libertação. O Domingo de Ramos marca o início da Semana da Paixão, a semana mais intensa de todo o ano litúrgico, a semana que nos leva ao coração da fé. A entrada nesse tempo litúrgico começa com uma história que encena uma entrada, aquela de Jesus em Jerusalém, um ato litúrgico concebido, planejado e realizado pelo próprio Jesus. Ele realiza uma ação simbólica que permite que nós, leitores, tenhamos uma chave de leitura sobre o sentido e a identidade desse Messias.
Pela primeira vez em todo o Evangelho, Jesus revela explicitamente a sua identidade. A natureza simbólica do episódio é evidente desde a premissa: o texto dá uma ênfase desproporcional à preparação para a entrada de Jesus. Jesus tem um pedido específico. Ele dá instruções detalhadas. Tudo é cuidadosamente preparado, e tudo acontece exatamente como ele previu: a jumenta e seu jumentinho para desamarrar, as perguntas que serão feitas aos discípulos e as respostas a serem dadas...
O objetivo do narrador é mostrar que Jesus planejou cuidadosamente esse momento. Ele quer que a maneira como entra em Jerusalém seja reveladora de sua identidade e evoque as expectativas messiânicas da comunidade. Mas, para entender, precisamos de olhos que saibam olhar e interpretar essa cena: talvez seja por isso que, pouco antes, no caminho para Jerusalém, Jesus cura os dois cegos. Eles o invocam com o título messiânico de Filho de Davi, o mesmo título posteriormente retomado pela multidão: Jesus cura os olhos dos dois cegos que anseiam ver, e eles, com o olhar curado, começam a segui-lo pelo caminho, tornando-se discípulos.
Agrada-me pensar que são precisamente esses dois cegos que Jesus envia para desamarrar a jumenta e seu jumentinho. Dois cegos curados, não um, porque os discípulos são enviados em missão aos pares. Dois discípulos anônimos, com os olhos curados, capazes de ler naquele estranho pedido de Jesus o cumprimento da profecia de Zacarias: a do rei que vem vitorioso e justo, montado numa jumenta para trazer a paz. Essa ação simbólica manifesta a vocação real de Jesus. Durante a festa da Páscoa, ele não é apenas mais um peregrino; ele não viaja a pé, porque é o rei que entra na cidade. Aqueles familiarizados com as Escrituras sabem que a montaria do rei não era apenas um cavalo: Davi tinha sua própria jumenta real, e quando quer nomear Salomão como seu sucessor, fez com que ele se apresentasse ao povo montado nela (1 Reis 1,33).
Os dois discípulos colocaram suas capas na jumenta para que Jesus pudesse sentar-se. Jesus não pediu isso explicitamente. Ele deu instruções detalhadas, mas não mencionou capas. A capa é uma posse importante, é a vestimenta que nos envolve, expressa a nossa identidade, mas aquelas capas de cegos que agora enxergam não podem mais contar quem são agora aqueles discípulos com os olhos curados, e é como se aquele gesto desse à multidão o sinal verde para lançar aos seus pés a sua identidade de povo escravizado, preso pelas correntes da opressão, e acolher o Messias há muito esperado que traz a salvação.
Hosana significa literalmente: salva-nos, te pedimos! É o pedido de uma salvação concreta, que grita o pobre, a viúva, o órfão ao rei que passa e deve administrar a justiça. Jesus veio trazer essa salvação. Uma grande ação litúrgica para expressar poeticamente quem é o Deus que Jesus nos revela: Ele é aquele rei que não expropria seus súditos de seus bens (a jumenta é apenas emprestada). Ele é o rei manso que deseja entrar na cidade e na vida de cada crente sem violência ou abusos. Ele é aquele que ouve o clamor daqueles que pedem libertação.
Durante esta semana, a linguagem litúrgica terá um lugar importante em nossa preparação para a Páscoa. A maneira como Jesus preparou e realizou sua ação litúrgica para mostrar a toda a cidade o sentido de sua missão também nos questiona em relação aos nossos próprios ritos e liturgias.
E então, pergunto-me: aquela salvação que invoca a cidade não corre o risco, em nossas celebrações, se tornar uma palavra relegada apenas ao sagrado? Como podemos permitir hoje que Jesus faça sua entrada em uma liturgia que não esqueça a vida, a cidade, com suas expectativas e esperanças, uma liturgia que faça entrar a história, o mundo com todas as suas feridas, com os tumultos da guerra, com os escombros? Uma liturgia mansa, sem privilégios, que não traga mais destruição, mas traga salvação, aqui e agora, salvação e paz. Amém.
Oração
Meu Rei, meu Salvador, quanto tempo esperei para te encontrar. Sou a jumenta que acompanhou Abraão e seu filho Isaac até o monte do sacrifício, suspenso pelo teu anjo. Meus rastros se perderam na história quando Abraão retornou aos seus servos após desamarrar seu filho. No entanto, algumas lendas contam sobre minhas constantes andanças perto do Monte das oliveiras aguardando para ser cavalgada pelo Messias. E assim foi. Sou a jumenta que te esperou, como a tua igreja deveria te esperar, e que te acompanhou na tua entrada solene na cidade.
Nem sempre sou dócil; às vezes sou teimosa e recalcitrante, assim como a tua igreja.
E como ela, levo comigo o Messias que há de vir. Uma jumenta missionária, talvez por isso também tenha um potro comigo. Em missão, tu envias aos pares, mesmo quando se trata de jumentos. Porque a fé é uma experiência comunitária! Senhor, tu me examinas e me conheces; tu me conhecias mesmo antes de eu ser desamarrada para me conduzir a ti. Eu te esperei, tu vieste, tu me levaste contigo, mas sem me requisitares: porque tu és um rei que não exproprias, que não tomas a vida, mas a deixas livre... E agora que te encontrei, aguardo o teu retorno... tu me prometeste... vem logo, Maranata!
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