28 Março 2025
"Para que possa surgir um novo interesse por essa Palavra, nós, crentes, precisamos arrancá-la de seu papel de coisa de igreja, linguagem interna dos que creem, confirmação do que existe ou ferramenta para valorizar os nossos caminhos, que não são os caminhos divinos. Precisamos voltar a ouvi-las e estudá-las a fim de nos medir com aquele modo particular de habitar a terra que é narrado nelas. Com aquela vida boa que o mistério do mundo que chamamos de Deus sonhou para cada ser vivo desde a criação do mundo."
O artigo é de Lidia Maggi, pastora batista italiana, publicado em Vita Pastorale, abril de 2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Igrejas se esvaziando, analfabetismo religioso, marginalidade da questão Deus: sinais de um esgotamento da experiência cristã? Juntamente com a indiferença generalizada nas sociedades ocidentais, estamos testemunhando crises internas às Igrejas, quanto à sua identidade e à confiabilidade. Menos crentes e menos credibilidade! O sentido do fim atua como o convidado de pedra nos discursos sobre o cristianismo ocidental. É claro que a realidade é sempre mais complexa e diferenciada do que análises unívocas. Mas é o clima percebido que nos serve de base, tornado ainda mais forte pela comparação com os tempos passados, com uma fé “acostumada aos triunfos”, para citar Manzoni.
Em suma, não há mais as temporadas do passado!
Mas será que realmente temos certeza de que o “passado” era realmente como o imaginamos agora? Alguns indicadores parecem confirmar objetivamente a regressão que percebemos: antes, havia mais participação nos ritos, havia uma presença mais consistente de jovens nas igrejas. É verdade. Mesmo em relação a Jesus, os relatos dos Evangelhos dizem que ele era seguido por multidões. No entanto, essa informação, que lemos com o saudosismo da era de ouro da fé, é oferecida junto com sua natureza problemática. João nos narra como, naquela ocasião em que a multidão queria proclamá-lo rei, Jesus fugiu como se estivesse enfrentando uma tentação. E outros evangelistas relatam as duras palavras do Mestre em relação à sua geração: “São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes” (Lc 7,32).
Aquele pregador itinerante, que não se preocupava de forma em aumentar seu círculo, que veio para que todos e todas tenham vida em abundância, testemunha de um Deus que não exige sacrifício para si mesmo, mas que, ao contrário, subvertendo o imaginário religioso de sempre, é ele que se sacrifica doando-se a nós, justamente ele, o profeta encantador, que pode se orgulhar de um seguimento que preocupa os guardiões da paz pública, ei-lo aqui nos dizendo que as suas palavras, na realidade, não conseguem despertar alegria nem aliviar o choro. Que o interesse em torno de sua pessoa continua fraco, apesar das aparências, e principalmente instrumental. Que, portanto, desde o início, o jogo é jogado com aquela indiferença que habita o coração de todos, mesmo daqueles que tentam pôr-se ao seguimento do Mestre de Nazaré. Que as multidões, os ritos podem conviver com a indiferença. E até mesmo a escuta das Escrituras: lembram-se dos sábios na corte de Herodes, questionados sobre a pergunta dos Magos? E as citações eruditas de Satanás quando tenta Jesus no deserto?
De fato, junto com a questão da indiferença pelas palavras das Escrituras, também é preciso acertar as contas com as limitações das Escrituras. Porque a Palavra pode ser mal compreendida; ela, que se torna próxima a ponto de sussurrar em nossos corações, é ao mesmo tempo distante, expressa em uma linguagem que não é mais a nossa; e se pensamos poder assimilá-la imediatamente, nós necessariamente a traímos, dobrando a alteridade daquela Palavra em busca de confirmações do que já presumimos saber.
Ao longo desses vinte séculos de cristianismo, temos sido hábeis em usar essa Palavra para nossos propósitos. E, embora a indiferença sempre desempenhe um papel importante no teatro da fé, as roupas que veste no presente foram feitas por alfaiates crentes, que acumularam as palavras das Escrituras para usos moralistas, políticos e instrumentais. Quanta indiferença atual decorre do estilo julgador e do conteúdo moralista de tanta pregação cristã.
E o que dizer sobre o uso desinibido das Escrituras, aliás aprendido nas nossas igrejas, por figuras públicas que as citam, por políticos que juram sobre esse livro, como recentemente Netanyahu ou Trump, tirando dele políticas mortais? Poderíamos dizer: é o destino das palavras, que por sua natureza são frágeis e sujeitas a usos impróprios.
Ou, em linguagem bíblica: é o preço a ser pago ao tornar a Palavra carne, ao rebaixá-la e esvaziá-la a ponto de ser dita por meio da loucura da cruz, naquele espetáculo de zombaria em que o Mestre de Nazaré exala seu último suspiro. Antes de morrer, segundo Lucas, às mulheres que choravam seu triste fim, Jesus diz que é sobre elas e seus filhos que devem chorar. Vamos traduzir isso em linguagem atual: não se lamentem tanto pela indiferença e cinismo alheios que matam Deus; trabalhem em vocês mesmos, elaborem o luto da morte da Palavra em seus corações.
Pois essa Palavra, que vocês, embora poucos, continuam a ouvir em suas igrejas, soa em seus ouvidos como letra morta, como uma palavra que é dita, mas não significa mais nada. Sabemos que a elaboração do luto é uma tarefa exigente e demorada. Que exige questionar a existência daqueles que ousam levá-lo até o fim. O que, com relação às Escrituras hebraico-cristãs, exige uma nova curiosidade, um trabalho demorado, paciência na leitura.
O sentido de voltar a ler as Escrituras está nisso. Mas, para que aconteça, para que possa surgir um novo interesse por essa Palavra, nós, crentes, precisamos arrancá-la de seu papel de coisa de igreja, linguagem interna dos que creem, confirmação do que existe ou ferramenta para valorizar os nossos caminhos, que não são os caminhos divinos. Precisamos voltar a ouvi-las e estudá-las a fim de nos medir com aquele modo particular de habitar a terra que é narrado nelas. Com aquela vida boa que o mistério do mundo que chamamos de Deus sonhou para cada ser vivo desde a criação do mundo.
Uma escuta que nos lança em outro mundo, sem esquecer as questões que surgem em nosso mundo. Um pouco como no teatro: a cortina se abre e você não está mais em seu mundo, mas naquele de Goldoni ou Shakespeare. E sua única preocupação é entrar naquela história, entender que ideia de vida tiveram os personagens em ação, acompanhando toda a peça, em todos os seus atos, sem parar em uma única afirmação. E, no final, quando a cortina se fechar e você retornar ao seu mundo de sempre com as imagens e palavras da peça que assistiu ainda vivas, você poderá comparar essa experiência com a sua própria.
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