Na Universidade La Sapienza, Leão concluiu seu catecismo político: parece que se está ouvindo o Papa Francisco. Artigo de Marco Politi

Foto: Vatican Media

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20 Mai 2026

O confronto com Trump o projetou para o cenário mundial, mas seria ignorá-lo se alguém pensasse que os conceitos que ele defendeu surgiram ali e naquele momento.

O artigo é de Marco Politi, escritor e especialista em Vaticano, publicado por Il Fatto Quotidiano, 18-06-2026.

Eis o artigo. 

Primeiro – Não usem armas para impor dominação. Segundo – Não usem a religião para justificar a guerra. Terceiro – Não chamem de "defesa" uma política de rearme desenfreado. Quarto… Quinto…
 Com seu abrangente discurso, proferido na Universidade Sapienza de Roma, o Papa Leão XIV concluiu seu catecismo político. Uma verdadeira mensagem para a opinião pública internacional, bem como para o mundo católico.

O confronto com Trump catapultou Leão para o cenário mundial, mas seria estranho pensar que os conceitos que ele expôs nasceram no calor de uma discussão, em vez de serem fruto de um pensamento bem elaborado. O Papa Francisco disse que o mundo entrou em uma nova era. "Não estamos diante de uma era de mudança", ele costumava nos lembrar, "mas de uma mudança de era". Um capítulo completamente novo em comparação com os padrões mentais e culturais do passado e (em um nível geopolítico) um sem os equilíbrios e regras do passado.

Os cardeais, que elegeram o americano-peruano Robert Francis Prevost um ano antes, estavam bem cientes desse período de transição. O Cardeal Re, Decano do Colégio Cardinalício, celebrando a missa antes da votação na Capela Sistina, lembrou-lhes que a Igreja e a humanidade estavam em um "momento de virada muito difícil e complexo da história".

O Papa Leão XIV começou a lançar a primeira estaca em janeiro deste ano, em seu discurso ao corpo diplomático. "Uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todos", declarou ele, "está sendo substituída por uma diplomacia da força... A guerra está de volta à moda e um fervor bélico está se espalhando." Seguiu-se a frase que definiu perfeitamente o novo rumo inaugurado pela presidência de Trump: "A paz não é mais buscada como uma dádiva e um bem desejável em si mesma... mas sim por meio das armas, como condição para a afirmação do próprio domínio." Mais tarde, na África, ele diria que "um punhado de tiranos está devastando o mundo", e todos entenderam que a lista de indivíduos violentos era extensa, incluindo Putin e Netanyahu.

No Domingo de Ramos, o pontífice emitiu o segundo alerta. Jesus, Rei da Paz, é um "Deus que rejeita a guerra, que ninguém pode usar para justificar a guerra, que não ouve as orações daqueles que fazem guerra..." Uma clara condenação da manipulação religiosa para fins belicistas: desde as bênçãos do Patriarca russo Kirill sobre a invasão da Ucrânia até as orações ostensivas dos reverendos, especialmente evangélicos, reunidos em torno de Trump na Casa Branca. O terceiro mandamento é o convite ao povo para a ação direta. Na véspera da ameaça de destruição total do Irã, em 7 de abril, Leão XIV fez um apelo à mobilização política direta que nenhum pontífice contemporâneo jamais havia proferido: "Convido os cidadãos de todos os países envolvidos a contatarem as autoridades, os líderes políticos e os parlamentares para pedir que trabalhem pela paz e rejeitem a guerra."

Essa estrutura também inclui uma reflexão sobre a qualidade da democracia em nossas sociedades. Sem um fundamento ético que respeite a pessoa humana, argumenta Leão, a democracia "corre o risco de se tornar uma tirania majoritária ou uma máscara para a dominação das elites econômicas e tecnológicas". Essa é uma observação extremamente relevante em um momento em que os populismos autoritários ganham força nos países ocidentais, enquanto, simultaneamente, gigantes da tecnologia teorizam sobre a superação das regras e controles democráticos em nome do individualismo e da eficiência.

O Papa das Américas articulou com veemência o ponto final deste catecismo político em La Sapienza: "Não chamemos de 'defesa' um rearmamento que aumenta as tensões e a insegurança, mina os investimentos em educação e saúde, mina a confiança na diplomacia e enriquece elites que não se importam com o bem comum." Parece que ouvimos Francisco ecoando suas palavras de março de 2022, quando chamou a corrida armamentista de loucura, explicando que a resposta "não é mais armas... mas uma forma diferente de governar o mundo agora globalizado — sem mostrar os dentes, como fazemos agora."

Vale ressaltar que a força da Santa Sé reside nessa harmonia entre Prévost e Bergoglio, que não por acaso é altamente respeitada pela opinião pública internacional, especialmente no Sul global. Claro, ninguém pode acusar Leão de ser anti-ianque ou marxista! A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, declarou que Leão é "um símbolo de coragem moral e clareza em uma era em que tais bússolas são cada vez mais necessárias". Palavras sábias, poderíamos ter dito outrora, não fosse o fato de que a própria União Europeia hoje parece carecer da coragem, da visão e da determinação para trilhar um caminho diferente da adoração do rearmamento puro e simples.

Nesta nova era de brutalidade e caos, a voz da Europa silencia. A União Europeia parece incapaz de contrariar as atuais guerras de dominação e de se comprometer com uma nova ordem global. Além disso, em Bruxelas, nem sequer dão ouvidos à exortação de Draghi para optar por um "federalismo pragmático".

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