Wallerstein e o declínio dos Estados Unidos. Artigo de Raúl Zibechi

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16 Mai 2026

Wallerstein situava o início do declínio dos Estados Unidos e do sistema-mundo capitalista na “revolução mundial de 1968”, conceito que também cunhou e que tem a grande virtude de colocar a causa do declínio do império nas lutas de classes, de povos e das diversas opressões e não na competição entre potências, como os analistas geopolíticos atuais costumam fazer”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 15-05-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Nos últimos anos, proliferaram analistas que se autodenominam “geopolíticos” dedicados a interpretar a realidade global e, de modo muito particular, as relações dos estados entre grandes e médias potências. Mesmo nos movimentos populares, a tentação geopolítica está presente, levando alguns a assumir o lado da China ou da Rússia, embora outros também tenham optado pelo Irã, sem se deter na defesa dos povos (não dos governos) diante das agressões imperiais.

Muitos analistas geopolíticos não param de falar sobre o declínio dos Estados Unidos, afirmando ser um processo inevitável que acontecerá no curto prazo, até mesmo durante a guerra contra o Irã. A presidência de Donald Trump parece alimentar essa tendência, de modo que o curto prazo, o imediatismo, nos impede de ver o longo processo de declínio que não começou ontem, nem terminará amanhã.

Diante deste conjunto de opiniões, que muitas vezes substituem as análises mais rigorosas, Immanuel Wallerstein se destaca como alguém que foi capaz de estabelecer uma visão de longo prazo, inspirado por um de seus mentores, Fernand Braudel. Em mais de uma ocasião, o historiador francês disse que os acontecimentos são pó, e os contrapôs ao longo prazo (a longa duração), que, disse, é a visão dos sábios.

Comentarei algumas das importantes contribuições de Wallerstein, concentrando-me em dois trabalhos: Os Estados Unidos e o mundo: ontem, hoje e amanhã, de 1992, e Paz, estabilidade e legitimidade: 1990-2025/2050, de 1994.

O primeiro comentário é que aqueles que agora falam até se cansarem sobre o declínio dos Estados Unidos deveriam saber que Wallerstein começou a analisá-lo já nos anos 1970 e que, nas duas décadas seguintes, empenhou-se em aprofundar essa convicção. Se foi capaz de prever isto com tanta antecedência, não foi por uma questão ideológica, mas por atender aos ciclos históricos de nascimento, maturidade e declínio de todas as hegemonias globais, nos últimos cinco séculos. Isto o levou a afirmar que o período entre 1990 e 2025/2050 “será, muito provavelmente, um período de pouca paz, pouca estabilidade e pouca legitimidade”.

Consequentemente, o sistema-mundo (outra de suas contribuições conceituais ao pensamento crítico) entrará em um período de caos sistêmico que provocará múltiplas bifurcações, e quando um dos caminhos prevalecer e uma nova ordem sistêmica for alcançada o equilíbrio será restabelecido.

O segundo ponto que quero destacar é que Wallerstein situava o início do declínio dos Estados Unidos e do sistema-mundo capitalista na “revolução mundial de 1968”, conceito que também cunhou e que tem a grande virtude de colocar a causa do declínio do império nas lutas de classes, de povos e das diversas opressões e não na competição entre potências, como os analistas geopolíticos atuais costumam fazer.

Essa não é apenas uma questão política, mas basicamente ética e de coerência analítica, já que subscreveu a máxima de Marx sobre a centralidade das lutas de classes na história da humanidade. Questão que levou muito a sério e permeou sua visão do sistema, que não entrará em colapso pelas supostas leis econômicas, as crises de superprodução ou os limites ambientais e sociais desejados, mas, sim, pela organização e a resistência das e dos de baixo.

O terceiro ponto é que, nos anos 1990, compreendeu que as vanguardas não eram mais necessárias e que a unidade e a disposição vertical das forças emancipatórias seriam uma trava para as mudanças necessárias. Com efeito, no primeiro dos textos citados, argumentou que, a longo prazo, os movimentos “serviram mais para sustentar o sistema do que para miná-lo”. Suas análises compreenderam o sistema como um todo, incluindo a “geocultura” liberal nascida no calor da Revolução Francesa, que é esse conjunto de ideias, valores e normas culturais que sustenta o sistema-mundo capitalista e que começou a ruir em torno da revolução de 1968.

Entre elas, destaca que a pirâmide antissistêmica que chamamos de centralismo democrático esteve na base da deriva capitalista dos movimentos emancipatórios. No início dos anos 1990, foi capaz de prever guerras nucleares locais, questão que só agora entra no debate, e “uma nova peste negra” que ainda não avistávamos no horizonte. Estabeleceu relações entre a proliferação de novas doenças, como a AIDS, e a decomposição do Estado, em uma análise que apontava que não existem várias crises, mas uma só com múltiplas manifestações.

Para concluir, escolho uma de suas afirmações mais profundas. Disse que o topo do sistema está se expandindo e que um sistema com ampla liberdade para a metade de cima e muita opressão para a metade de baixo poderá surgir. Este seria um sistema estável: “um país metade livre e metade escravizado”, mas que, devido à sua estabilidade, poderia durar muito tempo. Não é isto, por acaso, que o progressismo está construindo?

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