A força militar não se mostrou útil para os EUA em relação ao Irã: como seria uma negociação realista? Artigo de Christopher S. Chivvis

Donald Trump. (Foto: Daniel Torok/The White House)

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13 Mai 2026

"O impasse de Trump no Irã é o resultado previsível da suposição de que o poderio militar e econômico esmagador pode substituir a disposição para negociar. É uma suposição que repetidamente levou a decepções estratégicas para as grandes potências ao longo da era pós-Guerra Fria — do Iraque à Ucrânia — demonstrando, mais uma vez, que a força militar não pode substituir a diplomacia genuína."

O artigo é de Christopher S. Chivvis, pesquisador principal e diretor do Programa de Diplomacia Americana na Fundação Carnegie para a Paz Internacional, publicado por The Guardian, e reproduzido por elDiario.es, 12-05-2026. 

Eis o artigo. 

Após meses de guerra, os Estados Unidos têm encontrado grandes dificuldades para obrigar o Irã a restabelecer um trânsito estável pelo Estreito de Ormuz, e muito menos a aceitar as principais exigências de Washington: o abandono do programa nuclear iraniano, o desmantelamento de seu arsenal de mísseis e a dissolução de suas redes regionais de proxies. O exército iraniano está bastante degradado e seu regime enfraquecido, mas, até o momento, continua impedindo que a maioria dos países transporte petróleo, gás, fertilizantes e hélio pelo estreito. A economia mundial está em perigo, a popularidade de Donald Trump em seu país está caindo, a Rússia se beneficia e a preparação militar dos EUA — especialmente na região indopacífica — está sendo afetada.

Os Estados Unidos são superiores ao Irã em todos os indicadores de poder nacional que importam. Possuem forças militares de magnitude avassaladora, a maior economia do mundo e a capacidade de isolar nações dos mercados globais por meio do poder do dólar. Por que o Irã tem conseguido frustrar os planos dos EUA de forma tão contundente?

A diplomacia coercitiva

O problema fundamental é que, embora Trump tenha afirmado estar negociando, na prática recorreu quase exclusivamente à pressão militar e econômica, em vez do dar e receber da diplomacia real. Uma abordagem mais viável ofereceria a Teerã garantias e incentivos suficientemente substanciais para que valha a pena assumir os riscos de firmar um acordo com Washington. E respeitaria as linhas vermelhas nas quais o regime demonstrou que não cederá.

A estratégia de Trump é uma espécie de diplomacia coercitiva. A diplomacia coercitiva pode funcionar e, de fato, funcionou no passado. Mas requer apresentar exigências que o adversário possa cumprir sem colocar em risco sua própria sobrevivência. Essa foi, por exemplo, a lógica que sustentou a diplomacia coercitiva que levou o líder sérvio Slobodan Milošević à mesa de negociações sobre a Bósnia em 1995 e a aceitar um acordo sobre Kosovo em 1999.

No entanto, no caso atual do Irã, as exigências de Washington beiraram uma petição de desarmamento unilateral. Para Teerã, aceitá-las significaria renunciar precisamente às defesas que o regime acredita que o protegem de ser derrubado. Paradoxalmente, quanto mais Washington intensifica a pressão militar, mais provável é que Teerã conclua que capacidades dissuasórias mais fortes — incluindo a manutenção de certo controle sobre o estreito — são essenciais para a sobrevivência do regime. A retirada de Trump do acordo nuclear com o Irã em 2018, por sua vez, reforça a ideia para Teerã de que Washington poderia simplesmente apropriar-se de qualquer concessão e retornar às hostilidades.

O Irã conta hoje também com maior capacidade para absorber a pressão do que a maioria dos antigos alvos da diplomacia coercitiva. Drones, mísseis, ferramentas cibernéticas e operações de informação lhe fornecem instrumentos para assediar e ameaçar os ativos regionais dos EUA, seus aliados e o transporte marítimo comercial mundial. E, mais importante ainda, o Irã conta com poderosos apoios externos. A China lhe está proporcionando apoio econômico e diplomático fundamental, enquanto a Rússia continua oferecendo-lhe respaldo militar e político.

Romper o impasse significa, portanto, adotar uma posição negociadora mais realista que aceite que o objetivo final dos EUA não pode ser o desarmamento efetivo do Irã. Nenhum governo iraniano pode aceitar isso e esperar sobrevivir. Como assinalaram antigos negociadores europeus, qualquer acordo substancial sobre as questões fundamentais provavelmente também exigirá um alívio das sanções a curto prazo para o Irã suficientemente substancial para que os riscos políticos das concessões valham a pena para Teerã. Por fim, o Irã precisará de alguma esperança de que Washington respeite o acordo que assinar, em vez de voltar-se para a mudança de regime. A participação de terceiros — China, Europa, possivelmente os Estados do Golfo — ajudaria a alcançá-lo.

O aperto de Trump

No entanto, será difícil obter maior flexibilidade na postura americana, sobretudo porque os aliados dos EUA na região se oporão ao levantamento das sanções a menos que o Irã faça concessões importantes nos âmbitos nuclear e de mísseis. Mas a alternativa é um estancamento prolongado em que a Rússia sai ganhando, a influência da China cresce, os aliados na região indopacífica assistem ao esgotamento dos recursos americanos em mais uma guerra no Oriente Médio e a economia mundial arrisca entrar em recessão.

Se resultar impossível negociar sobre as questões principais, o mínimo realista é negociar o restabelecimento da liberdade de navegação pelo estreito que existia antes da guerra e um congelamento da escalada militar. Esta pode ser a direção que a administração está tomando, a julgar pelas recentes informações de imprensa. Trump pode tentar vender os danos infligidos à infraestrutura militar e nuclear do Irã como uma vitória para os interesses americanos. Na realidade, é claro, isso não seria um sucesso. Mas deteria a erosão do poder americano que esta guerra provocou.

O impasse de Trump no Irã é o resultado previsível da suposição de que o poderio militar e econômico esmagador pode substituir a disposição para negociar. É uma suposição que repetidamente levou a decepções estratégicas para as grandes potências ao longo da era pós-Guerra Fria — do Iraque à Ucrânia — demonstrando, mais uma vez, que a força militar não pode substituir a diplomacia genuína.

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