"Trump fracassou, ele não conseguirá um acordo melhor do que o de Obama". Entrevista com Alan Eyre, ex-negociador

Donald Trump. (Foto: Molly Riley/The White House/Flickr)

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11 Mai 2026

Allan Eyre discutiu o JCPOA e hoje observa: "Moscou e Pequim podem facilitar, mas não oferecer garantias militares."

Alan Eyre foi um pioneiro no diálogo com o Irã: o primeiro porta-voz do Departamento de Estado a falar farsi, ele também foi o único diplomata de carreira na equipe de negociação que trabalhou no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), o acordo nuclear entre 2010 e 2015. "Qualquer acordo que o governo Trump consiga firmar com o Irã, supondo que seja bem-sucedido, será igual ao de Obama", afirma. "A guerra foi um fracasso estratégico americano comparável, senão pior, ao do Iraque em 2003."

A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 11-05-2026.

Eis a entrevista.

Os iranianos são desconfiados; querem que a China, a Rússia e a ONU atuem como garantidores do fim da guerra. Será que Trump estaria aberto a um acordo multilateral?

Os iranianos sempre exigiram que qualquer acordo para encerrar a guerra fosse alcançado por meio de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, assim como o JCPOA, mas não há como garantir que os Estados Unidos e Israel nunca mais os atacarão. Eles querem o que não podem obter. Qualquer acordo só durará enquanto todas as partes se beneficiarem dele. A China e a Rússia podem usar sua posição no Conselho de Segurança para promover um acordo.

Mas não vejo Pequim agindo como um executor militar. Trump não parece satisfeito com a resposta do Irã. O Irã e os Estados Unidos ainda estão negociando o que negociar. É um processo aberto, com comunicação contínua; a proposta de uma página não era a versão final do acordo.

Existe risco de escalada?

Não acredito que o presidente Trump queira retomar os ataques militares contra o Irã antes de sua viagem à China. Isso poderia acontecer, mas não acho que o colocaria em uma posição favorável. Ele demonstrou repetidamente que não é um homem paciente e continua acreditando que, se o Irã for submetido a pressão militar suficiente, capitulará. Essa situação continuará com negociações indiretas conduzidas por meio de vários países enquanto os ataques estiverem em andamento.

Será que Teerã aceitaria a reabertura incondicional do Estreito de Ormuz?

Não, essa é a sua principal ferramenta de pressão. Eles estão dispostos a reabrir o estreito, mas os navios precisam passar pelas águas territoriais iranianas e coordenar com o Irã. Eles vão impor um pedágio. Levará meses para o Estreito de Ormuz retornar aos níveis de tráfego anteriores, mesmo que ambos os lados concordem amanhã em retomar o tráfego marítimo completo, mesmo em caso de um acordo de paz. Uma opção é pagar dinheiro a um consórcio que inclua o Irã e os países do Golfo para compensar os danos da guerra. Outra é o Irã, sozinho, arcar com a cobrança.

Outros países que fazem fronteira com outros estreitos poderiam fazer o mesmo.

Este é o mundo em que vivemos agora: o sistema internacional de regras e leis está entrando em colapso. Os Estados Unidos transformaram seus instrumentos econômicos em armas, explorando a força do dólar, e agora o Irã está fazendo o mesmo.

Em relação à energia nuclear, a proposta americana é congelar o enriquecimento e depois permitir seu uso para fins civis. Não era isso que o JCPOA previa?

Qualquer acordo firmado pelo governo Trump será essencialmente o mesmo que o de Obama. Os Estados Unidos parecem dispostos a aceitar uma suspensão plurianual do enriquecimento de urânio no Irã, seguida de enriquecimento em níveis muito baixos durante esse período, com inspeções periódicas pela Agência Internacional de Energia Atômica. Acho improvável que o presidente Trump chegue a esse acordo, mas, se chegar, ele o venderá como uma vitória:

Convenci o Irã a suspender o enriquecimento, algo que Obama nunca conseguiu", e ele estaria certo. Por outro lado, porém, isso também permitiu que o Irã obtivesse o controle do Estreito de Ormuz.

O Irã poderia, no entanto, concordar em entregar seu urânio enriquecido.

Poderia concordar em entregá-lo ou diluir parte dele, mas não entregá-lo aos EUA.

Mas os americanos estão prontos para suspender todas as sanções?

O Irã precisa de dinheiro para reconstruir sua base industrial de defesa: pode obtê-lo por meio de pedágios, indenizações, descongelando ativos congelados ou suspendendo ou atenuando as sanções. Trump não pode suspender as sanções com as eleições se aproximando. Reparações são impensáveis. Descongelar alguns ativos iranianos seria doloroso para os Estados Unidos, porque é a mesma acusação que Trump fez contra Obama. Os pedágios são diferentes; não acho que o presidente Trump esteja muito preocupado com eles, porque ele continua repetindo que os EUA não usam muito o Estreito.

Trump afirma ter derrotado militarmente o Irã, tê-lo aniquilado, mas a CIA parece pensar diferente. Quem está certo?

O presidente Trump frequentemente mente para a imprensa em benefício próprio. Parece que o Irã manteve grande parte de sua capacidade de mísseis e drones. E mesmo que não a tivesse mantido, poderia reconstruí-la. O Irã representa, e continua a representar, uma ameaça militar. E vemos isso no Estreito de Ormuz. Tudo o que precisa fazer para manter o Estreito fechado é manter um clima de ameaça.

Você negociou com os iranianos. Quem está no comando em Teerã hoje?

Uma nova liderança, mais intransigente e militarista. Instalamos um governo mais radical e implacável. Os Pasdaran se tornaram a instituição mais importante; o aspecto religioso agora tem muito menos influência.

A guerra foi um fracasso para os Estados Unidos?

Sim, foi um retumbante erro estratégico, muito parecido com a Guerra do Iraque de 2003. Embora tenhamos alcançado uma vitória militar, falhamos em atingir nossos objetivos estratégicos. No curto prazo, reduziu a capacidade do Irã de projetar poder além de suas fronteiras, mas também aumentou o desejo iraniano por dissuasão estratégica. Teerã se concentrará na reconstrução de suas forças armadas. E agora possui um meio de dissuasão muito mais eficaz, o Ormuz. Demonstrou sua disposição de bombardear a infraestrutura energética dos países do Golfo Pérsico; não há nada que esses países possam fazer para impedi-lo. E o Irã está muito mais propenso a querer uma arma nuclear completa do que antes da guerra.

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