O império em declínio, a Amazônia e a guerra mundial: notas sobre o capital em ritmo de pilhagem. Artigo de Marcelo Seráfico e José Alcimar

Foto: Joydeep Sensarma/Unplash

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09 Janeiro 2026

"Nossos inimigos dizem: a luta terminou. Mas nós dizemos: Ela começou. Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada. Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda. Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade, ela não pode mais ser divulgada. Mas nós a divulgamos. É a véspera da batalha. É a preparação de nossos quadros. É o estudo do plano de luta. É o dia antes da queda de nossos inimigos" (Bertolt Brecht).

O artigo é de Marcelo Seráfico e José Alcimar, professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas.

Eis o artigo.

É preciso situar a intervenção militar dos EUA na Venezuela como parte de uma tentativa do governo daquele país de reverter o processo de declínio de sua hegemonia global e de instaurar, à força, bélica inclusive, o acesso das corporações que o sustentam às forças produtivas (o trabalho do ser social e os meios de produção) localizadas fora de suas fronteiras. A geopolítica do capital não reconhece fronteiras, nem se impõe limites em sua sede de lucro. A regra é o lucro acima da vida. Em sua fúria venal, opera, como já antevira Marx, pela predação das duas fontes de toda riqueza: a terra (o ser natural) e o homem (o ser social).

Sob essa premissa, é possível afirmar que sim, a Pan-Amazônia é uma área estratégica para a dinamização das forças produtivas das corporações capitalistas, pois concentra matérias-primas essenciais à manutenção e ampliação dos processos produtivos e da acumulação de capital. Diante do ritmo acelerado da catástrofe ambiental e da barbárie social produzidas pelo atual padrão de produção e consumo requerido pelo capital, como impedir a ação das garras predatórias da mais poderosa potência bélica do mundo sobre o ser natural e social da Pan-Amazônia? Escrevemos aqui desde Manaus, no centro daquela hoje objetivada pela geopolítica do capital como a mais estratégica região da Terra para os interesses da economia global.

Que impasses estão postos para que o acesso a essas forças produtivas se dê? Está bastante clara a existência de impasses de ordem legal, relativos ao direito internacional. Mas sabemos que sob o paradigma do capital direito e justiça não costumam caminhar juntos. O ataque estadunidense à soberania da Venezuela e o sequestro de seu presidente em 03 de janeiro de 2026 demonstram que a gramática do Império opera pela lei da força, jamais da justiça. O Império do Norte decide acima de qualquer sanção, a tudo se permite sancionar. As ameaças, o uso das armas, o apelo ao belicismo, tornam-se os meios preferenciais, senão únicos, com os quais o Império do Norte consegue lidar com governos que não se alinham a suas políticas. Trata-se de um dos últimos recursos políticos depois do fracasso de diversas tentativas de desestabilização e golpe de Estado.

Se é assim (e nada indica nenhuma inflexão da rota belicista do sistema do capital sob o controle do Império do Norte no século XXI), o que pode acontecer nos países que detêm em seu território riquezas de interesse estratégico para o processo de acumulação de capital, como é o caso dos países da Pan-Amazônia? Como vários países da região vêm experimentando, devem se manter tanto as iniciativas com vistas a desestabilizar politicamente os governos que reivindicam soberania quanto as estratégias parlamentares de modificação de toda a legislação que ainda preserve algum compromisso com perspectivas soberanas de desenvolvimento político, social e econômico nacionais. Como desconhecer o trabalho sujo do Congresso brasileiro, pautado pela extrema-direita e porta-voz afinado dessa agenda regressiva, para destruir a legislação ambiental positivada na Constituição de 1988?

Devemos nos lembrar de que o governo da Colômbia vem sendo abertamente ameaçado pelo Sr. Trump. E mais, governos de países situados em outras regiões do globo, detentores de recursos naturais essenciais às corporações de origem estadunidense, também estão sob ameaça sistemática do imperialismo estadunidense, como recentemente ocorre com o México, Irã, Canadá e Dinamarca. Logo, estamos diante do reequacionamento da geopolítica estadunidense, cujos impactos já são mundiais. Não é difícil imaginar que a resistência dos governos ameaçados implicará o acirramento de conflitos e, eventualmente, a eclosão aberta de uma guerra mundial.

Voltando à América do Sul, cabe lembrar que dentro do Brasil há setores políticos amplamente identificados com as aspirações imperiais do governo dos EUA, particularmente aqueles que se identificam com a extrema-direita e a direita. Alarga-se no interior da direita o campo do entreguismo. Com o emudecimento das vozes do nacionalismo, da defesa soberania, inclusive em setores das Forças Armadas, e por força do discurso ultraneoliberal da ideologia da negação da ideologia, estamos hoje diante de um nacionalismo reverso, em que o entreguismo se fantasia de verde-amarelo e cultua a bandeira estadunidense. Inauguramos o patriotismo de país estranho.

O que significa dizer que há, no país, setores econômicos cujo projeto político é de instaurar relações coloniais entre o país e os EUA, abdicando de qualquer pretensão de soberania. E mais, países como Equador, Argentina, Peru e Paraguai são governados, hoje, por setores mais ou menos alinhados com essa perspectiva neocolonial, entreguista e lesa-pátria. Isso pode significar que países como o Brasil e a Colômbia, que têm buscado preservar algo de sua soberania, venham a experimentar cada vez mais pressão nas relações com esses vizinhos. Gente desse jaez dão substância a um Brasil que, nas palavras do saudoso Antônio Callado, não se projeta como nação por não “conseguir sair do ritmo ridículo de país pequeno”.

Sendo assim, podemos dizer que a Amazônia, como outras regiões economicamente estratégicas do globo, sendo uma das fronteiras da acumulação de capital em escala mundial, é objeto e pode se tornar palco de conflitos diplomáticos e militares. Se os EUA avançarem nas ações bélicas, há duas alternativas imediatas possíveis: a capitulação, pura e simples, ou a guerra. Mas note, se é verdade que as ações bélicas estão ocorrendo em países cujo poderio é inexpressivo, diante dos EUA, essas ações atingem interesses econômicos, políticos, culturais e sociais que vêm sendo articulados multilateralmente.

Os EUA, essa é a hipótese, estão provocando China e Rússia às armas, pois já perderam nos campos da economia e da política. O efeito desses atos de violência sobre os interesses comuns de China, Rússia e seus parceiros definirá parte das respostas a serem adotadas pelos países direta e indiretamente agredidos. Como nos diz Paulo Nogueira Batista Jr., “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, a não ser, para concluir, no quintal habitado por mentes colonizadas.

A guerra mundial só tem um interessado: os EUA.

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