08 Janeiro 2026
A captura de Maduro enfraquece a posição internacional de Washington e abre caminho para uma escalada (ainda que reversível) do autoritarismo nos EUA.
O artigo é de Timothy Snyder, publicado por El País, 08-01-2026.
Timothy Snyder é professor de História Moderna Europeia na Escola Munk de Assuntos Internacionais e Políticas Públicas da Universidade de Toronto.
Eis o artigo.
Os Estados Unidos removeram Nicolás Maduro da Venezuela e o mantêm detido em Nova York; o presidente Donald Trump declara que os Estados Unidos "governarão" o país. Embora chocante, nada dessa calamidade é novo: existem quatro precedentes que podem nos ajudar a enxergar elementos do presente que poderiam se perder em meio à propaganda ou ao sentimentalismo.
Para começar, existe um longo histórico de intervenções dos EUA na América Latina, baseadas em um direito implícito (senão autoproclamado) de escolher os líderes da região. Durante a Guerra Fria, a instalação de líderes ou governos aprovados pelos EUA era frequentemente disfarçada de cruzada pela democracia, com o argumento de que o principal objetivo era conter o comunismo (que era considerado antidemocrático).
Desta vez, não há qualquer pretensão de que o alvo seja a democracia. Maduro e seus aliados fraudaram as eleições presidenciais de 2024 na Venezuela. Mas, em vez de puni-lo por esse crime real, o governo Trump prefere a acusação (essencialmente fictícia) de “narcoterrorismo”. E embora a Venezuela tenha um presidente legitimamente eleito (Edmundo González), não há indícios de que ele (ou a oposição em geral) esteja no radar do governo dos EUA.
Vale lembrar que, após a captura de Maduro, Trump desdenhou da corajosa líder da oposição e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado, a quem descreveu como uma "boa mulher", mas sem apoio e respeito na Venezuela. Portanto, vale a pena revisitar a operação apoiada pelos EUA no mês passado que retirou Machado da Venezuela, onde ela vivia escondida desde as eleições de 2024. Na época, muitos acreditavam que o governo Trump a estava ajudando a participar da cerimônia do Prêmio Nobel em Oslo. Agora, parece mais uma tentativa de neutralizar uma política popular e abrir caminho para a imposição de uma forma de imperialismo estadunidense sobre os venezuelanos.
Mas este projeto imperialista em particular é ainda pior planejado do que a maioria. Parece que Trump está oferecendo petróleo venezuelano a empresas americanas do setor (assim como os EUA já escolheram líderes latino-americanos que apoiavam seus interesses comerciais), e ele justifica toda a operação em termos de lucros disponíveis. Mas o petróleo venezuelano não é imediatamente lucrativo; concretizar seu potencial exigiria enormes investimentos de longo prazo, que, por sua vez, dependem da estabilidade política.
Outro precedente óbvio é a invasão do Iraque em 2003, que representou um ponto de virada para o poder americano. A ideia era que derrotar um exército, derrubar um governante corrupto e desmantelar instituições corruptas criaria as condições para um governo melhor e mais democrático; por isso, o governo do presidente George W. Bush praticamente não fez planos para o futuro político do país, e os ocupantes americanos acabaram tendo que cooperar com as mesmas pessoas que alegavam ter derrubado. Quando a ocupação americana do Iraque terminou, centenas de milhares de iraquianos e cerca de 4.500 americanos haviam morrido, e a credibilidade dos Estados Unidos estava destruída.
No caso da Venezuela, existe uma crença semelhante de que simplesmente derrubar um ditador será suficiente para alcançar o resultado desejado. Mas as forças armadas venezuelanas não foram derrotadas e o governo Maduro permanece no poder. Se o governo Trump tem algum plano, ele se resume à vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, governando o país em nome dos Estados Unidos (embora a violência estadunidense dificilmente lhe confira qualquer legitimidade). Por sua vez, Rodríguez denunciou o sequestro de Maduro como ilegal e afirmou que ele tinha "conotações sionistas".
O terceiro precedente é mais recente: a invasão da Ucrânia pela Rússia. Foi chocante ouvir Trump descrever o sequestro de Maduro como uma “operação militar extraordinária”, porque o presidente russo, Vladimir Putin, usou termos assustadoramente semelhantes no discurso em que anunciou a invasão em grande escala da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022.
Putin apropriou-se e ridicularizou o direito internacional, alegando que a Carta da ONU justificava a agressão russa. Moscou fez tudo o que pôde para criar um mundo em que qualquer país possa desrespeitar a Carta da ONU; portanto, o fato de o governo Trump não ter tentado justificar suas ações na Venezuela com base no direito internacional é uma vitória para o Kremlin (mesmo que este caso específico não lhe agrade).
Cabe ressaltar que a intervenção dos EUA (embora claramente um ato de guerra) parece ser um plano de longo prazo da CIA executado com apoio militar. A descrição de Trump dessa operação de inteligência como "um ataque sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial" é absurda. Além disso, remete ao precedente mais recente: as guerras usadas por regimes fascistas para se legitimarem antes de sua derrota em 1945.
Na Alemanha, Itália e Romênia, os fascistas justificaram suas ditaduras alegando que seus oponentes agiam a serviço de inimigos estrangeiros e conspirações internacionais. Além disso, esses regimes travaram guerras para equiparar o inimigo interno ao externo: com uma população em guerra, era muito mais fácil oprimir os dissidentes.
Ao acusar Maduro de crimes relacionados a drogas, em vez de outros delitos mais graves e muito mais fáceis de comprovar (como execuções extrajudiciais e tortura), o governo Trump também está confundindo inimigos externos e internos. Como o tráfico de drogas envolve atores tanto dentro quanto fora do país, Trump pode fabricar uma narrativa de que seus oponentes são peões em uma conspiração internacional. Uma “guerra às drogas” trumpiana poderia ser usada para criar um aparato de segurança interna mais amplo, assim como a exploração do medo de imigrantes foi usada para implementar uma expansão massiva do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).
Trump quer os benefícios políticos de uma guerra sem ter que travar uma guerra de verdade. Em sua narrativa, os militares dos EUA fizeram milagres na Venezuela, ponto final.
Mas, embora Putin entenda que o fascismo exige combate real, Trump aparentemente não quer, ou não pode, ir tão longe (especialmente porque sua posição dentro dos Estados Unidos é precária). Os americanos podem agir para impedir que a "operação militar extraordinária" de Trump (que visa mais a mudança de regime nos Estados Unidos do que na Venezuela) acelere a descida de seu país rumo ao autoritarismo, desde que reconheçam a lógica política interna por trás da intervenção de Trump no exterior.
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