12 Mai 2026
Para qualquer planta, é essencial ter o máximo de informações possível sobre o seu ambiente, e isso envolve a troca de sinais com outras plantas.
O artigo é de Carmen Fenoll, publicado por El Diario, 09-05-2026.
Carmen Fenoll é professora de Fisiologia Vegetal na Universidade de Castilla-La Mancha, onde dirige o Grupo de Biotecnologia Vegetal e Biologia Molecular.
"Pesquisadoras ao Resgate" é uma seção semanal de perguntas e respostas sobre ciência, promovida pelo programa Para Mulheres na Ciência da L'Oréal-UNESCO e pela Bristol Myers Squibb, que responde às dúvidas dos leitores sobre ciência e tecnologia. As perguntas são respondidas por cientistas e tecnólogas, membros da Associação de Mulheres Pesquisadoras e Tecnólogas (AMIT ).
Eis o artigo.
As plantas emitem sinais que outras plantas percebem e, em resposta, podem alterar sua fisiologia ou desenvolvimento. Portanto, sim, as plantas se comunicam, mesmo sem falar. E por que precisam se comunicar umas com as outras? A razão é que estão enraizadas no solo; não podem fugir, mesmo que detectem perigo ou precisem, por exemplo, explorar outros recursos. A razão fundamental dessa comunicação é a ajuda mútua ou a competição entre as plantas.
Pense em qualquer planta. Ela vive em um lugar do qual não pode se mover e está rodeada por outras plantas que utilizam os mesmos recursos: luz solar, nutrientes do solo e água. Além disso, as plantas também sofrem ameaças, principalmente de predadores e patógenos. Portanto, é essencial para qualquer planta ter o máximo de informações possível sobre o seu ambiente. E embora nem sempre, a aquisição dessas informações frequentemente envolve a troca de sinais entre as plantas.
O tipo mais comum de sinal usado pelas plantas é o químico. Esses sinais são trocados principalmente pelo ar. Por exemplo, se uma planta é ferida, ela interpreta isso como uma ameaça — que pode ser um inseto ou uma vaca tentando comê-la — e se prepara para resistir a esse dano potencial da melhor maneira possível, sintetizando defesas químicas. Ao mesmo tempo, ela libera uma mistura de compostos orgânicos voláteis (COVs) no ar. Aquele cheiro de grama recém-cortada que tanto apreciamos é justamente esse sinal químico que as plantas emitem, alertando outras sobre a presença de potenciais agressores.
A planta que percebe esse sinal de perigo reage da mesma forma que aquela que sofreu o dano original. Ela foi avisada de que o perigo é iminente e que é melhor se preparar para ele, e assim o faz.
Os sinais químicos são incrivelmente variados porque as plantas são máquinas químicas; elas não têm sistema nervoso, não se movem e a química é essencial para a sua sobrevivência. Elas possuem um metabolismo secundário altamente diversificado e são capazes de produzir dezenas de milhares de compostos diferentes que outros organismos não conseguem sintetizar. E muitos desses compostos servem precisamente a essa função de comunicação.
Os sinais químicos também podem ser emitidos pelas raízes. Quando uma planta percebe que o solo está secando ou que há mais nutrientes disponíveis, ela responde emitindo sinais que, ao serem percebidos por outras plantas, permitem que elas reajam de acordo. Através de suas raízes, algumas espécies secretam toxinas específicas para impedir o crescimento de outras espécies e eliminar competidores. Outra função essencial dos sinais subterrâneos é a interação com o microbioma. As raízes são cercadas por enormes quantidades de bactérias e fungos, muitos deles mutualistas ou benéficos, e as plantas também dependem desses organismos para se comunicarem entre si.
Sabemos que, em uma floresta, as raízes das árvores são colonizadas por fungos benéficos (micorrizas) que conectam uma raiz à outra. Através desses fungos, as plantas podem trocar diversos recursos entre si, principalmente nutrientes minerais, mas também hormônios e outros compostos que atuam como sinalizadores. E essa é também uma forma de elas transmitirem informações umas às outras.
Uma troca crucial de informações envolve a competição entre as plantas por seu recurso mais valioso: a luz solar. Mas, para as plantas, a luz não é apenas um recurso, mas também um sinal. Ao analisar o espectro da luz incidente, as plantas identificam a estação do ano, se é dia ou noite, manhã ou tarde. Elas também usam essa análise da qualidade da luz para detectar outras plantas que competem pelo mesmo recurso. Isso ocorre porque o espectro da luz solar direta difere do espectro da luz que passou pela copa de uma árvore próxima, e as plantas conseguem distinguir perfeitamente esses diferentes espectros.
Imagine uma pequena planta crescendo em meio à vegetação rasteira. Se ela perceber que está coberta por uma copa — graças ao sinal luminoso que recebe, modificado pela copa — ela pode mudar seu padrão de crescimento, desenvolvendo rapidamente um caule muito longo ou redirecionando o crescimento de um ramo para alcançar a fonte de luz que a outra planta está roubando. O nome gráfico para essa resposta é "síndrome de evitação da sombra percebida".
A percepção da luz ambiente é crucial na agricultura. Nas plantações, as plantas são cultivadas muito próximas umas das outras para otimizar o uso da terra. Se plantadas muito próximas, elas se sombreiam mutuamente. Portanto, no melhoramento genético e nas práticas agrícolas, é essencial compreender que as plantas percebem a presença de competidores que podem potencialmente roubar sua luz.
O que é realmente fascinante é que hoje temos toneladas de informações sobre os genes e mecanismos que controlam todos esses processos de comunicação, e estamos constantemente aprendendo mais sobre como essas complexas redes moleculares funcionam, permitindo que as plantas troquem informações — em outras palavras, que se comuniquem umas com as outras.
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