Entre o perdão e a proteção divina: a curiosa relação entre o narcotráfico mexicano e o catolicismo. Artigo de Christian Stähler Padilha

Foto: Jorge L. Valdivia/Unplash

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05 Mai 2026

"O catolicismo acaba sendo (...) um ponto de referência mesmo para aqueles que interpretam e utilizam seus símbolos de maneira equivocada — e rejeitada pela Igreja. No fim das contas, essa relação revela menos sobre a fé em si e mais sobre a forma como ela é vivida: entre contradições graves, tentativas de redenção e buscas por sentido, mesmo em contextos marcados pela violência", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos SinosUnisinos, estagiário do Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Eis o artigo.

O fim de fevereiro foi marcado pela morte de um dos narcotraficantes mais procurados dos últimos tempos na América Latina. “El Mencho”, apelido de Nemesio Oseguera Cervantes, foi morto em 22 de fevereiro. Seu falecimento gerou insegurança entre moradores do estado de Jalisco, sua terra natal, especialmente em Guadalajara (uma das cidades da Copa do Mundo de 2026) e Puerto Vallarta, no México.

Como criador do grupo criminoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), sua morte gerou grande repercussão, o que também incluiu questionamentos sobre sua fé.

Sua residência foi visitada e diversos elementos ligados ao catolicismo chamaram a atenção: desde imagens de São Judas Tadeu e de Nossa Senhora de Guadalupe até um salmo sobre a mesa, identificado como o Salmo 91, tradicionalmente associado à proteção divina diante do perigo. Afinal, poderia uma pessoa tão procurada, seja pela polícia, seja por outras organizações criminosas, ser realmente católica?

Esse tipo de situação não é exatamente incomum. Em diferentes contextos da América Latina, existem registros de narcotraficantes que mantêm símbolos religiosos próximos, seja em suas casas, veículos ou até mesmo em locais de operação. Mas por quê?

Imagens de Nossa Senhora de Guadalupe, São Charbel e São Judas Tadeu, além do Salmo 91, encontradas na residência de El Mencho. (Foto: Valente Rosas / El Universal)

Devoção de narcotraficantes

Se, por um lado, esses elementos podem indicar algum tipo de devoção, por outro, levantam uma controversa difícil de ignorar: como alguém envolvido em tantas práticas violentas poderia, ao mesmo tempo, se identificar com a fé católica

Em um cenário em que o amanhã não é garantido, os símbolos com os quais muitos integrantes de cartéis tiveram contato desde a infância — considerando que mais de 70% da população mexicana se declara católica — podem ser apropriados pela cultura popular das regiões em que nasceram. Guadalajara, por exemplo, apresenta também formas de sincretismo religioso que, em alguns casos, aparecem no contexto do crime organizado. Nesse ambiente, figuras religiosas podem ser incorporadas junto a crenças populares da região e passar a ser percebidas como formas de proteção divina e/ou associadas a tentativas de justificar ações violentas, em um cenário que mistura devoção e brutalidade. Sob esse viés, São Judas Tadeu, conhecido como o padroeiro das causas difíceis, acaba sendo associado, ainda que de forma distorcida, a trajetórias marcadas pelo risco do crime.

Isso não significa, no entanto, que haja algum respaldo institucional para essa relação. A Igreja Católica rejeita esse tipo de associação, justamente por entender que a fé não pode ser usada como justificativa ou proteção para práticas que ferem diretamente seus princípios e os mandamentos divinos, especialmente o quinto mandamento, “não matarás”. No caso do CJNG, considerado uma das organizações mais violentas do México, essa controversa se torna ainda mais evidente, diante dos diversos confrontos e execuções atribuídos ao grupo, inclusive após a morte de seu líder. Estima-se que ao menos 25 membros da Guarda Nacional tenham morrido em decorrência desses episódios.

Esforços pela paz

No país latino-americano, jesuítas e outras organizações religiosas criaram o Diálogo Nacional pela Paz, iniciativa organizada pela Conferência Episcopal Mexicana (CEM), que reúne ativistas, vítimas, acadêmicos e povos indígenas com o objetivo de construir propostas concretas para a redução da violência e a promoção da paz. Do mesmo modo, bispos e sacerdotes em regiões marcadas pela crueldade, como Chiapas, atuam como mediadores entre grupos criminosos, buscando a redução de conflitos. 

Vale destacar que dois sacerdotes jesuítas foram assassinados a tiros em junho de 2022 dentro da igreja da comunidade de Cerocahui, no estado de Chihuahua — caso que chegou até o Papa Francisco, que expressou sua consternação e dor durante uma audiência geral, afirmando que a violência não resolve os problemas, mas aumenta o sofrimento, além de mencionar o elevado número de homicídios no México. O atirador era ligado ao Cartel de Sinaloa, principal rival do Cartel Jalisco Nueva Generación.

Máfia italiana e a Igreja

Esse tipo de relação, porém, não é exclusivo da América Latina. Na Itália, por exemplo, membros da máfia historicamente também se declaravam católicos, utilizavam símbolos religiosos e mantinham vínculos com práticas da Igreja, mesmo estando envolvidos em atividades violentas. Ao longo do tempo, a própria Igreja precisou lidar com essa ambiguidade e passou a condenar de forma mais clara qualquer tentativa de usar a fé como justificativa para o crime.

Em 2014, por exemplo, o Papa Francisco afirmou que mafiosos estão excomungados e declarou que “quem vive como mafioso não está em comunhão com Deus”, reforçando a incompatibilidade entre a vivência da fé cristã e a prática do crime organizado.

Para enriquecer a discussão, trago o exemplo de Pino Puglisi, um padre na Sicília que denunciava abertamente a máfia e que foi assassinado em 1993 pela Cosa Nostra. Ele atuava em defesa dos jovens e foi beatificado em 2013 durante o pontificado do Papa Francisco, tornando-se símbolo da resistência contra a violência da máfia.

Punição e redenção

Se, por um lado, há casos em que a fé é apropriada como símbolo ou proteção, por outro existem trajetórias em que ela aparece como ruptura real com a violência. Um exemplo emblemático é o de Jacques Fesch, jovem francês condenado à morte após assassinar um policial durante uma tentativa de assalto na década de 1950.

Durante o período em que esteve preso, Fesch passou por uma profunda conversão religiosa, registrada em cartas e escritos espirituais. No caso dele, sua fé surgiu como reconhecimento da própria culpa e busca por transformação. Foi executado em 1957.

Em seu diário, escreveu: “Último dia de luta. Amanhã, nesta hora, estarei no Paraíso. Que eu morra, se essa for a vontade do bom Deus... Mais cinco horas, e estarei na verdadeira Vida. Mais cinco horas, e eu verei Jesus”.

Toda essa situação aponta para outra reflexão delicada: até que ponto a justiça humana é capaz de lidar com a possibilidade de redenção? Vale a pena se questionar, ainda mais quando muitas pessoas que se dizem adeptas do cristianismo são favoráveis à pena de morte, mesmo quando a Igreja Católica afirma, pelo Catecismo (§2267), que ela é inadmissível.

Narcocultura no México

Em alguns casos, essa relação curiosa vai ainda mais longe. Não se trata apenas da devoção a santos reconhecidos pela Igreja Católica, mas da construção de figuras paralelas que passam a ocupar um lugar semelhante ao da devoção religiosa.

Um exemplo disso é o de Jesús Malverde, conhecido como o “narcossanto” ou “anjo dos pobres”. Trata-se de uma figura popular mexicana, cuja existência histórica é incerta, mas que passou a ser venerada por pessoas que buscam proteção, inclusive no contexto do crime. Sua imagem, frequentemente associada à ideia de um “Robin Hood” que ajudava os mais pobres, acabou sendo incorporada por membros do narcotráfico, especialmente na região de Sinaloa.

Diferente dos santos reconhecidos pela Santa Sé, Malverde não possui qualquer legitimidade institucional e não é reconhecido pela Igreja. Ainda assim, sua devoção se espalhou, especialmente por aqueles que buscam proteção em contextos de risco.

Efíge de Jesús Malverde. (Foto: Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0)

O sacramento da penitência

Ainda na América Latina, outro nome marcante do narcotráfico, possivelmente o mais conhecido de todos, é o de Pablo Escobar. Existem indicativos de que o colombiano também recorria à confissão.

Há uma história curiosíssima envolvendo Pablo Escobar e Darío Castrillón Hoyos, que à época era bispo. Segundo relatos, ele teria se disfarçado de entregador de leite para conseguir acesso à região onde Escobar estaria escondido, podendo assim dialogar com o narcotraficante. Questionado sobre quem o teria enviado, teria respondido que vinha “daquele que julgará todos”.

Na sequência, ainda de acordo com essas narrativas, Escobar teria confessado seus pecados naquele encontro. Trata-se, contudo, de um episódio que não é totalmente confirmado em todos os seus detalhes.

De todo modo, a história ilustra bem a complexidade dessa relação: Escobar morreu enquanto ainda vivia como narcotraficante. Talvez fosse tarde demais para abandonar essa vida, mas, ainda assim, é uma situação que chama a atenção.

Diante disso, é também curioso pensar como o Sacramento da Penitência, em certos contextos, acaba sendo pouco compreendido ou até subestimado por aqueles que buscam perdão. Em trajetórias marcadas pela violência, a busca por mudança de vida nem sempre ocorre de forma linear, passando por diferentes experiências religiosas e tentativas de reconstrução pessoal — que, em muitos casos, poderiam ser melhor compreendidas à luz da própria prática da confissão.

Portanto, o catolicismo acaba sendo, em muitos casos, um ponto de referência mesmo para aqueles que interpretam e utilizam seus símbolos de maneira equivocada — e rejeitada pela Igreja. No fim das contas, essa relação revela menos sobre a fé em si e mais sobre a forma como ela é vivida: entre contradições graves, tentativas de redenção e buscas por sentido, mesmo em contextos marcados pela violência.

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