18 Abril 2026
“Que a atenção dedicada pelo Papa Francisco a esse tema também nos leve à reflexão: não basta compreender; é preciso agir. Seja na comunidade, na paróquia ou nas pequenas atitudes do cotidiano, somos chamados a abrir espaço, incluir e, sobretudo, deixar que a caridade molde os nossos corações. Que o preconceito não encontre lugar entre nós”, escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, estagiário do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
O mês de abril reúne duas datas que convidam à reflexão. No próximo dia 21, completa-se um ano do falecimento do Papa Francisco – um pontífice que buscou aproximar a teologia do povo, especialmente dos pobres, marginalizados e mais necessitados. Antes, em 2 de abril, celebrou-se o Dia Mundial de Conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), voltado ao combate, ao preconceito e à promoção da inclusão – uma preocupação que também marcou, de forma concreta, o pontificado de Francisco.
Por ocasião do primeiro ano de falecimento do primeiro Bispo de Roma das Américas, este texto reúne alguns dos principais esforços de seu papado na promoção da paz e da inclusão, com enfoque especial na realidade das pessoas com deficiência, além de apresentar uma situação concreta vivida durante a Páscoa deste ano, que reflete o ideal de uma Igreja mais próxima e acolhedora, tão enfatizado pelo pontífice jesuíta.
O olhar do Papa Francisco
Desde a escolha do nome até suas experiências pessoais, o pontificado de Francisco enfatizou a misericórdia de Deus, o que lhe rendeu o apelido de “Papa das periferias”, ao voltar seu olhar aos marginalizados, excluídos e pobres. Tendo vivido em uma família de classe média baixa, Jorge Mario Bergoglio, filho de imigrantes italianos, promoveu reformas estruturais na Santa Sé e incentivou maior participação dos leigos na Igreja, incluindo pessoas com deficiência.
Em dezembro de 2023, ano em que completou dez anos de pontificado, Francisco dedicou sua intenção de oração às pessoas com deficiência, pedindo que estivessem no centro da atenção da sociedade e que as instituições promovessem programas de inclusão que valorizassem sua participação. Na ocasião, o pontífice chamou atenção para uma realidade ainda presente: muitas dessas pessoas sofrem rejeição, seja por ignorância ou preconceito, sendo frequentemente marginalizadas.
Vale ressaltar que essa visão também se estende à vida eclesial. Nas palavras de Francisco, não basta eliminar barreiras físicas ou tornar os espaços acessíveis: é necessário superar uma lógica de separação. Não se trata de “eles”, mas de “nós” – afinal, a Igreja é chamada a ser universal, aberta a todos. A inclusão, portanto, não é apenas estrutural, mas também espiritual e comunitária.
Um pouco antes, em 03-12-2020, por ocasião do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o pontífice reafirmou que essas pessoas têm pleno direito aos sacramentos.
O que diz o Catecismo da Igreja Católica
Por meio do Catecismo da Igreja Católica (CIC), os fiéis podem esclarecer dúvidas acerca do posicionamento da Igreja sobre diversos temas – desde o significado dos sacramentos e a explicação dos mandamentos até a Boa-Nova de Cristo –, abrangendo tanto questões mais conhecidas quanto aquelas de maior complexidade dentro da doutrina social da instituição.
O documento reforça um princípio que, por vezes, é esquecido: toda pessoa humana deve ser reconhecida e respeitada em sua dignidade. Esse entendimento parte do mandamento maior ensinado por Cristo – o amor ao próximo –, que orienta toda a moral cristã.
Assim, no que tange à vida familiar e social, o Catecismo ensina que a convivência humana deve ser marcada pelo respeito, pela caridade e pela responsabilidade mútua. Isso se aplica a todos os ambientes – desde o lar e a escola até a própria Igreja. Nesse contexto, há uma atenção especial aqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade, algo também fortemente enfatizado pelo Papa Francisco: doentes, idosos e pessoas em situação de incapacidade.
Além disso, a Igreja reafirma que a dignidade da pessoa humana permanece intacta, mesmo nas situações de maior fragilidade. Dessa forma, sua doutrina se opõe a qualquer lógica de exclusão ou descarte. Cada pessoa, independentemente de suas limitações, deve ser vista não como um peso, mas como alguém que merece cuidado, respeito e participação plena na vida comunitária.
Do mesmo modo, outro documento relevante para a discussão é a Declaração Dignitas Infinita, que trata da dignidade humana. Entre os diversos temas abordados, destaca-se a crítica à chamada “cultura do descarte”, que marginaliza idosos, pessoas com deficiência e imigrantes.
Inclusão e serviço ao altar
Ao longo dos últimos anos, o serviço ao altar tem sido objeto de debates. Há quem questione a presença de mulheres como coroinhas, auxiliando os sacerdotes durante a celebração eucarística. Após o Concílio Vaticano II, e especialmente com as reformas litúrgicas que se seguiram, uma prática que antes era restrita aos homens passou a ser flexibilizada em diversas comunidades, embora a decisão final caiba aos bispos. A permissão formal para meninas como coroinhas veio oficialmente durante o pontificado do Papa João Paulo II, último sucessor de Pedro canonizado pela Igreja.
Mais recentemente, novos exemplos ampliaram essa discussão. Em fevereiro deste ano, o Papa Leão XIV, durante uma missa em Óstia, na Itália, foi auxiliado por duas coroinhas mulheres — um gesto que repercutiu nas redes sociais e reacendeu o debate sobre o tema.
Outro caso que ganhou destaque foi o de Miguel Lopes, coroinha de 11 anos da Paróquia Santa Rosa de Lima, em Piracicaba/SP, jovem com síndrome de Down, cuja participação ativa na liturgia chamou a atenção e gerou comoção positiva.
Trazendo para o campo pessoal – e também como inspiração deste texto –, no Domingo de Páscoa deste ano, a paróquia que frequento contou com a presença de um coroinha com síndrome de Down, um rapaz curiosamente também chamado Miguel. O fato reforça que a proposta de uma Igreja mais próxima, acolhedora e concreta – tão enfatizada pelo Papa Francisco – começa a se manifestar na prática.
Loivo Aloísio Kochhann, pároco na Paróquia Imaculado Coração de Maria, em Esteio/RS, o sacerdote, com vasta experiência missionária, comentou a respeito do tema ao ser questionado sobre o envolvimento de leigos com deficiência no serviço do altar. “Primeiro, é a coisa mais natural. Infelizmente, a sociedade nem sempre percebe assim, mas, entre nós, somos todos irmãos. Mesmo que alguns tenham limites diferentes dos nossos, todos nós temos limites. [...] Nós nos completamos na comunhão: o que falta em um está no outro. É na comunhão que a gente se completa”, explica.
Ao comentar a experiência concreta da paróquia, padre Loivo enfatizou a importância de abrir espaços reais de participação: “Tudo aquilo que podemos fazer, devemos fazer. Por que não abrir uma porta tão querida para o Miguel, que é o serviço do altar? Ele é acompanhado pelo irmãozinho; os dois se amam muito e se cuidam”.
O sacerdote prossegue, destacando que o menino foi acolhido pela comunidade e demonstra grande dedicação ao serviço: “Ele foi acolhido pela turma, integrado, e tem um amor incomparável por esse serviço”.
Por último, reforça que o critério central da vida cristã está no amor:. “No Reino de Deus, serve melhor aquele que serve com mais amor. É uma alegria muito grande ter o Miguel junto com a gente no serviço do altar. ‘No altar e na vida’: este é o nosso lema como coroinha — servir a Deus no altar e na vida”.
Santos padroeiros de pessoas com deficiência
Ao longo da história da Igreja Católica, muitos santos tornaram-se padroeiros de diversas causas — entre elas, as relacionadas às pessoas com deficiência. Esse fato evidencia, mais uma vez, que a fé não encontra limites nas fragilidades humanas. O místico São José de Cupertino, também conhecido como “Santo Voador” devido aos relatos de levitação, enfrentou consideráveis dificuldades de aprendizagem, o que não o impediu de ingressar na vida religiosa. Por isso, é frequentemente invocado por estudantes antes de exames escolares e também por pessoas com deficiência intelectual.
De modo semelhante, destaca-se Santa Margarida de Castello. Nascida cega e com outras limitações físicas, foi abandonada pelos pais ainda criança em uma igreja da cidade que hoje compõe seu nome. Acolhida pelos pobres e por frades dominicanos, viveu uma vida marcada pela fé e pela caridade. Sua canonização ocorreu em 2021 durante o pontificado de Francisco.
Por fim, embora não tenha nascido com alguma deficiência, São Camilo de Lellis é frequentemente associado ao tema, pois é o padroeiro dos enfermos, dos hospitais e dos profissionais da saúde. Antes de sua conversão, enfrentou o vício em jogos de azar e, ao longo da vida, conviveu com uma úlcera incurável no pé. Sua trajetória, porém, é marcada por uma profunda entrega ao cuidado dos doentes: chegou a carregá-los nos ombros até os hospitais e a assisti-los durante epidemias de peste. Fundou a Ordem dos Ministros dos Enfermos, conhecida como Camilianos, dedicada ao serviço dos mais fragilizados.
Que a atenção dedicada pelo Papa Francisco a esse tema também nos leve à reflexão: não basta compreender; é preciso agir. Seja na comunidade, na paróquia ou nas pequenas atitudes do cotidiano, somos chamados a abrir espaço, incluir e, sobretudo, deixar que a caridade molde os nossos corações. Que o preconceito não encontre lugar entre nós
São José de Cupertino, rogai por nós.
Santa Margarida de Castello, rogai por nós.
São Camilo de Lellis, rogai por nós.
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