23 Abril 2026
Ele era o jesuíta que, quando jovem, ensinava literatura e que fascinou Borges, que percebeu nele uma pessoa capaz de dialogar com um agnóstico cego.
O artigo é de António Spadaro SJ, jesuíta, publicado por Religión Digital, 13-04-2026.
António Spadaro (Messina, 1966) licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Messina em 1988 e doutorou-se em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana em 2000, onde lecionou na Faculdade de Teologia e no Centro Interdisciplinar de Comunicação Social. Participa como membro da lista papal no Sínodo dos Bispos desde 2014 e integra a comitiva papal nas Viagens Apostólicas do Papa Francisco desde 2016. Foi editor da revista La Civiltà Cattolica de 2011 a setembro de 2023. Desde janeiro de 2024, exerce o cargo de subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação e de braço direito do prefeito, o português José Tolentino.
Eis o artigo.
Um ano se passou desde que os sinos da Basílica de São Pedro anunciaram o fim da longa e turbulenta peregrinação terrena de Jorge Mario Bergoglio, que ocorreu em 21 de abril de 2025, segunda-feira de Páscoa. Um ano é realmente pouco tempo para processar um pontificado que foi traumático por natureza — no verdadeiro sentido da palavra: uma reação evangélica que abalou todo um sistema de equilíbrios, eclesiásticos e de outras naturezas. Como qualquer trauma profundo, quanto mais se tenta suprimi-lo, mais ele afeta as profundezas.
A tentação mais insidiosa hoje é transformar Bergoglio em um ícone a ser arquivado, uma coleção de fotografias comoventes, porém sem vida. Isso seria um grave erro. O que Francisco semeou não pertence à superfície das imagens, mas a uma profundidade que fala, com crescente urgência, ao nosso presente caótico.
O legado de Bergoglio é imenso. Para discuti-lo após apenas 365 dias, precisamos, portanto, escolher um fio condutor. Parece-me que duas ideias, em particular, permeiam seus ensinamentos e iluminam sua relevância atual: a Igreja como um "hospital de campanha" e a "Terceira Guerra Mundial fragmentada". Duas fórmulas que entraram para o vocabulário cotidiano. Vale a pena aprofundá-las, pois diagnosticam nosso tempo e contêm uma proposta de cura. Além disso, estão intimamente ligadas. A imagem do hospital de campanha nasceu em agosto de 2013, quando entrevistei Francisco para a revista La Civiltà Cattolica e para as revistas culturais jesuítas, alguns meses após sua eleição. Ao ser questionado sobre o que a Igreja mais precisava, ele respondeu francamente: "Vejo a Igreja como um hospital de campanha após uma batalha. As feridas precisam ser curadas. Depois, podemos falar sobre todo o resto". Quando ele me disse isso, suas palavras me chocaram. Ele estava calmo, mas senti em suas frases a intensidade de uma missão, talvez o próprio sentido de seu pontificado.
O que ele queria dizer? Em primeiro lugar, ele fazia um diagnóstico dramático da modernidade: o homem contemporâneo vive em estado de vulnerabilidade perpétua, ferido por uma economia de exclusão, pela ameaça à "casa comum", pela solidão digital e pela perda de um horizonte de significado. Sua proposta era a de uma Igreja que abandonasse a pretensão de ser um castelo dogmático e se tornasse uma tenda móvel, pronta para se sujar na lama da história. O Evangelho como um tesouro a ser gasto na estrada, não guardado em um banco teológico ou além de uma alfândega dogmática rigidamente vigiada. Essa percepção tocou a própria essência da Igreja, não apenas seu aparato conceitual, e desencadeou um processo irreversível.
Outra grande revelação profética foi a frase "uma terceira guerra mundial travada aos poucos", proferida em agosto de 2014, no avião que retornava da Coreia. Acompanhei-o nessa viagem e fiquei impressionado com a clareza com que ele nomeou uma realidade que o mundo levaria anos para reconhecer. Não se tratava de impressionismo jornalístico. Era uma leitura da história que se provou tragicamente profética. Francisco viu um mundo desmoronando, onde a violência se tornara um vírus onipresente, capaz de se alastrar em surtos aparentemente desconexos, mas unidos por uma raiz comum de indiferença e exploração. A palavra "pedaços" indicava que a guerra contemporânea não é mais declarada com um ato formal, mas se espalha por contágio, por escalada silenciosa. Ela é travada em todo o mundo. 2025 foi o ano com o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial, envolvendo cerca de cem países, e a tendência não se reverteu em 2026. Cada pedaço contribui para o mosaico trágico de um conflito sem fronteiras. O direito internacional está sob ataque. Podemos ainda falar em "pedaços"?
O próprio Bergoglio, em janeiro de 2024, atualizou seu diagnóstico, afirmando que as peças estavam se encaixando. A força do ensinamento de Francisco reside na profunda conexão entre essas duas percepções, ambas ligadas a uma imaginação da guerra. Uma Terceira Guerra Mundial fragmentada é o diagnóstico; o hospital de campanha é a cura. Se o mundo é um campo de batalha, a resposta não pode ser o recuo para as sacristias. A resposta é sair, armar uma tenda onde a luta está acontecendo, curar as feridas sem antes pedir a identificação dos feridos, acolher a todos, a todos, a todos. Essa conexão tem um nome preciso no vocabulário de Francisco: fraternidade. A encíclica Fratelli Tutti, assinada em 2020, é o documento que reúne esses dois temas em um projeto coerente. Fraternidade não é um vago sentimento de bondade, mas uma categoria política radical: onde há reconhecimento do outro como irmão, não há espaço para a lógica do inimigo. É possível ter ideias opostas e permanecer capaz de dialogar e até mesmo ser amigo no sentido pleno da palavra. Numa época em que qualquer pessoa que pense diferente é tratada como um alvo a ser eliminado, este continua sendo um legado que pertence a todos, crentes e não crentes.
Se a fraternidade é o conteúdo, a "sinodalidade" é o método teológico e político. A palavra "sínodo" pode parecer exótica para alguns, é verdade: faz parte do léxico das Igrejas, mas em suas origens gregas tinha um significado político, significando literalmente "caminhar juntos". A jornada sinodal iniciada por Francisco foi a tentativa mais ambiciosa de dar forma concreta à Igreja como um hospital de campanha em um mundo dilacerado pela guerra. Significa, de fato, ouvir antes de reagir, valorizar a posição do outro antes de afirmar a própria: no mundo secular de 2026, dominado por algoritmos que exacerbam a polarização, esse método surge como um dos legados mais preciosos para a governança global. Francisco deixou uma Igreja que não falava mais uma única língua "romana" para se tornar uma mesa onde comunidades de todos os continentes podem se sentar juntas e viver suas diferenças em harmonia. Mas nossa análise não pode se limitar à doutrina; deve olhar para a pessoa humana. Jorge Mario Bergoglio foi o jesuíta que, em sua juventude, lecionou literatura e fascinou Borges, que nele reconheceu a capacidade de dialogar com um agnóstico cego sem a pretensão de convertê-lo. E foi a poesia que lhe proporcionou forte inspiração teológica, pastoral e até mesmo política. Qualquer pessoa comprometida com o bem comum era definida por ele como um "poeta social".
O legado de Francisco também é composto pelo seu corpo, que se tornou a própria mensagem: no silêncio ensurdecedor de Auschwitz, onde escolheu não dizer nada porque só o silêncio era digno daquele horror. Ou no altar em Ciudad Juárez a oitenta metros do muro com os Estados Unidos, onde uma única assembleia litúrgica cruzou simbolicamente a fronteira. Ou quando se curvou para beijar os pés dos políticos sul-sudaneses que vieram ao Vaticano em busca de reconciliação. E então tocou, abraçou, segurou: para ele, o toque era o sentido mais religioso. Essa fisicalidade contribuiu para o sentimento generalizado de orfandade que sentimos hoje: as pessoas não sentem falta de um teólogo, mas de um pai.
O legado de Francisco não é confiado apenas à Igreja. É confiado a todos que compreenderam que a lógica da guerra fragmentada só pode ser derrotada com a lógica da cura fragmentada: gesto após gesto, ferida após ferida, encontro após encontro. O mundo de 2026, abalado pela violência de "senhores da guerra" que pensam em rearme em vez de fome, ainda precisa desesperadamente da loucura de Francisco. Seu legado não é um sistema de regras, mas uma tensão espiritual, uma porta que permanece aberta. Bergoglio nos deixou fogo, não cinzas. E esse fogo continua a arder, lembrando-nos que tanto a fé quanto o princípio da fraternidade não são um destino seguro, mas um caminho a percorrer, com os olhos fixos nos feridos e os corações abertos para o futuro.
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