10 Abril 2026
Povos Indígenas de todo o país elaboraram uma proposta para orientar a transição energética para além dos combustíveis fósseis. A iniciativa reúne recomendações dos Povos Originários brasileiros para a construção de um mapa do caminho global para além de petróleo, gás fóssil e carvão que combine ambição climática, justiça social e proteção territorial.
A informação é publicada por ClimaInfo, 09-04-2026.
O documento “Recomendações do movimento indígena brasileiro para um mapa do caminho global para além dos combustíveis fósseis” foi entregue ao Itamaraty por lideranças indígenas na 5ª feira (9/4), durante o Acampamento Terra Livre (ATL), que termina nesta sexta-feira, em Brasília. Seu objetivo é contribuir com a presidência brasileira da COP30, que lidera os trabalhos de elaboração do roadmap.
“Não há transição energética justa sem a garantia dos nossos territórios”, reforça Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). “A demarcação e a proteção das Terras Indígenas são medidas concretas de enfrentamento à crise climática. Quando o mundo ignora isso, escolhe manter um modelo que destrói a vida. Reconhecer o protagonismo indígena abre caminho para um futuro mais equilibrado, diverso e verdadeiramente sustentável.”
A proposta se insere em um processo contínuo de incidência política internacional, dialogando com a NDC Indígena do Brasil, lançada no ano passado, e com os debates globais sobre transição energética. Entre seus principais pontos está o fim imediato da abertura de novos campos de petróleo, gás e carvão, além da criação de um acordo global vinculante para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.
Nessa linha, o documento propõe criar Zonas Livres de Combustíveis Fósseis (FFZs), com a proibição da exploração em regiões de alta relevância ecológica e cultural – como a Amazônia – e reforço das proibições já existentes para Áreas Protegidas e Terras Indígenas. A proposta dialoga com experiências internacionais recentes, como a decisão do Equador de encerrar a exploração no Parque Nacional Yasuní e restrições adotadas em outros países da América Latina.
Além da dimensão climática, a proposta destaca que investir em projetos de petróleo, gás e carvão implica risco econômico. Com a expectativa de queda na demanda por combustíveis fósseis nos próximos anos, ampliar a exploração aumenta a probabilidade da formação de ativos encalhados e reduz a capacidade de financiar soluções sustentáveis.
O texto enfatiza que uma transição energética justa depende do reconhecimento pleno dos Direitos dos Povos Indígenas, incluindo o direito à Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI). Ao mesmo tempo, alerta para o risco de que a transição energética reproduza desigualdades globais, caso não sejam considerados os diferentes contextos econômicos e sociais dos países.
Ao propor a integração entre a eliminação dos combustíveis fósseis, a proteção territorial e a Justiça Climática, o documento indígena busca influenciar as negociações internacionais e contribuir para a construção de um novo paradigma de desenvolvimento. A mensagem central da iniciativa é que “enfrentar a crise climática exige não apenas mudanças tecnológicas, mas também uma redefinição profunda das relações entre economia, território e direitos”.
Agência Brasil e IstoÉ Dinheiro repercutiram o documento indígena.
Leia mais
- ATL reúne 7 mil indígenas em Brasília contra retrocessos e pressiona Governo Lula por demarcações
- Transição energética gera corrida por minerais estratégicos com 5 mil requerimentos na Amazônia
- Para substituir Marco Temporal, Gilmar Mendes propõe mineração em terras indígenas até contra vontade dos povos
- Transição energética baseada em "minerais verdes" é um paradoxo ecológico. Entrevista com Robert Muggah
- Transição energética alimenta "corrida" por minerais críticos
- "Febre do lítio" avança para Amazônia e afeta 21 áreas protegidas
- Acampamento Terra Livre chega à 22ª edição ampliando luta por Direitos Indígenas
- Acampamento Terra Livre: a pauta indigenista ignorada?
- ATL: Mobilização indígena termina sem presença de Lula, nem novas terras demarcadas
- ATL lança comissão indígena internacional para influenciar negociações da COP30
- Indígenas são reprimidos pela polícia durante marcha do Acampamento Terra Livre em Brasília
- Mais de 6 mil indígenas se reúnem em Brasília para a 21ª edição do Acampamento Terra Livre
- Justiça nega pedido de reintegração e indígenas mantêm ocupação da Cargill
- O levante indígena contra a privatização de rios no Brasil. Artigo de Raúl Zibechi
- Indígenas Kayapó, Panará e Munduruku se unem a protesto contra dragagem do Tapajós
- A Privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Artigo de Frei Betto
- Direito indígena é moeda de troca em disputa entre Congresso e STF, diz advogado indígena
- COP30 escancara a mais nova versão da mentira. Artigo de Txai Suruí
- A imagem da COP: o bebê munduruku entre o confronto e a diplomacia
- ‘Falta vontade política de Lula’, diz liderança indígena que parou a COP30
- Marcha dos Povos da COP30 reúne 70 mil pessoas pelo clima
- Declaração da Cúpula dos Povos Rumo à COP30