A verdadeira mensagem de Jesus Cristo. Artigo de Gianfranco Ravasi

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02 Abril 2026

"Em todos os casos, as análises de Lohfink combinam uma qualidade dupla: revelam um rico contexto histórico-crítico e teológico, mas também uma extraordinária legibilidade", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 29-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quando conto isso aos jovens de hoje, vejo pairar em seus rostos um véu mais de ceticismo do que de espanto. No entanto — não no distante Renascimento, e menos ainda na Idade Média — há apenas sessenta anos, todo o duplo curso acadêmico que frequentei nas universidades pontifícias romanas era ministrado em latim. É claro que isso era um pesadelo para estudantes (e professores) africanos, asiáticos ou estadunidenses, e os escorregões para a mera retroversão das línguas modernas de maneira macarrônica eram frequentes.

Paradoxalmente, entre meus professores havia duas figuras eminentes das disciplinas teológicas: o canadense Bernard Lonergan (1904-1984), que se expressava num latim impecável, e o alemão Norbert Lohfink (1928-2024), que, ao contrário, precisava transcrever todas as suas aulas porque era incapaz de usar o latim oralmente, mesmo o escolástico. Essa premissa um tanto surpreendente visa evocar dois irmãos que estiveram entre os mais importantes exegetas alemães: por um lado, o já mencionado Norbert, que deixou estudos capitais sobre alguns escritos do Antigo Testamento com os quais eu mesmo, por vezes, até mesmo me confrontei dialeticamente; por outro lado, Gerhard Lohfink (1934-2024), que foi professor de teologia e exegese do Novo Testamento em Tübingen. Gostaria agora de me referir a este último autor - que não conheci pessoalmente — por um ensaio realmente fascinante, mesmo para o mundo "laico" que queira se debruçar sobre a figura e a mensagem autêntica de Jesus de Nazaré. Nem é preciso reiterar que o livro é inestimável para os cristãos que desejam "crescer no pleno e perfeito conhecimento de Cristo", como o apóstolo Paulo sugere repetidamente em sua Carta aos Colossenses.

O estudioso peneira as páginas do Evangelho em busca aqueles que são tecnicamente definidos como lóghia, ou seja, em grego, os "ditos" de Jesus. Inicialmente, ele havia separado 150; uma clivagem posterior os reduziu para 70, que foram então organizados em um setenário temático. O tema central da pregação de Cristo é o Reino de Deus, onde, no entanto, a categoria deve ser entendida na forma dinâmica de "senhorio", realeza mais que reino. Em segundo lugar, são examinados os ditos sobre o envio dos doze apóstolos em missão "como cordeiros entre os lobos". A terceira seção reúne advertências sobre o estilo e a modalidade de vida do discípulo em sua obra de proclamação e testemunho ("se o sal perder o sabor..."). A quarta seção, por sua vez, concentra-se na existência de todos os cristãos: há 18 lóghia nos quais brilha a estrela do amor, mas também uma opção específica, como a relação com a política: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!”. A esse respeito, gosto de repetir que Jesus já havia usado o tuite: a frase citada (Marcos 12,17) no texto grego, de fato, contém 49 caracteres, incluindo os espaços! No entanto, vamos pensar na importância que sua interpretação e aplicação tiveram ao longo dos séculos. Na quinta seleção, se destaca a figura de Cristo, que se ergue com autoridade por meio de declarações quase escandalosas para a época: "Seus pecados estão perdoados... Eu não trouxe paz, mas a espada."

É ele que ainda ocupa o centro das atenções quando aponta o dedo – na sexta parte da lista – contra a crise da religiosidade no Israel próximo a ele, com poderosas denúncias: "Ai de vós, doutores da lei...!" O pano cai na sétima etapa, quando somos colocados "diante da morte", que não é apenas a nossa e a da humanidade (o discurso escatológico), mas também aquela do próprio Jesus, e aqui são analisadas as palavras da Última Ceia. Em nossa opinião, também teriam merecido consideração as sete palavras de Cristo na cruz, apesar de todas as verificações histórico-críticas que exigem.

Uma vez traçado o mapa, talvez se deveria iniciar uma jornada por duas abordagens distintas. A primeira poderia ser de continuidade: permitiria delinear não apenas um dos poucos perfis biográficos fundamentados do rabino da Galileia, mas também esboçar a essência de sua mensagem, muitas vezes provocativa devido à sua radicalidade. Outra tipologia, talvez a mais imediata, poderia ser — folheando o índice — identificar os lóghia mais emblemáticos ou aqueles que despertam maior interesse devido à sua originalidade ou para a sensibilidade do leitor. Vejamos alguns exemplos: a expulsão dos demônios, o celibato de Jesus, perder a vida para salvá-la, o adultério consumado já nos olhos, o divórcio, a mão decepada, o camelo e o buraco da agulha, coar um mosquito, e assim por diante. Em todos os casos, as análises de Lohfink combinam uma qualidade dupla: revelam um rico contexto histórico-crítico e teológico, mas também uma extraordinária legibilidade. Esta última é confiada a uma escrita envolvente, mantida mesmo na tradução italiana de Maria Angela Meraviglia, uma característica que costuma estar presente na valiosa série "Biblioteca di Teologia contemporanea", publicada pela Queriniana, onde esse ensaio aparece com o número 228, e que já incluiu todos os principais teólogos do século XX, bem como muitos textos menores de forte impacto e inspiração.

Em conclusão, consideramos extremamente pertinente a epígrafe que Lohfink coloca em seu ensaio, haurindo no escritor colombiano Nicolás Gómez Dávila (1913-1994), autor propenso a desmistificar até mesmo certos estereótipos religiosos: "Em sua morte, Cristo não deixou documentos, mas discípulos. Cristã não é a sociedade em que ninguém comete pecados... A Igreja não deve adaptar o cristianismo ao mundo, mas também não deve adaptar o mundo ao cristianismo; em vez disso, deve preservar um contramundo dentro do mundo."

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