EUA. Bispo de El Paso insta agentes do ICE a não cumprirem ordens de deportação ilegais

Bispo Mark J. Seitz (Foto: Ben Stadelmaier | Wikimedia Commons)

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20 Março 2026

Numa iniciativa sem precedentes na hierarquia católica norte-americana, o bispo de El Paso, Mark J. Seitz, publicou uma carta pastoral onde apela diretamente aos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Patrulha de Fronteira dos EUA para que não cumpram ordens de deportação que considerem ilegais ou imorais.

A reportagem é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 19-03-2026.

O documento, apresentado no último domingo pelo prelado após a missa que celebrou na catedral de São Patrício e lido em todas as paróquias da diocese, surge num contexto de crescente tensão e de um reforço orçamental histórico para as agências de fiscalização migratória.

Na carta, Seitz sublinha que “ninguém precisa de obedecer a uma ordem ilegal” e exorta os agentes federais — muitos deles católicos — a realizarem um discernimento entre o que são as diretrizes governamentais e as exigências morais do Evangelho. O bispo oferece ainda “apoio pastoral” aos funcionários que enfrentam dilemas éticos, reconhecendo que estes podem ser vítimas de táticas de intimidação dentro do próprio Departamento de Segurança Interna (DHS).

A carta pastoral não poupa críticas às operações em curso ordenadas pela administração Trump. O bispo descreve o cenário atual como uma crise humanitária onde “vizinhos estão a ser sequestrados à saída de tribunais” e “mães e pais perdem o direito de trabalhar”. Para Seitz, a campanha de deportação em massa é um “grave mal moral” que não aumenta a segurança pública, mas antes “separa famílias e ameaça o bem-estar económico”.

O prelado traça ainda um paralelismo com o “povo de Deus”, que é, historicamente, um povo em movimento, e identifica a figura de Jesus com a dos migrantes que hoje sofrem “tortura psicológica” em centros de detenção privados.

A missiva termina com a convocatória de toda a diocese para uma marcha “pelo fim das prisões e deportações em massa”. O ponto de encontro será na Praça Lizard, no centro histórico de El Paso, Texas, na próxima terça-feira, dia 24 de março, às 18 horas.

Além de convidar o clero, religiosas, estudantes e professores, bem como todos os católicos e “pessoas de consciência e boa vontade, a unir-se a si e ao bispo auxiliar Anthony C. Celino em oração e marcha pelo fim das detenções e deportações em massa e pelo respeito à vida humana, Seitz pede “a todos aqueles que desfrutam dos privilégios da cidadania americana que participem, como um ato de solidariedade quaresmal com aqueles que não podem marchar e orar conosco porque têm medo”.

Um momento crítico para o país e a diocese

A carta pastoral do bispo Seitz surge num momento em que, apesar das disputas orçamentais em Washington, o ICE garantiu um financiamento de 75 mil milhões de dólares até 2029. Segundo o Brennan Center for Justice, citado pela revista jesuíta America, esta verba triplicou o orçamento da agência, tornando-a a maior força policial federal dos EUA, com 45 mil milhões destinados especificamente à expansão de centros de detenção.

Simultaneamente, a diocese de El Paso atravessa um período de fragilidade institucional. No passado dia 6 de março, a diocese entrou com um pedido de recuperação judicial (falência) para fazer face a potenciais indemnizações “astronómicas” relacionadas com uma dúzia de processos de abuso sexual por parte do clero.

Apesar das dificuldades financeiras da diocese, o bispo Mark Seitz promete “redobrar” os esforços no apoio aos imigrantes. O plano inclui a presença de agentes pastorais nos tribunais e centros de detenção, bem como uma luta ativa contra o racismo sistémico. “O asilo e a proteção internacional acabaram”, lamenta o bispo, instando a Igreja a ser a voz que trava a desumanização daqueles que procuram refúgio nos EUA.

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