Rússia: um Natal poluído. Artigo de Lorenzo Prezzi

Foto: Kremlin/Fotos Públicas

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09 Janeiro 2026

"A 'empreitada espiritual' do Russky Mir não se inspira na consciência, mas no heroísmo, sem o qual não pode haver um desenvolvimento saudável da civilização. Ela se opõe à pretensão de fazer do bem-estar e do 'laicismo militante' o objetivo final da visão coletiva. Um heroísmo que sustenta as dimensões mais elevadas da alma: da pesquisa científica ao sacrifício do soldado", escreve Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 08-01-2026. 

Eis o artigo.

A memória da encarnação do Senhor e sua mensagem de paz e alegria estão condensadas nos ensinamentos do Patriarca Kirill de Moscou, numa justificativa para a guerra, na oposição ao Ocidente e na suposta proposta de uma "civilização" alternativa. A saudação de Vladimir Putin aos fiéis do país da Ortodoxia "Ortodoxa" sela o conjunto.

Respeito aos direitos humanos, livre circulação de pessoas e economia de mercado: o patriarca enumera meticulosamente as conquistas da Rússia em uma entrevista de Natal (7 de janeiro) ao canal estatal de televisão Russiya 1, a pedido do diretor da Tass, A.O. Kondrashov, e questiona por que "muitos se rebelaram contra nós". "Eu me fiz essa pergunta e cheguei a essa conclusão. Não é coincidência, pois representamos uma alternativa muito atraente para o desenvolvimento da civilização. Oferecemos valores que o Ocidente rejeitou e continua rejeitando. Propomos não exilar a fé cristã, como está acontecendo atualmente no Ocidente."

Um projeto civilizacional que se opõe ao "secularismo militante" em nome dos "valores tradicionais", a ponto de tornar a Rússia um "adversário ideológico", aliás, um inimigo espiritual. "Precisamente porque essa civilização (ocidental) justifica o pecado e acredita que o pecado não é pecado."

Religião civil e o projeto da civilização

Créditos: Reprodução do Facebook (Embaixa da Rússia no Brasil)

A "empreitada espiritual" do Russky Mir não se inspira na consciência, mas no heroísmo, sem o qual não pode haver um desenvolvimento saudável da civilização. Ela se opõe à pretensão de fazer do bem-estar e do "laicismo militante" o objetivo final da visão coletiva. Um heroísmo que sustenta as dimensões mais elevadas da alma: da pesquisa científica ao sacrifício do soldado.

Tudo isso exige a formação de um consenso nacional em torno dos "conceitos" que estão ligados à capacidade e à própria possibilidade de existência de um Estado. Deve haver apoio público para essas ideias. Não se trata apenas de garantir a segurança militar, "mas também a segurança espiritual e moral, ou seja, salvaguardar nossos valores, que são em grande parte moldados pelas religiões tradicionais russas". "Se alguém não se encaixa nesse consenso, é considerado um traidor da pátria, com todas as consequências legais que isso acarreta".

Em uma mensagem de felicitações aos militares e suas famílias, o presidente Putin comparou a tarefa de salvar a pátria à de Cristo: "Os soldados russos sempre cumprem essa missão, por assim dizer, em nome do Senhor: a defesa da pátria, a salvação da pátria e de seu povo". A afirmação de uma missão sagrada provoca profunda indignação na teóloga Natalia Vasilechivh, que denuncia a identificação da agressão militar com a religião.

Em sua homilia para as solenes Vésperas de Natal, Cirilo mais uma vez exaltou o milagre da transição da ideologia ateísta militante do passado para a plena liberdade de crença e a adesão ortodoxa dos mais altos líderes do Estado e do exército. Sem qualquer imposição ou controle, a Igreja Russa "tem mais liberdade do que tinha quando um imperador ortodoxo estava à frente do Estado".

"Hoje, desfrutando desta liberdade, desta abordagem equilibrada e razoável do governo moderno em relação à Igreja e ao Estado, não devemos esquecer os tempos pelos quais nossa Igreja e nosso povo passaram. E devemos agradecer ao Senhor pelo que aconteceu em nossa pátria, por nosso Presidente Vladimir Vladimirovich (Putin), um verdadeiro crente ortodoxo, por muitos membros do governo que também são ortodoxos e, finalmente, pela atmosfera espiritual de nosso país. Vivemos, de fato, em tempos favoráveis".

O Supremo

A plenitude da civilização e da espiritualidade cantadas pelo patriarca é selada pela saudação de Natal enviada aos fiéis pelo presidente, que exalta a sinfonia, ou melhor, a subordinação dos dois poderes ao seu.

"É com profunda satisfação que destaco a enorme e verdadeiramente singular contribuição da Igreja Ortodoxa Russa e de outras denominações cristãs para a unidade da sociedade, a preservação de nossa rica herança histórica e cultural e a formação patriótica, espiritual e moral dos jovens. As organizações religiosas dedicam-se incansavelmente a atos de misericórdia e caridade, cuidam dos necessitados, apoiam soldados e veteranos das forças de operações especiais e contribuem significativamente para a harmonização do diálogo inter-religioso em nosso país. Esse trabalho tão importante e necessário merece nosso sincero reconhecimento".

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