29 Novembro 2025
"O ser humano, quando sobrecarregado por múltiplas tarefas, limita-se ao superficial, tornando-se incapaz do aprofundamento contemplativo. O autor ensina ainda que esses fatores impedem desempenhos culturais que exigem profunda atenção, tais como a filosofia, as artes e a espiritualidade. Seria como dizer que esses excessos retiram da humanidade características elementares, muitas das quais nos diferenciam dos outros seres vivos", escreve Márcio Júnior Braga dos Santos, analista de Pastoral Universitária na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, graduado em Direito pela mesma instituição. É mobilizador do projeto Usina de Valores do Instituto Vladimir Herzog, atuando com educação popular em Direitos Humanos, e membro da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara.
Eis o artigo.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve em seu livro Sociedade do Cansaço, publicado pela primeira vez em 2010, o que seria a enfermidade do século XXI. Diferentemente das enfermidades dos séculos passados, em sua maioria virais ou bacterianas, o autor relata que vivemos tempos de doenças neuronais, como a síndrome de burnout e a depressão. Essa nova realidade é causada pelo que ele chama de “violência positiva” — o imperativo do “podemos mais e melhor” — que, ao contrário da violência própria das enfermidades imunológicas do século passado, não é excludente, mas exaustiva.
A enfermidade do século se dá, entre outros fatores, pela superprodução, característica da contemporaneidade. Han afirma que, para além da sociedade disciplinar descrita por Foucault, vivemos a sociedade do desempenho, onde o explorador é, em grande medida, o próprio explorado, que encontra-se em guerra consigo mesmo.
Essa violência causada pelo excesso de positividade, em contraponto ao que se tinha anteriormente — marcado por proibições próprias das violências negativas — manifesta-se no excesso de estímulos e informações que, consequentemente, levam à fragmentação da atenção e à adoção de uma atenção multitarefa, típica para a sobrevivência da vida selvagem.
O ser humano, quando sobrecarregado por múltiplas tarefas, limita-se ao superficial, tornando-se incapaz do aprofundamento contemplativo. O autor ensina ainda que esses fatores impedem desempenhos culturais que exigem profunda atenção, tais como a filosofia, as artes e a espiritualidade. Seria como dizer que esses excessos retiram da humanidade características elementares, muitas das quais nos diferenciam dos outros seres vivos.
Não distante dessa realidade estão os estudantes universitários, que muitas vezes se encontram sob grande pressão externa, decorrente das obrigações próprias da vida acadêmica, mas também sob embates internos, característicos dos indivíduos da sociedade atual.
Nessa circunstância, a pastoral na universidade — tanto em instituições de ensino superior católicas quanto nas ações de evangelização em instituições não confessionais, seja por meio de uma pastoral universitária ou de movimentos — encontra-se diante de um paradoxo: por um lado, cumprir sua missão no complexo e plural ambiente universitário, amplamente afetado pela sociedade do desempenho; e, por outro, promover ações que busquem responder a essa enfermidade social e contribuir para sua superação, favorecendo o resgate da contemplação, elemento essencial da religiosidade cristã.
A ação pastoral da Igreja deve se destacar pela proximidade. Para além de guiar — função própria de todo pastoreio — é preciso seguir a práxis de Jesus, o Bom Pastor (Jo, 10), Aquele que cuida das ovelhas. Cabe à pastoral universitária, portanto, a importante missão de dialogar com as condições da vida acadêmica, considerando o tempo e o espaço históricos, para assim concretizar o serviço de comunicar Jesus nesses ambientes.
O Papa Leão XIV, na Carta Apostólica Desenhando novos mapas de esperança, por ocasião do 60º aniversário da Declaração Conciliar Sobre a Importância da Educação, diz que “a antropologia cristã é a base de um estilo educativo que promove o respeito, a orientação personalizada, o discernimento e o desenvolvimento de todas as dimensões humanas” (nº 7.1); direção que a pastoral universitária — em universidades católicas ou não — deve seguir, sem jamais perder de vista a missão humanizadora, própria da fé cristã e da educação de modo geral.
O Santo Padre afirma ainda, em referência ao seu predecessor, o Papa Francisco, que “formar a pessoa ‘inteira’ significa evitar compartimentos estanques. A fé, quando verdadeira, não é ‘matéria’ a mais, mas um sopro que oxigena toda a outra matéria” (nº 6.2). Ele acrescenta: “a tarefa hoje é ousar um humanismo integral que responda às questões do nosso tempo sem perder a sua origem” (nº 6.2).
Sendo assim, as práticas pastorais em ambientes universitários — sejam momentos de oração, reflexão bíblica, meditação, escuta, celebrações eucarísticas ou da Palavra de Deus, entre outras — devem estar atentas à realidade.
O prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, Cardeal José Tolentino de Mendonça, em seu livro Libertar o tempo: para uma arte espiritual do presente, ressalta a importância da lentidão. Ele adverte sobre a necessidade de resgatarmos nossa relação com o tempo e de nos afastarmos dos gestos compulsivos, enfatizando que a lentidão é um antídoto contra a rasura presente nas diversas instâncias da vida contemporânea.
Para além de uma espiritualidade que cultive a arte da lentidão, é necessário compreender a importância da espera. Diferente do que somos levados a pensar, esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Em muitos casos, é o contrário, como acrescenta o autor: “é reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser; é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada” (MENDONÇA, p. 35).
Compreender isso é essencial para uma resposta pastoral aos desafios do nosso tempo. As atividades da pastoral universitária devem ser uma “válvula de escape”, que permita às pessoas de toda a comunidade universitária encontrar um respiro em meio ao turbulento cenário da vida cotidiana. Mais do que promover eventos e responsabilidades excessivas, devemos cuidar para que encontrem um ambiente de acolhida, no qual possam cultivar uma espiritualidade que as aproxime de Deus e as conduza à harmonia consigo mesmas.
Referências
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LEÃO XIV. Carta Apostólica “Desenhar novos mapas de esperança” por ocasião do 60.º aniversário da Declaração conciliar Gravissimum Educationis. Cidade do Vaticano, 28 out. 2025.
MENDONÇA, José Tolentino. Libertar o tempo: para uma arte espiritual do presente. São Paulo: Paulinas, 2017.
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