A mística filial. Artigo de Roberto Mela

Foto: Jr Korpa/Unsplash

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08 Novembro 2025

Os dois estudiosos estão convencidos de que o dado teológico da filiação divina é um eixo central da revelação redentora de Deus Pai em Jesus Cristo, pensada desde o princípio, antes da criação do mundo.

O artigo é de Roberto Mela, teólogo e professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimanna News, 24-02-2025. 

Eis o artigo. 

O Verbo de Deus encarnou-se no seio da Virgem Maria para tornar os homens participantes de sua relação filial com o Pai. O que ele possui por natureza, concede-o por participação à humanidade, graças à força do Espírito Santo.

Antes mesmo da criação do mundo, no grande sonho de Deus, já existia o chamado universal a “ser para ele filhos adotivos, por meio de Jesus Cristo” (Ef 1,5).

Isso se realizou na “plenitude dos tempos”, mediante o duplo envio, estreitamente ligado, do Filho e do Espírito. Escreve Paulo: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher […] para que recebêssemos a adoção filial. E a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: ‘Abbá! Pai!’” (Gl 4,4-6; cf. Rm 8,14-15).

Também o prólogo do Evangelho de João afirma que todos os que acolhem o Filho na fé recebem o “poder”, isto é, a capacidade “de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). A finalidade filial da encarnação do Verbo é ainda ilustrada no Evangelho de João, que apresenta a vida do Filho de Deus na terra como um itinerário espiritual rumo à união com o Pai.

Assim se delineia o caminho da “mística filial”, que os autores exploram à luz do Evangelho joanino, entrelaçando habilmente exegese e teologia espiritual. Eles estão convencidos de que é urgente redescobrir essa mística, enraizada no batismo, dom oferecido a cada homem e mulher chamados a se tornarem plenamente filhos de Deus.

A mística filial entre exegese e teologia espiritual

Ponga e Manes desenvolvem sua tese percorrendo as páginas do Evangelho de João, alternando, nos dez capítulos da obra, análise exegética e reflexão teológico-espiritual, com apoio na experiência mística dos santos ao longo dos séculos.

Após a introdução (pp. 9-12) e a explicação da via da mística filial, servindo-se de Jo 1 e dos escritos de Tomás de Aquino (pp. 13-18), abordam a via da mística nupcial (pp. 19-28), ilustrada através do testemunho de João Batista (Jo 3), do profeta Oseias e do Cântico dos Cânticos, reforçada pelas contribuições da teologia espiritual do Carmelo (tanto da antiga observância quanto dos Carmelitas Descalços), destacando João da Cruz e Teresa d’Ávila.

A vida do Filho na terra (pp. 29-34) é descrita a partir do testemunho de João Batista (Jo 3) e da reflexão sobre o Filho que vem “do alto” e traz consigo as palavras e a vida do Pai, comunicando o Espírito sem medida (Jo 3,34b).

O Filho enviado pelo Pai (pp. 35-42) proclama a Verdade da vontade do Pai, é alimento de vida, cumpre a vontade salvífica de Deus em favor do mundo. Jesus evangeliza os samaritanos (Jo 4). O Filho obedece porque partilha a mesma vontade do Pai. Para entrar numa verdadeira obediência, o filho ou a filha devem apropriar-se de sua identidade, à imagem do Filho. Segundo Ponga, o mundo atual impede o homem de viver sua verdadeira filiação.

As obras do Pai por meio do Filho (pp. 43-50) são apresentadas a partir de Jo 5: “Em verdade, em verdade vos digo: o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão aquilo que vê o Pai fazer; o que ele faz, o Filho também o faz do mesmo modo” (Jo 5,19).

Tomás de Aquino destacava que toda obra de Deus fora da Trindade é comum às três Pessoas. Para Irineu de Lião, quando as Escrituras são corretamente interpretadas, pode-se “ver todo o corpo da obra realizada pelo Filho” (Adversus Haereses, IV, 33, 15).

Jo 5 mostra que a cura do paralítico na piscina de Betesda é obra do Filho em imitação ao Pai. Essas obras glorificam o Pai e são continuadas pelos discípulos, que se tornam filhos adotivos e partilham da mesma glória.

A testemunha do Pai sobre o Filho (pp. 51-60) se manifesta por meio de João Batista (Jo 5) e das obras confiadas ao Filho (Jo 5,36). O testemunho é verdadeiro porque Deus é “o Verídico” (cf. Ap 19,9; 1Jo 5,20). O Pai é quem verdadeiramente conhece o Filho, no céu e na terra. De modo análogo, o pai espiritual transmite uma herança espiritual — um patrimônio “genético” específico.

No capítulo “O Filho, rosto do Pai” (pp. 61-68; cf. Cl 1,15), reflete-se sobre Jo 14,7-11 e a resposta de Jesus a Tomé. Entre Pai e Filho há uma imanência recíproca. “Se me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai” (Jo 14,7).

Jesus mostra o Pai porque está em comunhão plena com ele: diz suas palavras e realiza suas obras. “Ser o rosto do Pai”, recorda Ponga citando Irineu de Lião, “é passar da imagem de Adão à semelhança do Filho”. A união transformante, fruto da ação do Espírito Santo, faz-nos crescer nesse caminho de conformação ao Filho, para sermos o rosto do Pai na terra, como o seremos plenamente no céu — onde viveremos a mística filial em sua totalidade e eternidade (p. 68).

A oração do Filho e a meta da vida filial

O capítulo “A oração do Filho” (pp. 69-78) reflete sobre os muitos momentos de oração de Jesus em busca da intimidade com o Pai. Durante a vida pública e na Última Ceia (Jo 17), na oração de despedida, ele se dirige ao Pai com abandono, buscando glorificar seu nome, orando por si, pelos Doze e por todos os que creriam em seu nome. A oração revela seu vínculo eterno com o Pai, “Deus glorioso” (Jo 17,1-5).

Jesus reza agradecendo (Jo 11,41-42) e suplicando (Jo 12,27-28a), certo de ser ouvido. Ponga lembra que orar é um ato de comunhão filial, fundado na confiança e obediência de quem sabe ser atendido. No estágio final da união mística, a oração torna-se fusão de vontades com o Pai. A mística filial é o caminho para a glória dos filhos de Deus, reconciliados com o Pai e “coerdeiros de Cristo” (Rm 8,17).

“Subo para meu Pai e vosso Pai” (Jo 20,17), diz Jesus a Maria Madalena (pp. 79-90). O caminho da mística filial é uma ascensão ao Pai, pela ascensão do Filho. O fim da vida terrena do Filho é o retorno ao seio do Pai — o ápice da mística filial, o cumprimento da vida cristã e humana.

Inácio de Antioquia († 107 d.C.) escreve: “Todo o meu desejo terreno foi crucificado, e dentro de mim murmura uma água viva que me diz: ‘Vem ao Pai’” (Rm 7, 2). O objetivo último da mística filial é alcançar o Pai e viver com ele eternamente.

Manes cita passagens de Jo 13 e Jo 17; Ponga relembra reflexões da Subida ao Monte Carmelo de São João da Cruz e de O Castelo Interior de Santa Teresa d’Ávila. O autor resume as etapas da vida filial rumo à comunhão plena com o Pai: o caminho espiritual e sacramental culmina na assunção, dom participado pelo Filho.

“O poder (exousia) de se tornar filhos de Deus”

(pp. 91-100) — reflete sobre o prólogo de João (Jo 1). Ponga cita Raniero Cantalamessa, que distingue três estágios pelos quais nos tornamos filhos e filhas de Deus:

Pelo dom do Espírito Santo enviado por Cristo ressuscitado (Jo 16,1-15; 20,22);

Pelo Espírito que nos une a Cristo e faz de nós um só corpo com Ele (Jo 17,21);

Pela união com Cristo que acontece pela fé e pela obra divina do Espírito.

Segundo Ponga, essa operação espiritual se realiza pela mediação de um pai ou mãe espiritual. O teólogo lista, por fim, dez princípios práticos para viver a filiação espiritual (pp. 98-99).

Após a breve conclusão (pp. 101-102), o volume encerra-se com cinco excursus (pp. 105-132):

O acompanhamento espiritual;

A paternidade e maternidade espirituais (com oito características de um pai ou mãe espiritual, p. 113);

A herança espiritual;

A família espiritual;

O sacerdote: filho no Filho.

A ideia de unir reflexões exegéticas e teológico-espirituais sobre um tema central da vida cristã mostra-se muito feliz. O texto é claro, acessível e repetido de modo intencional, reforçando a ideia central do livro.

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