"A esperança que as Escrituras narram se expressa de muitas maneiras, como se estivessem cientes de nossos esforços e objeções e tentassem questionar as nossas resistências, tentando abrir uma brecha no muro de nossa incredulidade, primeiro num ponto, depois em outro e mais outro", escreve Angelo Reginato, pastor batista, em artigo publicado por Aggiornamenti Sociali, outubro de 2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Em um tempo marcado por eventos que parecem insensatos, explosões de violência e flagrantes injustiças, pode haver a tentação de se referir à esperança como um apelo obrigatório e retórico em um discurso de viés religioso que, por isso mesmo não consegue falar. Como podemos evitar simplificações? Como podemos explicar e justificar a esperança neste mundo complexo, onde ela parece não encontrar lugar?
O que é esperança? Em hebraico, chama-se tikvah: uma palavra derivada da raiz kav, de onde vem a palavra "cabo". Para a sabedoria bíblica, a esperança é um processo, uma corda que une passado, presente e futuro, a linha de um horizonte de sentido, a ser seguido por toda a existência. Franz Kafka, no primeiro de seus aforismos de Zürau, escreve: "O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida". Desde sempre parte do vocabulário da garantia de segurança, como uma corda oferecida às nossas mãos para prosseguir com segurança mesmo por caminhos perigosos, a esperança é, na verdade, um "escândalo", uma corda na qual tropeçar, um elemento imprevisível que nos obriga a parar, impossibilitados de prosseguir rapidamente pelos caminhos conhecidos. É a suspeita de que a vida poderia ser diferente, de que o mundo poderia ser habitado de outras formas.
A esperança judaico-cristã espera contra toda esperança, diz-nos o apóstolo Paulo (Romanos 4,18): é de uma ordem diferente das nossas pequenas expectativas. É a irrupção de um mundo de cabeça para baixo, que nem sequer conseguimos imaginar. Especialmente no nosso presente desesperado, de uma esperança afastada da retórica. Há momentos históricos em que ter esperança parece possível apenas a pessoas ingênuas, que descartam com demasiada rapidez a dor do mundo. Momentos em que a honestidade intelectual impele a um distanciamento do horizonte aberto da esperança. Há situações existenciais em que Jó toma a palavra: Onde está, pois, a minha esperança? Quem a poderá ver? (17,15). O seu protesto chega a envolver o seu Deus: quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou a minha esperança, como a uma árvore. (19,10).
Há momentos em que os lábios dão voz apenas ao desespero: "Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no Senhor!" (Lamentações 3,18). Vivemos um momento desse tipo.
Conhecemos todas as objeções — verdadeiras! — que surgem diante de uma afirmação tão peremptória: a história nunca é numa única dimensão, por isso devemos acertar as contas em duas frentes; a esperança, além disso, nos é dada justamente para os momentos de desespero; é uma força, não um obstáculo. Certo! Mas, no entanto, há momentos em que as palavras que reabrem o jogo soam consoladoras. Já esperaríamos por isso, especialmente se o discurso busca inspiração no alfabeto bíblico, na gramática da fé. Não é assim que funciona o roteiro religioso? Depois de evocar o cenário mais sombrio, acende-se a luz necessária para evitar afundar naquelas trevas. Para muitos de nossos contemporâneos, trata-se de uma retórica previsível e inaceitável, dada a situação em que a humanidade se encontra. Por uma vez, tentemos olhar para a esperança bíblica sem partir desse roteiro.
A esperança que as Escrituras narram se expressa de muitas maneiras, como se estivessem cientes de nossos esforços e objeções e tentassem questionar as nossas resistências, tentando abrir uma brecha no muro de nossa incredulidade, primeiro num ponto, depois em outro e mais outro. Mesmo onde o ataque parece completamente sem sentido e, portanto, improvável; e, justamente por isso, não preparamos nenhum tipo de defesa. Mesmo para essa esperança que se anuncia em uma narrativa desesperada, que é uma raiz em solo árido, as Escrituras tentam "explicar e justificar", como lembra a Primeira Epístola de Pedro (3,15).
A referência não é a um meteorito da narrativa bíblica, mas a um gênero literário bem conhecido na literatura profética, do qual é um componente essencial: as ações simbólicas com as quais os profetas acompanham seus oráculos, para que a Palavra divina, da qual atuam como porta-vozes, ressoe tanto pelos discursos quanto pelos gestos. É uma manobra pedagógica, mostrar aos olhos o que foi dirigido aos ouvidos; a manifestação de uma tenacidade que não desiste diante da insignificância da palavra proclamada e de imediato abandonada; uma tentativa a mais da palavra, quando as palavras já não têm mais força. Trinta e duas ações desse tipo são atestadas nas Escrituras. O profeta que mais fez uso desses gestos foi Ezequiel, que cria um simbólico cerco a Jerusalém ou permanece deitado de lado por dias a fio.
Jeremias também encena inúmeras ações simbólicas: do cinto deixado para apodrecer na água, ao jarro quebrado, à compra de um campo durante o cerco de Jerusalém. Consideremos este último episódio, no capítulo 32, 6-15, do livro de Jeremias:⁶ Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:⁷ Eis que Hanameel, filho de Salum, teu tio, virá a ti dizendo: Compra para ti a minha herdade que está em Anatote, pois tens o direito de resgate para comprá-la.⁸ Veio, pois, a mim Hanameel, filho de meu tio, segundo a palavra do Senhor, ao pátio da guarda, e me disse: Compra agora a minha herdade que está em Anatote, na terra de Benjamim; porque teu é o direito de herança, e tens o resgate; compra-a para ti. Então entendi que isto era a palavra do Senhor.⁹ Comprei, pois, a herdade de Hanameel, filho de meu tio, a qual está em Anatote; e pesei-lhe o dinheiro, dezessete siclos de prata.¹⁰ E assinei a escritura, e selei-a, e fiz confirmar por testemunhas; e pesei-lhe o dinheiro numa balança.¹¹ E tomei a escritura da compra, selada segundo a lei e os estatutos, e a cópia aberta.¹² E dei a escritura da compra a Baruque, filho de Nerias, filho de Maaseias, na presença de Hanameel, filho de meu tio e na presença das testemunhas, que subscreveram a escritura da compra, e na presença de todos os judeus que se assentavam no pátio da guarda.¹³ E dei ordem a Baruque, na presença deles, dizendo:¹⁴ Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Toma estas escrituras, este auto de compra, tanto a selada, como a aberta, e coloca-as num vaso de barro, para que se possam conservar muitos dias.¹⁵ Porque assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Ainda se comprarão casas, e campos, e vinhas nesta terra”.
Ao profeta é feita a proposta de comprar um campo por um primo. Pena que Jeremias está na prisão e que todo o Reino de Judá esteja prestes a cair nas mãos dos Babilônios. O profeta, mesmo assim, por indicação divina, compra o campo (Jeremias 32, 14-15). Essa estranha transação financeira torna-se uma ação simbólica que expressa a esperança de um novo começo após a perda da terra. Deus diz a Jeremias: tu, que denunciaste a infidelidade do povo que abandonou a Palavra recebida no Sinai, com a inevitável perda da terra como punição por suas más ações, agora anuncias que, após o exílio, chegará o tempo em que retornareis a viver nas casas que deixastes para trás. Nesse episódio, não estamos mais uma vez diante de uma esperança expressa como algo humanamente impossível, tornado possível por Deus? Isso não ressoa, mais uma vez, com o roteiro clássico que, juntamente com uma ação divina imprevisível, capaz de reverter as sortes, nos convida a ampliar o olhar para além da triste visão do presente, a ponto de antecipar um futuro diferente? De fato, é assim, mas há uma diferença que depende da perspectiva assumida no ato da leitura. Nós, que lemos hoje a história dessa ação simbólica, vemos sua realização, segundo o esquema promessa-cumprimento. Após o exílio ao longo dos rios da Babilônia, graças ao edito de Ciro, o novo imperador persa, o povo recupera a posse de sua terra perdida. Após a cena de desespero, a esperança ressurge, prefigurada pelo gesto do profeta.
A leitura de Jeremias é diferente. Ao longo de sua vida, ele havia vivenciado apenas a primeira metade do jogo, ou seja, o momento histórico da derrota. Dentro daquele horizonte sombrio, o ato de comprar o campo permanece sem sentido, uma escolha absurda, não apenas aos olhos de seus contemporâneos, mas também aos olhos do próprio profeta. Ele, daquele campo, só pôde vislumbrar a escritura notarial, um documento invalidado pela ocupação babilônica. Por mais nobre e corajoso que tenha sido, aquele gesto não acendeu a esperança entre os interlocutores do profeta; ao contrário, deixou-o exposto à desmentida histórica: os fatos não lhe dão razão. É claro que aquele gesto poderia ter encontrado seu significado em um futuro diferente – como de fato acontecerá –, mas para aqueles que não tiveram oportunidade de vislumbrar tal futuro nem mesmo de longe, para aqueles que caminharam por aquela terra sem vislumbrar os sinais de um novo amanhecer, o dinheiro que o profeta gastou na compra do campo foi desperdiçado. O gesto de Jeremias fala de uma esperança que é, acima de tudo, um desperdício. De uma esperança que não se beneficia apenas de uma gratuidade de origem, uma resposta à graça imerecida de um Deus que sonha com uma vida boa, tão diferente da situação presente, para a humanidade por Ele amada, mas também de uma gratuidade de chegada. Em outras palavras, Jeremias apostou em uma gratuidade muito mais exigente e difícil de aceitar: aquela da prova final. Jeremias não teve oportunidade de saber se aquele gesto foi, na realidade, em vão, nem se a mensagem que ele queria veicular acabaria encontrando cumprimento na história.
Toda a Escritura fala a linguagem da gratuidade, da graça, o faz em referência a Deus; também a narra em referência a personagens humanos. O leitor fica espantado. Ele situa aqueles gestos gratuitos no horizonte do mais-que-necessário: o mesmo horizonte em que discerne a presença divina. Aquela gratuidade expressa o excesso que arranca a vida do cálculo das equivalências, dá voz a um amor que vai além da lógica do lucro. É um horizonte acidentado, mas sensato; se não o fosse, desapareceria a própria experiência da fé. No entanto, algumas expressões daquela língua, embora não sejam agramaticais, parecem insensatas, até mesmo loucas. Se você faz o bem a quem não pode retribuir seu gesto generoso, só sobra espaço para um espanto admirado. Aquele gesto faz pensar, certamente, mas não escandaliza. Mesmo aqueles que o classificam como desperdício devem admitir que produz um efeito positivo, se não no resultado alcançado, pelo menos na humanidade expressa, na liberdade do ganho imediato.
Mas se você compra um campo que nem sequer tem tempo para ver, uma propriedade que não adquire com a intenção de deixá-la como herança a outros, então o espanto pela gratuidade é substituído pela perplexidade pela loucura cometida. É inútil tentar justificar o injustificável: há gestos, como o de Jeremias, que, pelo menos no imediato — um imediato que pode, no entanto, durar uma vida inteira — não conseguem apontar para mais nada porque simplesmente parecem sem sentido.
Pois bem, essa experiência do profeta, que nos fala de uma esperança a ser vivida em tempos desesperados, nos apresenta o caso sério de ousar gestos tão loucos que nem sequer nos preocupamos se seu sentido oculto será compreendido. Mas não porque nos tornamos excêntricos.
Tentemos simplesmente levar a sério a situação desesperadora que o nosso mundo enfrenta, juntamente com a consequente queda livre do sentimento da esperança, considerada pela maioria como enganoso, ilusório e falso. Existe uma maneira paradoxal de manter viva a esperança, que é de uma gratuita absolutamente, incompreensível, e que apenas alguns loucos de Deus tentam sustentar, sem a possibilidade de justificar a sua bondade e eficácia.
O cineasta palestino Rashid Masharawi, numa entrevista concedida a Fulvia Caprara em 12-07-2025, publicada no La Stampa sob o título "Ao filmar Gaza, contamos que a vida deve existir aqui", declarou: "Às vezes, se a esperança não existe, é preciso inventá-la, colocá-la numa história cinematográfica e mostrá-la às pessoas". Para a sabedoria bíblica isso deve ser feito mesmo quando o que se tenta mostrar carece da beleza de um filme e parece insignificante para a maioria.
Entre as muitas estratégias com as quais as narrativas bíblicas tentam semear a esperança em um solo impermeável a essa semente, o gesto de Jeremias aponta para uma gratuidade que permanece inexplicável. Uma ação que não pode ser medida em termos de eficácia ou plausibilidade. Todos nós nos movemos dentro de uma estrutura interpretativa que continuamente apara as arestas da esperança em nome de tornar compreensíveis as nossas ações, de sua credibilidade e gradualidade. Fazemos coisas apenas quando são necessárias, e o mercado, como a política, estabelece limites muito precisos para distinguir o que é útil do que é apenas ilusão. Se não acreditamos que podemos alcançar um mínimo de resultado, não ousamos agir. Lamentamos, é claro; e nos justificamos: seria uma perda de tempo; seria como pedir a uma figueira que dê frutos antes do tempo.
Assim, esquecemos a maldição de Jesus — também um ato simbólico de viés profético — que o evangelista Marcos nos conta: E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse-lhe: Nunca mais coma alguém fruto de ti, para sempre" (Marcos 11,13-14). A esperança bíblica também deve assumir aquela loucura que pede frutos fora de época. Jeremias compreendeu isso, apesar de um povo inteiro repetir: "E comprar-se-ão campos nesta terra, da qual vós dizeis: Está desolada, sem homens, sem animais; está entregue na mão dos caldeus" (Jer 32,43).
Esse convite a ousar gestos gratuitos de esperança, inverificáveis ao longo de uma existência, empurra-nos para um território considerado louco.
Então, não podemos "prestar contas" dessa ação? Pelo contrário. Devemos tentar prestar contas desse tropeço feliz (e desorientador) na corda traiçoeira de uma esperança temerária — que prefigura um mundo de pernas para o ar, que não tem confirmação na realidade e que, agora, sequer consegue criar raízes na imaginação simbólica do nosso tempo. Com toda a inteligência, astúcia e criatividade de que somos capazes. Em nome daquela fé que é uma aposta interpretativa. Levará uma vida inteira para explicar e justificar essa bizarrice, tanto para nós mesmos quanto para qualquer um que nos peça explicação. Não é uma missão impossível: desde que estejamos dispostos a nos abrir à novidade de Deus, a não jogar na defensiva, a considerar o tropeço naquela corda como uma bênção inesperada.
“São os profetas que nos ensinam o que significa recomeçar a partir de Deus. Profeta é “aquele que mantém o olhar fixo no Deus que vem” (Martin Buber), mas ao mesmo tempo tem os pés firmemente plantados na terra. Parece-me que hoje há escassez de profetas: há aqueles que olham para o alto enquanto seus pés parecem ter perdido o contato com a terra dos homens [...]; há aqueles que estão tão colados ao seu próprio pedaço de terra que perdem de vista o todo e o horizonte maior”. Carlo Maria Martini, Lettera pastorale Ripartiamo da Dio (1995).