30 Agosto 2025
Ao completar 75 anos, todo idoso é levado a uma colônia. Mas antes Tereza tem um sonho a cumprir: voar. Este é o mote do premiado O último azul em que a protagonista atinge as alturas… mas no fluxo do rio amazônico, onde a liberdade é movimento contínuo.
O comentário é de José Geraldo Couto, publicado por Blog do Cinema do IMS e reproduzido por Outras Palavras, 28-08-2025.
Eis o comentário.
À primeira vista, O último azul, de Gabriel Mascaro, poderia parecer uma denúncia do neoliberalismo selvagem que suga os seres humanos até o bagaço e depois procura se livrar deles como meros estorvos à reprodução do capital. O filme não deixa de ser isso, mas é muito mais. Não foi por acaso que ganhou o Urso de Prata em Berlim e diversos outros prêmios internacionais.
A ação se passa às margens de um caudaloso rio amazônico num futuro muito próximo do presente, no qual, ao completar 75 anos, todo idoso deve ser levado a uma colônia, localizada ao que tudo indica numa ilha fluvial. “Não era aos 80?”, queixa-se Tereza (Denise Weinberg) ao ser interpelada por um policial. “Agora mudou, é 75”, responde ele. O slogan irônico desse novo mundo é “O futuro é para todos”.
Aos 77, Tereza acaba de ser aposentada compulsoriamente do frigorífico de carne de jacaré onde trabalha. Está perdida no tempo e no espaço. Enquanto não a levam para a tal colônia, tem que ficar sob a tutoria da filha (Clarissa Pinheiro). A porta de sua casa está ornada com uma coroa de louros em “homenagem” a sua idade avançada e aos serviços prestados ao país. É quase como a estrela de Davi pregada em casas e lojas de judeus durante o nazismo. E ela tem que se cuidar para não ser pega pelo “cata-velho”, uma jaula móvel semelhante às antigas “carrocinhas” que recolhiam cachorros sem dono.
Viagens iniciáticas
Mas Tereza tem um sonho – voar – e quer realizá-lo antes (ou em vez) de ir para a colônia. Embarca então em duas viagens de barco sucessivas, uma com um contrabandista solitário (Rodrigo Santoro) e a outra com uma estrangeira (a atriz cubana Miriam Socarrás), que herdou de uma missionária um grande barco e o comércio ambulante (ou antes, flutuante) de Bíblias em formato de kindle.
São duas viagens iniciáticas, das quais não convém contar muito aqui. Cabe apenas dizer que na primeira Tereza fica conhecendo o fantástico “caracol da baba azul”, cujo fluido cor de anil, pingado nos olhos, propicia ver o futuro. Na segunda viagem, ela redescobre o amor, a transgressão e o humor.
O rio como signo do fluxo da vida, da passagem do tempo – da impermanência, em suma – está presente em diversas culturas, de Heráclito ao haicai, do Antigo Testamento ao bramanismo, e reaparece aqui de modo ao mesmo tempo muito localizado (a vida ribeirinha no Amazonas) e universal. O andamento fluvial da narrativa corresponde também a um mergulho da protagonista para dentro de si mesma.
Jogo de cores
Esse “boat movie”, como alguém definiu, é de uma riqueza inesgotável ao explorar a interação entre os indivíduos, o contexto social e a paisagem humana por onde eles trafegam. Nesse percurso, chama a atenção o tratamento dispensado à cor, presente desde o título do filme. Algumas imagens são indeléveis: a parte branca do olho de Santoro ficando azul com a baba do caracol, a luta feroz entre um peixe branco e outro vermelho no aquário de um barco de apostas.
Por mais exuberante que seja o ambiente físico, o foco está nos personagens e seus dilemas, como costuma acontecer no cinema de Gabriel Mascaro. A exemplo de seu filme anterior, Divino amor, o diretor constrói aqui uma distopia que desloca ligeiramente a realidade atual, para melhor iluminá-la. Mas não se limita à “denúncia”. Concede a seus personagens a ventura arriscada de pulsar em liberdade, a despeito das constrições materiais e sociais.
“Você está fazendo coisa errada?”, Tereza pergunta ao barqueiro solitário vivido por Santoro. “E quem não faz?”, responde ele. O sistema é cruel, mas ninguém é demônio e ninguém é santo nessa parábola fluvial. No fim das contas, com perdão do spoiler, Tereza não voa, mas navega. Segue o fluxo do rio. A liberdade é o movimento contínuo. Assim como na natureza, no cinema de Gabriel Mascaro nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
E Denise Weinberg, encarnando uma mulher quase dez anos mais velha que ela própria, se reafirma como atriz excepcional, capaz de transmitir com o olhar os sentimentos mais diversos: medo, fragilidade, determinação, alegria, afeto, malícia e, sobretudo, perplexidade diante da loucura do mundo.
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