27 Junho 2025
- Lembo levou anos para reunir depoimentos suficientes para sua pesquisa. Não porque houvesse poucas vítimas, mas porque o medo impede muitas mulheres de falar.
- Elas tinham medo do que poderia acontecer com elas. Ao falar comigo, elas arriscaram tudo para ajudar outras mulheres.
- Alguns sacerdotes chegaram a se aproveitar da dependência econômica das religiosas para pressioná-las e forçar contatos sexuais. As vítimas relataram também abusos físicos e espirituais.
A informação é de Anne Preckel, publicada por Vatican News, e reproduzido por Religión Digital, 26-06-2025.
"Mulheres de fé, mulheres de força" foi o título da conferência internacional que aconteceu de 17 a 19 de junho na Pontifícia Universidade Gregoriana. O evento girou em torno do papel das mulheres e da proteção dentro dos contextos eclesiais. Uma das vozes de destaque foi a da irmã Mary Lembo, religiosa originária do Togo e pioneira na conscientização sobre os abusos. Em sua fala, ela abordou a problemática das violências sofridas por religiosas africanas nas mãos de sacerdotes.
Psicóloga e professora no Instituto de Proteção da Pontifícia Universidade Gregoriana, a irmã Lembo dedicou sua tese de doutorado a este tema, incorporando testemunhos de vítimas em cinco países africanos. Ela explica que é difícil medir a magnitude do problema no continente, "porque não existem estudos quantitativos". No entanto, afirma com firmeza que se trata de uma realidade que deve ser enfrentada: "É um problema que precisa de apoio e encorajamento para que as mulheres deem um passo à frente, falem e denunciem. Mesmo que não seja fácil".
Quando concluía sua pesquisa em 2019, o tema dos abusos a religiosas na África ainda era um assunto oculto. Por isso, ela recorda como um incentivo o fato de o Papa Francisco ter falado publicamente pela primeira vez sobre o tema: "Eu estava no limite, não era fácil seguir em frente. Suas palavras me deram forças para continuar. Esses abusos existem e a Igreja deve enfrentá-los se quiser viver na verdade".
Nesse mesmo ano, o Vaticano celebrou sua primeira cúpula sobre a proteção de menores. Pouco depois, o Papa emitiu novas normas contra os abusos sexuais a menores e pessoas vulneráveis. Na carta apostólica Vos estis lux mundi em forma de motu proprio, o conceito de "pessoa vulnerável" foi ampliado para incluir também adultos cuja vontade ou "capacidade de resistir a uma ofensa" esteja comprometida.
A irmã Lembo levou anos para reunir testemunhos suficientes para sua pesquisa. Não porque haja poucas vítimas, mas porque o medo e a vergonha impedem muitas mulheres de falar. Na Igreja e em muitas sociedades africanas, quase não se fala de sexualidade — explica — e no caso das religiosas "consagradas a Deus e consideradas santas", o silêncio é ainda mais marcado: um duplo tabu.
A pedido expresso das vítimas, a irmã não menciona nomes nem países: "Elas tinham medo do que poderia acontecer com elas, suas famílias, suas congregações e até mesmo suas comunidades. Ao falar comigo, arriscaram tudo para ajudar outras mulheres. Por isso não posso nomeá-las; tenho que respeitá-las".
Durante as entrevistas, Lembo ouviu sobre diversos tipos de abuso ligados ao acompanhamento espiritual. Tudo costuma começar com um abuso de poder, explica: "Existe uma relação assimétrica entre quem oferece guia espiritual e quem a recebe, seja em direção espiritual ou na confissão". Alguns sacerdotes chegaram a aproveitar a dependência econômica das religiosas para pressioná-las e forçar contatos sexuais. As vítimas relataram também abusos físicos e espirituais.
Lembo sublinha outro ponto crucial: nenhuma das religiosas abusadas queria romper seus votos. Os agressores exercem forte pressão psicológica, manipulam ou anulam a vontade da vítima. Nessas circunstâncias, não apenas crianças, mas também adultos em situações de fragilidade podem se tornar vítimas. Tudo isso é agravado pela exploração laboral e pela dependência estrutural dos sacerdotes. Com seu trabalho, a religiosa quer contribuir para melhorar a formação de seminaristas e religiosas, porque somente conhecendo as circunstâncias que propiciam os abusos, é possível mudá-las.
Avanços na África
Com satisfação, a irmã Lembo reconhece que hoje na África é mais fácil falar do tema do que há alguns anos. Outras religiosas também começaram a levar este assunto para os fóruns eclesiais, onde começa a ser debatido com mais abertura. Em uma recente reunião da Conferência de Superiores Maiores da África e Madagascar (COMSAM) realizada na Zâmbia, pediu-se à Igreja africana que abordasse esta problemática com transparência e justiça.
A COMSAM é uma confederação criada pelo SECAM (Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar) e colabora estreitamente com o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Pela primeira vez este ano, as representantes das congregações femininas africanas foram convidadas a apresentar suas preocupações diretamente na Assembleia Geral do SECAM. Além disso, muitas Conferências Episcopais africanas adotaram nos últimos anos novas diretrizes ou endureceram as existentes para a proteção de menores. Também estão trabalhando para conscientizar sacerdotes e agentes pastorais sobre a realidade dos abusos.
Isso, aponta Lembo, constitui uma base sólida para avançar também na luta contra os abusos sofridos por religiosas. "Devemos seguir em frente e apoiar todas as medidas que a Igreja tomou em matéria de proteção", conclui. "É um processo".
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