A família ainda existe e quer se manifestar, mas devemos respeitar a sua complexidade. Artigo de Luciano Moia

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03 Junho 2025

"Se realmente quisermos entender algo sobre as famílias contemporâneas, - e essa é a terceira boa notícia do Jubileu - ampliar nosso olhar não é apenas obrigatório, mas é um caminho já promovido e compartilhado", escreve Luciano Moia, jornalista italiano, publicado por Avvenire, 01-06-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Boas notícias do Jubileu das famílias, das crianças, dos avós e dos idosos, que na manhã do último domingo terminou com a missa oficiada em São Pedro pelo Papa Leão XIV. E há muita expectativa para ouvir suas palavras, pela primeira vez dedicadas especificamente ao mundo da família. A primeira boa notícia, já esperada, mas só até certo ponto, é que a família continua existindo, se manifesta, está buscando novos espaços, não quer abdicar de seu papel de recurso social, que é o de testemunhar a força das relações familiares na realidade cotidiana, de encontrar juntos caminhos concretos a serem percorridos, que talvez não possam ser compreendidos plenamente, mas aos quais não se pode mais renunciar. E essa busca perseverante de novas formas de protagonismo, na sociedade e na Igreja - um empenho que está ligado ao outro - deveria pôr fim, de uma vez por todas, às insuportáveis queixas sobre a família que se dissolveu, que não se sustenta, que não é mais o que era antes. Não, é verdade, não é mais o que era antes.

família exteriormente perfeita, ideal, sempre exemplar nas relações conjugais, eficaz na educação dos filhos, zelosa dentro e fora das paredes da casa, provavelmente era apenas um modelo teórico e formal, e continuar a repropô-lo acriticamente significa perpetuar um equívoco e alimentar um estereótipo. Até porque aquela família ideal nunca existiu. A crise começou com Adão e Eva, cujo projeto educacional em relação aos filhos não se pode dizer que tenha sido totalmente bem-sucedido, e nos acompanha até hoje. Mas, mesmo feridas, mesmo marcadas por velhas e novas fragilidades, mesmo obrigadas a rever projetos e convicções que se julgavam estabelecidos para sempre, as famílias seguem em frente e enviam uma mensagem clara àqueles que gostariam de aprisioná-las em esquemas fora da história e da realidade. Muitas vezes, em seus doze anos de pontificado, o Papa Francisco nos convidou a colocar de lado ideais demasiado abstratos, artificiosamente construídos, distantes da situação concreta, para acolher e acompanhar as famílias “exatamente como elas são”. Porque, ele nos explicou vária vezes, mesmo nas situações mais desastrosas, mesmo naquelas aparentemente mais distantes, há sementes do bem que não temos o direito de ignorar, muito menos de desperdiçar.

O “aqui e agora” nos obriga a aceitar a realidade. E as famílias cristãs - a segunda boa notícia desse Jubileu - aprenderam que interceptar o novo, sem pretensões de julgamento e sem condenações prévias, não é uma aposta perigosa, mas uma escolha que revitaliza, que dá sentido e plenitude ao testemunho cristão. E qual é a realidade? A dos modelos familiares que se multiplicaram e nos quais é realmente difícil identificar o que pode ser indicado como produto de um “pensamento forte”. Os últimos dados do ISTAT nos dizem que os casais com filhos são apenas 28,2% do número total de famílias. E que as pessoas que vivem sozinhas, em sua maioria mulheres idosas, ultrapassam 40% do total. As previsões - sempre do ISTAT - nos dizem que em 2040 os casais com filhos serão menos de 20% e as pessoas que viverão sozinhas serão quase a metade do total. No meio disso, há, e haverá cada vez mais, casais sem filhos, famílias extensas, reconstituídas, reagregadas, homoparentais e muito mais. Estamos diante de uma variedade de situações que nos convida a explorar novos caminhos, a descobrir insights originais.

Porque, se não o fizermos, continuaremos a propor uma mensagem e um acompanhamento capazes de interceptar apenas aqueles 28,2%, ou seja, aquela parte que, de acordo com uma certa lógica excludente, seria a única a ter o direito de se qualificar como família. E os outros dois terços que não seriam “famílias ideais”? Talvez tenha chegado a hora de encontrar também para essa vasta área de familiaridade heterogênea e disseminada, mas que existe e bate às portas das nossas comunidades, palavras, propostas, atitudes humanas e práticas pastorais que sejam finalmente interessantes também aos olhos delas. Iniciativas capazes de inserir plenamente a carne viva das famílias, de todas as famílias, no fluxo mutável e turbulento da cotidianidade. Ou, novamente usando as palavras do Papa Francisco, integrar aqueles que desejam fazê-lo como resultado daquele bem possível que, apesar das diferentes labutas existenciais, deve sempre ser acolhido e acompanhado.

Se realmente quisermos entender algo sobre as famílias contemporâneas, - e essa é a terceira boa notícia do Jubileu - ampliar nosso olhar não é apenas obrigatório, mas é um caminho já promovido e compartilhado. Não tanto porque precisamos definir a todo custo um modelo de família - percebemos que esse trata de um esforço absurdo - mas para entender como examinar, reordenar e contar com palavras novas e palpitantes a beleza e a riqueza das gerações. Em suma, em vez de um pensamento “forte” sobre a família, talvez seja necessário definir e relançar um pensamento que respeite sua complexidade. Sem por isso deixar de apontar ideais e valores cristãos, aconselhar bons comportamentos, relações a serem valorizadas. Sem deixar de propor o Evangelho da alegria e da plenitude de vida que a família pode experimentar na cotidianidade.

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