24 Setembro 2024
"Os crentes de todas as religiões e os cristãos de um modo particular temos uma responsabilidade ainda maior no processo eleitoral. Está em jogo aqui a dimensão política da fé. Se ninguém pode ficar indiferente à política e ao processo eleitoral, já que somos seres políticos e nossas opções políticas têm consequências na vida de todas as pessoas, menos ainda as pessoas crentes que devem agir de acordo com a fé", escreve Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, no Ceará; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
Eis o artigo.
No próximo dia 06 de outubro teremos eleições municipais em todo o país. Vamos eleger prefeitos/as e vereadores/as para os próximos quatro anos. É uma escolha importante porque tem consequências na vida de todos nós, sobretudo das pessoas mais pobres e vulneráveis que dependem mais diretamente do poder público e das políticas públicas. Temos que ter muita responsabilidade e pensar bem antes de votar. Não podemos “lavar as mãos”, como se não tivéssemos nada a ver com isso. Não podemos entrar na onda do “tanto faz a ou z” ou do é “tudo igual”. Mesmo entre os ruins, há uns piores que outros. E a história tem mostrado que a ideia “pior do que tá não fica” não é bem verdade. Se está ruim, dependendo das escolhas, pode piorar ainda mais. Sem falar que nossas escolhas têm consequências para além da esfera municipal porque acaba fortalecendo e projetando lideranças políticas em nível estadual e federal.
Os crentes de todas as religiões e os cristãos de um modo particular temos uma responsabilidade ainda maior no processo eleitoral. Está em jogo aqui a dimensão política da fé. Se ninguém pode ficar indiferente à política e ao processo eleitoral, já que somos seres políticos e nossas opções políticas têm consequências na vida de todas as pessoas, menos ainda as pessoas crentes que devem agir de acordo com a fé. Nossas posições e opções políticas e nossas escolhas eleitorais devem estar de acordo com a fé que professamos. Mas temos que tomar muito cuidado com a manipulação, perversão e instrumentalização da religião. Assim como a fé e a religião podem humanizar as pessoas e a sociedade, quando pervertidas e manipuladas, podem desumanizar as pessoas e se tornarem fonte de preconceito, ódio, intolerância e violência na sociedade.
Pensando concretamente na fé cristã, pensamos em Jesus de Nazaré. Ele é o “autor e consumador da fé” (Hb 12, 2). Ele é o critério e a medida da fé. E toda insistência aqui é pouca. Nem tudo que se diz cristão está de acordo com o Evangelho de Jesus. É muito comum entre nós o uso do adjetivo “cristão” para se referir a partidos, grupos, bancadas e projetos políticos contrários ao Evangelho de Jesus que é um Evangelho de fraternidade, de justiça e de paz. Temos que ter muito cuidado com o “fermento dos fariseus”, com os “sepulcros caídos”. E nunca esquecer aquelas palavras/advertências de Jesus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor’ [...]. Então eu lhes declararei: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’” (Mt 7,21). E isso vale também para a política...
É claro que não se pode reduzir a fé à política nem se pode identificar a fé com nenhum projeto, partido ou candidato. E a Igreja nem tem partido nem tem candidato. Isso não significa que qualquer projeto, partido ou candidato seja igualmente (in)compatível com a fé. E aqui não basta o adjetivo “cristão”. Aliás, em geral, os partidos e candidatos que se apresentam como “cristãos” defendem e promovem projetos políticos contrários ao Evangelho de Jesus: destruição dos direitos trabalhistas, concentração de riqueza, oposição a toda política social, destruição do meio ambiente, armamento da população, preconceito, intolerância, ódio e violência...
Votar de acordo com a fé cristã, segundo o Evangelho de Jesus, é votar pensando no bem comum, na justiça social, no cuidado da casa comum, nas pessoas pobres e marginalizadas. Isso deve orientar nossa participação no processo eleitoral e nossas escolhas políticas, mesmo naquelas situações, onde a escolha parece ser entre “seis e meia dúzia”:
- a) não podemos deixar de votar;
- b) não podemos definir nosso voto pensando em nossos interesses (laços familiares, amizade, favor) nem muito menos vender nosso voto;
- c) temos que respeitar as opções das outras pessoas, mesmo que diferentes ou até contrárias às nossas;
- d) as divergências eleitorais não podem se transformar em intolerância, inimizade e violência;
- e) não podemos entrar na onda do “vale tudo” (mentira, difamação, agressão, preconceito) para alcançar nossos objetivos;
- f) mesmo quando não há alternativas claras, devemos ainda assim avaliar se não há um pior que outro;
- g) nunca votar em pessoas que são contra os direitos humanos, a proteção do meio ambiente, as políticas sociais e que espalham preconceitos, ódio e intolerância.
Não podemos esquecer que nossas escolhas políticas podem favorecer ou dificultar a propagação do Evangelho da fraternidade, da justiça e da paz. E é bom recordar com o Papa Pio XI que “a política é a forma mais elevada de caridade, atrás apenas da caridade religiosa para com Deus”.
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