Colorir a escuridão do sofrimento. Artigo de Gianfranco Ravasi

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29 Mai 2024

"Mal da alma. O denso ensaio de Lella Ravasi Bellocchio contribui, através da figura de e uma série de mulheres, para repensar toda a temática", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 19-05-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O que me une a Lella Ravasi Bellocchio, analista junguiana, não é o vínculo de sangue, inexistente apesar do sobrenome, mas um diálogo já antigo e intenso, entrecortado por outras figuras que nos são queridas, como p. David M. Turoldo, Gina Lagorio, conhecida escritora, e sua filha Silvia, fina intérprete dos fenômenos antropológicos (delicado é seu ensaio Giobbe e lo scoiattolo). Mas veremos pela leitura das páginas sempre nobres e móveis, coerentes e surpreendentes do livro I confini del dolore [As fronteiras da dor], subir ao palco uma multidão de outros personagens, inclusive literários.

Existem, no entanto, dois protagonistas. Eles pairam – quase circulando no céu do espírito, como certos homens, mulheres e anjos nas pinturas de Chagall – e povoam um texto que se assemelha a uma história em que, no entanto, os gêneros literários estão em constante metamorfose. Além disso, a tinta de caneta da autora muda a cor do preto básico do sofrimento para uma intensa variação de cromatismos temáticos estilísticos.

O primeiro dos dois protagonistas é um emocionante personagem bíblico, , cuja voz é uma espécie de baixo contínuo ou de filigrana nessa obra. A própria Lella afirma isso programaticamente: “Este livro representa a tentativa de entrelaçar, num itinerário de pesquisa, a figura de  e sua vida com algumas histórias de mulheres em análise. O filtro de leitura, o fio condutor das histórias, é cujo porquê desafia o mistério da dor e do amor." Essa presença dramática justifica também a referência ao exegeta que se refere àquele extraordinário livro bíblico, composto por 8.343 palavras hebraicas, distribuído por 42 capítulos, dedicou uma vasta investigação literária e teológica, de resultados sempre fluidos e abertos.

Estava certo, de fato, Jerônimo, o tradutor latino da Vulgata, quando se viu diante desse estrangeiro ( é uma espécie de xeique de Uz, um tanto enigmático, mas não-judaico) e às suas palavras sempre ardentes e poderosas: “Explicar é como segurar uma enguia ou uma pequena moreia entre as mãos: quanto mais você pressiona, mais ela escorrega da mão." A mantê-la firme pensou, no entanto, um duplo cânone hermenêutico. Por um lado, foi o rótulo da "paciência" que se tornou proverbial, já codificada no Novo Testamento pela Carta de Tiago (5,11), interpretação válida apenas para o quadro narrativo artificial (c. 1-2 e 42), mas radicalmente desmentida por todo o corpus do poema.

Por outro lado, aquela mais fundamentada, mas insuficiente que encontra naquelas páginas dilacerantes o tema do mistério da dor resistente a toda teodiceia.

Mesmo tentando desarticular também essa segunda leitura, sem, contudo, dissolvê-la, o exegeta reconhece a sua fecundidade, e o ensaio de Ravasi Bellocchio é sua confirmação. Do protesto do sofredor bíblico que é o tronco da obra, de fato, floresce um dossel de ramificações temáticas, como a sabedoria (que vai além da inteligência e que aparece em sua tipologia feminina), o sonho, a cura, a vida, o amor, o ideal, a palavra e até a guerra decifrada na sua pulsão destrutiva por meio de uma curiosa correspondência de 1932 entre Freud e Einstein.

À voz do grande ator bíblico - que, aliás, foi tema da original e famosa Resposta a Jó de Jung, também "anguiliforme" e relida por Lella de forma sugestiva - e à sua “Teologia de risco” e arriscada se associam outros testemunhos bíblicos. Exemplar é o contraponto, que é até contracanto dialético, entre Qohélet com sua crise da sabedoria tradicional, já iniciado por com sua rejeição aos teoremas consoladores dos três (mais um) amigos, e a luminosidade primaveril do Cântico dos Cânticos e da sua apaixonada intérprete, a Sulamita. Um palimpsesto bíblico, portanto, que é, no entanto, apoiado por uma legião de poetas contemporâneos e pelas múltiplas leituras da autora.

A esse ponto devemos deixar espaço para o segundo protagonista que, na verdade, é plural, sendo uma sequência de mulheres em análise no estudo da psicanalista Ravasi Bellocchio. De fatos, não se deve esquecer que o subtítulo do livro é entregue a uma questionamento provocativo: “É possível estancar o sofrimento psíquico?”. A ligação com o primeiro protagonista é clara: “Jó em análise”. A primeira a entrar em cena é a alemã Petra, que é seguida pela africana Joy, a prisioneira Caterina e a chocante Glória que acaba de afogar sua bebé de três meses num bidé.

Letizia é uma bela e feliz cientista cuja existência foi abalada por uma terrível perda; ao lado dela está a médica Anna, que se vê imersa no vórtice do cfxz. E depois uma mãe, Claudia, Rita na sala de recuperação, Flora com o marido destruído pelo câncer, evento que gera nela uma transferência chocante para o filho. É um vislumbre contínuo de histórias que transitam pelas páginas do livro, mas que se apresentam ao leitor para narrar - pela voz da analista – as suas histórias que têm uma referência interpretativa constante justamente naquela obra sagrada aparentemente tão remota.

O olhar “inocente, espantado ou perdido” dessas mulheres sofredoras eleva-se para além do horizonte da dor humana e aponta para Deus, como havia feito , pronto a denunciar o Todo-Poderoso numa impossível assembleia judicial. Para o final, Lella Ravasi Bellocchio conta com Sylvia Plath das Musas inquietantes: “Os milagres acontecem / se gostares de invocar aqueles espasmódicos / gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo, / a longa espera pelo anjo, / por essa rara, fortuita visita".

Referência

Lella Ravasi Bellocchio, I confini del dolore, Raffaello Cortina, p.256 Euro 18

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