#a abelha e a rosa. Artigo de Gianfranco Ravasi

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04 Outubro 2023

" À típica ironia dos autores dialetais, ele muitas vezes misturava um toque de ternura e até de melancolia crepuscular. A cena simbólica é explicada pelo próprio poeta em seu valor moral: a felicidade. Mas a ênfase recai sobre uma virtude particular que, apesar da aparência, é difícil de praticar, isto é, a simplicidade", escreve o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 24-09-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há uma abelha que pousa
sobre o botão de uma rosa:
suga-o e se vai...
A felicidade, afinal
é uma coisa pequena.

Muitos reconhecerão imediatamente o autor desses versos transparentes e delicados, como o são o voo da abelha e o botão de rosa. É o poeta romano por excelência, depois do grande Belli, ou seja, Trilussa, um anagrama de seu verdadeiro sobrenome Salustri. À típica ironia dos autores dialetais, ele muitas vezes misturava um toque de ternura e até de melancolia crepuscular. A cena simbólica é explicada pelo próprio poeta em seu valor moral: a felicidade. Mas a ênfase recai sobre uma virtude particular que, apesar da aparência, é difícil de praticar, isto é, a simplicidade. É claro que à espreita existe sempre o risco da queda no pântano da banalidade, de se tornar simplórios. A verdadeira simplicidade, ao contrário, é uma arte, é um estilo de vida, é fruto da clareza interior.

O verdadeiro sábio não é aquele que se envolve no manto do discurso oracular indecifrável, mas aquele que tem a capacidade de oferecer a substância das coisas aos outros sem atormentá-los com uma linguagem esotérica, difícil de compreender e, em última análise, desdenhosa. A verdadeira simplicidade é saber captar o que importa, dizendo-o de maneira essencial e incisiva. É claro que divulgar significa sempre simplificar um pouco: por isso não se deve exorcizar a linguagem técnica e sofisticada necessária a quem atua e comunica na academia. Mas o cientista também deve querer sair daquela torre de marfim e transitar pelas ruas lotadas para falar simplesmente com as pessoas simples. E essa sua capacidade é, afinal, irmã da modéstia, virtude típica das pessoas realmente grandes.

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