A assembleia paralela dos não convidados ao Sínodo

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23 Setembro 2023

Uma rede internacional de movimentos católicos reformistas organizou uma assembleia para coincidir com o Sínodo sobre a Sinodalidade de outubro, que visa criar um espaço alternativo onde leigos e leigas possam discutir questões muitas vezes varridas para debaixo do tapete.

A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por The Tablet, 21-09-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Huda Khoury, uma católica melquita, luta contra o ­tribunal matrimonial da Igreja no Líbano há 20 anos. O direito canônico, diz ela, está sendo mal utilizado nos tribunais da família da Igreja. “Tudo começou em 2003; meu marido queria a nulidade, porque estava tendo um caso extraconjugal. A forma mais rápida de obter a nulidade foi usar o cânon 818”. A seção 3 do cânon 818 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais admite motivos de nulidade com base no fato de um dos cônjuges estar mentalmente incapacitado no momento do matrimônio.

O marido de Khoury obteve um relatório psicológico que afirmava que Huda estava psicologicamente inapta no momento do casamento e foi-lhe concedida a nulidade pelo tribunal matrimonial. Ela diz que esse relatório foi “fabricado” e que o processo era defeituoso. Ela apelou a um tribunal vaticano.

Duas décadas depois do início dessa batalha turbulenta, o caso do casal continua preso em uma disputa de três vias entre Khoury, a Assinatura Apostólica e a Rota – o mais alto tribunal do Vaticano –, e Elie Bechara Haddad, o arquieparca greco-melquita da Arquieparquia de Sidon, que supervisiona o ­tribunal matrimonial no Líbano. Ele é amigo pessoal do marido de Khoury, que, frustrado pelos longos apelos, desde então declarou que se tornou muçulmano, abrindo caminho para que pudesse se casar novamente.

Huda Khoury é uma das muitas mulheres ­que alegam que documentos forjados e relatórios falsificados são usados pelos maridos e por seus advogados para obterem nulidades e evitar o pagamento de pensão alimentícia e aos filhos. Ela está entre os mais de 100 palestrantes de lugares como a República Democrática do Congo, o Paquistão, os Estados Unidos e a África do Sul que contribuirão com uma discussão sobre “Direitos humanos na Igreja Católica emergente” em uma assembleia sinodal liderada por leigos e leigas, que ocorrerá de 8 a 14 de outubro.

Embora advogados católicos de alto nível, como Cherie Blair e Mary McAleese, e teólogos ­como Leonardo Boff e James Alison possam se destacar na impressionante lista de palestrantes, são os testemunhos pessoais da luta e da complexidade de católicos como Huda Khoury provenientes de todo o mundo que provavelmente repercutirão entre os participantes.

Assembleia de leigos e leigas

A assembleia ocorrerá presencialmente em Roma e em Bristol entre os dias 13 e 14 de outubro – com conferências principais de Mary McAleese e da Irmã Joan Chittister –, mas as falas ao longo da semana também serão transmitidas online, para que as pessoas de todo o mundo possam participar sem terem que se preocupar em percorrer grandes distâncias.

A assembleia sinodal liderada por leigos e leigas é fruto de uma colaboração entre 44 grupos de reforma “companheiros” que se uniram durante o ano passado para formar a plataforma online Spirit Unbounded. Suas raízes residem no sucesso do Sínodo de Bristol de 2021, organizado pelo movimento Root and Branch Reform.

A reunião do Spirit Unbounded coincide com o Sínodo sobre a Sinodalidade, que está chegando à primeira de suas duas assembleias principais em Roma, entre 4 e 29 de outubro; a segunda será em outubro de 2024. Ele foi precedido por sessões de escuta em nível paroquial e diocesano em todo o mundo; essas conversas foram resumidas em um documento de trabalho (ou Instrumentum laboris).

Maggie Conway, uma das organizadoras da assembleia da Spirit Unbounded, diz que algumas das submissões nacionais ao Sínodo sobre a Sinodalidade, incluindo as da Inglaterra e do País de Gales, foram filtradas. Algumas questões-chave, como o papel das mulheres na Igreja e o tratamento às pessoas LGBT+, diz Conway, “não apareceram com o nível de força ou intensidade que sabemos que apareceram a partir das conclusões da nossa investigação, daquilo que as pessoas expressaram”.

Isso levou Conway, uma terapeuta ocupacional natural da Irlanda que agora trabalha em Londres, a unir forças com Mary Ring, Penelope Middelboe, Brian Devlin e outros para criar aquilo que eles chamam de uma assembleia “não filtrada” do Povo de Deus.

“Dissemos que não podemos deixar isso assim. Temos de fornecer uma plataforma que permita uma resposta a essa questão em nível global. Essa foi a semente e o início da plataforma Spirit Unbounded, proveniente do trabalho do Root and Branch”, diz ela.

A assembleia é uma tarefa complexa e cara. Apesar dos riscos financeiros para os organizadores, disse-me Conway, “é um momento no tempo, e há uma forte compulsão para fazer isso”. A assembleia busca “afastar-se de uma visão infantilizada das ovelhas ‘arrebanhadas’. Precisamos ser muito mais proativos e engajados. É a nossa Igreja. Os clérigos precisam sair do caminho para permitir isso. Digo isso de uma forma respeitosa, porque há alguns clérigos maravilhosos”.

Uma Igreja melhor, mais amável e mais segura

Outro organizador da assembleia é o ex-padre Brian Devlin, que, junto com outros três clérigos, expôs a má conduta sexual do cardeal Keith O’Brien. Ele rejeitou qualquer sugestão de que a assembleia seja uma tentativa de ofuscar o Sínodo sobre a Sinodalidade. “Não creio que roubaremos a atenção do sínodo oficial. Somos uma assembleia de cristãos que estão tentando fazer da Igreja um lugar melhor, mais amável e mais seguro para cada um de nós”.

Devlin, que mora na Escócia, explicou que a assembleia liderada por leigos e leigas ouvirá pessoas “não convidadas para a sala” do Sínodo. “Não creio que possamos esperar que saia muita coisa da sala com os bispos. Então, temos que criar nossa própria sala. Escolhemos o tema dos direitos humanos com muito cuidado, porque ele reconhece que existe um problema real com os direitos humanos na Igreja Católica e que precisa de ser abordado”.

Mary Ring, cofundadora do Root and Branch, mora no País de Gales. A avó, que se descreve como uma “praticante de todos os ofícios”, diz que todos os organizadores da assembleia estão ­“percorrendo o caminho da reforma há muito tempo”. Ela acredita que a assembleia liderada por leigos e leigos em outubro é radical e nova devido a seus fundamentos tecnológicos, à sua acessibilidade e a seu alcance global. Ela compara a assembleia da Spirit Unbounded aos “cafezinhos” durante o Concílio Vaticano II.

Essa opinião é compartilhada por Michael Centore, editor do Today’s American Catholic, um jornal com sede nos Estados Unidos e que é uma das organizações “companheiras” da Spirit Unbounded. “Espaços informais, como os cafés, desempenharam um papel vital nos procedimentos do Vaticano II. Eles permitiram que os participantes do concílio falassem uns com os outros em um espírito de abertura e parrésia – para usar um termo sinodal preferido – que nem sempre era possível nas reuniões mais estruturadas. Esse intercâmbio de perspectivas sem dúvida influenciou a elaboração dos documentos conciliares finais. Uma esperança para a Spirit Unbounded é que a plataforma possa fornecer um ­espaço semelhante para o sínodo, em que a comunhão, a participação e a missão possam ser encontradas em vozes e histórias individuais”.

Apoio ao Papa Francisco

Quando conversei com Penelope Middelboe, autora e podcaster de Oxford, assim como com Ring, cofundadora do Root and Branch, ela enfatizou que a iniciativa da Spirit Unbounded está ocorrendo “em apoio” ao Papa Francisco. Ela se referiu à observação do teólogo leigo venezuelano Rafael Luciani de que os participantes do Sínodo devem ser capazes de falar com liberdade, mesmo sobre ideias que não tenham apoio consensual.

Middelboe me disse: “Eu diria que provavelmente será muito difícil para os poucos leigos e leigas que votarão nesse Sínodo e particularmente para os bispos falarem realmente com liberdade. Então, estamos tentando oferecer essa oportunidade. Conhecemos muitos bispos que estão interessados naquilo que fazemos, mas eles não vêm muito à tona”.

Um dos eventos mais esperados na assembleia é a conferência principal da professora Mary McAleese sobre os direitos humanos e a Igreja. “Deus nos criou como iguais. O Magistério da Igreja Católica construiu ao longo dos séculos uma cultura que desrespeita essa igualdade. O Povo de Deus está agora desmantelando-a”, disse-me a ex-presidente da Irlanda, canonista de formação. “Literalmente qualquer pessoa pode participar da nossa assembleia de leigos e leigas. Tudo será aberto, tudo será online, tudo será visto, tudo será ouvido”.

O Sínodo em Roma, sente ela, não será tão transparente. Reconhecendo que o Instrumentum laboris do Sínodo “tem algum potencial de desenvolvimento realmente interessante”, a Dr. McAleese disse que não havia nenhuma referência nele à necessidade da Igreja de olhar para o lugar dos direitos humanos em seu ensino interno.

Um foco para McAleese é a negação de um discipulado de iguais a alguns membros da Igreja e uma preocupação com as “liberdades constitucionais”, nomeadamente o direito de cada ser humano à liberdade de pensamento, opinião, crença, consciência, expressão e religião­.

“O Sínodo será um discipulado de iguais? A resposta parece ser não. O Magistério ainda está no controle, o Magistério ainda definirá a agenda. Ele decidirá o que pode ser discutido, ele decidirá quais serão os resultados. Se assim for, então o Sínodo do papa será, em última análise, um exercício de frustração”.

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