A direita ataca Porto Alegre

Foto: Joedson Alves | Agência Brasil

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Agosto 2023

"A aprovação do 'Dia do Patriota' em Porto Alegre é uma infame ostentação de apoio das autoridades do executivo e do legislativo municipal de Porto Alegre aos atos de vandalismo que foram realizados com o objetivo explícito de impor um regime que no qual o parlamento e o judiciário seriam subjugados à um executivo imposto por um golpe de estado, sequestrando a soberania popular aferida em eleições democráticas", escreve Gerson Almeida, sociólogo, ex-vereador e ex-secretário do meio-ambiente de Porto Alegre, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 29-08-2023.

Eis o artigo.

O dia do patriota faz urgente a defesa de democracia contra aqueles que se valem dela para destruí-la é a questão de fundo que precisa ser enfrentada sem trégua.

Existem 5.565 municípios no país, mas apenas os vereadores e o prefeito de Porto Alegre sentiram-se à vontade para dedicar um dia do calendário oficial da cidade aos patriotas.

Antes que algum desavisado pergunte: e daí? é preciso esclarecer que o dia escolhido é aquele em que hordas fanatizadas vandalizaram as instalações do Senado, da Câmara Federal, da Presidência de República e do Supremo Tribunal Federal, as sedes dos três poderes da República Federativa do Brasil e, portanto, símbolos do Estado de direito democrático e da Constituição que os conforma. Neste caso, patriota é o nome fantasia dos golpistas.

Ao serem questionados sobre o tema, o prefeito Sebastião Melo (MDB) e o presidente da Câmara de Vereadores, Hamilton Sossmeier (PTB), tentaram se esquivar de qualquer responsabilidade e esconderam-se atrás de argumentos burocráticos e de manobras marotas. O prefeito Sebastião Melo, mesmo tendo a prerrogativa de veto, decidiu deixar passar o prazo legal para se manifestar, o que é uma forma nada sutil de apoio à iniciativa.

Os vereadores da base do governo controlam a maioria das três comissões que analisaram a proposição: Comissão de Constituição e Justiça, que não encontrou nenhum óbice legal para a exaltação do golpismo; pela Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude, que achou adequado para a educação e para a cultura estimular o vandalismo e a pregação antidemocrática; e a, pasmem, Comissão de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Pública, na qual a maioria percebe os atos golpistas como compatíveis aos direitos humanos e à segurança pública. É surpreendente que apenas dois vereadores tenham votado contra nessas comissões, sugerindo que os setores democráticos precisam perceber que há temas inegociáveis e que é preciso demarcar politicamente.

A aprovação do “Dia do Patriota” em Porto Alegre é uma infame ostentação de apoio das autoridades do executivo e do legislativo municipal de Porto Alegre aos atos de vandalismo que foram realizados com o objetivo explícito de impor um regime que no qual o parlamento e o judiciário seriam subjugados à um executivo imposto por um golpe de estado, sequestrando a soberania popular aferida em eleições democráticas.

Isso mostra que o nível da degradação moral e política do grupo de poder que sustenta o prefeito Sebastião Melo – ampla maioria na Câmara de Vereadores – chegou ao ponto da metástase. Nenhum dos sucessivos governos de direita, que há anos governam a cidade, foi capaz levar tão longe o desprezo pela democracia na cidade que se tornou conhecida no mundo como exemplo de participação social.

É verdade que o prefeito Sebastião Melo está determinado a se afirmar como uma liderança do campo que reúne todo o arco da direita regional e sua gestão está determinada a transformar Porto Alegre em um modelo de gestão ultraliberal, como mostra o seu propósito de tornar as áreas públicas da cidade, como a Orla do Guaíba e os Parques em mercadorias à disposição dos interesses do mercado e do lucro privado. O que opera uma mudança substancial na função urbana dessas áreas, até então consideradas como bens essenciais e de uso universal, destinados a assegurar o bem-estar, a qualidade de vida e a preservação do meio-ambiente urbano para toda a população.

Mas a explicação para esta ação bizarra não pode ser encontrada apenas na política local, pois o descompromisso com a democracia e a soberania popular é uma característica intrínseca do atual estágio do capitalismo que faz de tudo para assegurar uma autonomização das “forças do mercado” de todo e qualquer tipo de controle da sociedade. Para o “mercado” a função dos governos é de agir para facilitar a sua ação e jamais para estabelecer regras que o coloquem à serviço da sociedade.

A maneira que as lideranças agem diante de um projeto de lei é uma tomada de decisão sobre interesses de determinados setores da sociedade, uma escolha sobre projetos de sociedade. E o prefeito Sebastião Melo e os vereadores da sua base de sustentação política mostraram de forma escrachada a que interesses servem.

Porto Alegre sob a gestão de Sebastião Melo e sua aliança política repulsiva virou motivo de chacota nacional ao dedicar um dia para o patriota/golpista, mas a questão que isso revela é o quanto o atual sistema de pensamento e ação da direita brasileira e suas congêneres no mundo estão se afastando cada vez mais do compromisso com o pacto democrático.

A incompatibilidade com a democracia já havia sido expressa de forma cristalina na resposta de Friedrich Hayek, um dos principais ideólogos do neoliberalismo, durante a ditadura de Pinochet no Chile: “Minha preferência pende a favor de uma ditadura liberal, não a um governo democrático”. A defesa de democracia contra aqueles que se valem dela para destruí-la é a questão de fundo que precisa ser enfrentada sem trégua.

Leia mais