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12 Julho 2022

 

"Ontem em Chasiv Yar estava toda a verdade sem misericórdia desta guerra. Quem estava pronto para trair o exército de Kiev enviando as posições dos soldados, quem entendia que sem deslocar bases e veículos para todos os lugares, essas áreas são impossíveis de defender. Havia também a verdade mais cínica, aquela do agressor, que não se importa com as vítimas civis e usa seu sangue para capitalizar os rancores de uma terra já devastada", escreve Francesca Mannocchi, jornalista e documentarista italiana, em artigo publicado por La Stampa, 11-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Chasiv Yar. Valeriy está encostado no muro, os dedos tamborilando nos tijolos atrás das costas, os olhos fixos, úmidos, focados diretamente nos socorristas que procuram os corpos nos escombros. Às nove da manhã, seis cadáveres já foram retirados do edifício de cinco andares do qual resta apenas uma pilha de escombros. Era pouco depois das nove da noite de sábado quando o primeiro míssil russo atingiu os edifícios residenciais em Chasiv Yar, uma cidade 40 quilômetros a sudeste de Kramatorsk, na província de Donetsk. Nos vinte minutos seguintes mais três estouros, mísseis Iskander de acordo com autoridades ucranianas, destruíram dois edifícios e danificaram severamente aqueles adjacentes.

 

 

Valeriy ontem de manhã antes do amanhecer pegou uma lanterna e correu até lá, em direção à casa onde viviam sua irmã Iryna e seu sobrinho Denis de nove anos.

 

Quando ele chegou, no entanto, a casa não existia mais. Ainda estava escuro, ele apontava a lanterna para os pilares de concreto que haviam sido derrubados, contra às barras de ferro que constituíam sua armação, enquanto os veículos de socorro chegavam um após o outro, nas estradas rurais que ligam essa clareira à estrada principal que leva a Kramatorsk, a cidade que deveria ser um dos principais alvos das forças russas à medida que avançam para o oeste.

 

Ele está de pé, Valeriy, os olhos fixos no vazio deixado pelos mísseis quando chegamos ontem de manhã. Na rua, veículos da polícia e do exército, e depois guindastes e ambulâncias.

 

Sua irmã Iryna havia ligado para sua mãe idosa dois dias atrás, ela queria saber se ela precisava de comida, água, ser evacuada. Ela teria dado um jeito de encontrar uma ambulância, um veículo de socorro para levá-la embora. Agora a mãe em casa pede notícias sobre ela e o menino, e Valeriy apenas diz: "Tudo vai ficar bem".

 

Ele é de poucas palavras, mas coloca as coisas em fila, lista as últimas conversas, os últimos movimentos, as últimas palavras de sua irmã com a lógica de quem tenta afastar o medo da morte lembrando os gestos habituais dos vivos.

 

Ele é de poucas palavras, mas enquanto todos ao seu redor gritam lamentos e raiva, ele diz em voz baixa: "Se a gente não tivesse falado, hoje não estaríamos aqui chorando mulheres e crianças". Uma frase seca que resume a natureza desta guerra. Na frente dele uma mulher grita que o prefeito é o responsável pelos mortos, que ele não deveria ter permitido que os soldados transferissem uma base para lá, que os soldados deveriam estar nos campos e não entre as pessoas.

 

Valeriy balança a cabeça, e diz: "Olhe ao redor, aqui só há campos, há bases militares em todos os lados, eles nos protegem, do outro lado estão os russos".

 

Então a senhora grita novamente, e mais alto: "Os russos estão ali?" Então deixe-os chegar. Eles vão nos dizer que merecemos. Separatistas, separatistas, eles nos deixam morrer enquanto nos chamam de separatistas”.

 

Equipes de resgate retiram dois corpos dos escombros e os colocam em sacos brancos antes de transferi-los para os veículos de socorro. Um é civil, outro é soldado.

 

Que havia soldados ali, Valeriy o sabia, sua irmã lhe dissera alguns dias antes.

 

Assim que chegaram, colocaram seus veículos atrás do muro do prédio onde morava. Uma unidade chegou para defender a área, os homens e os veículos, afinal, se deslocam conforme a guerra avança. Os russos estão indo para Kramatorsk e as tropas de Kiev se movem de acordo para defender as áreas sob ataque. Bakhmut, Siviersk, Sloviansk e Chasiv Yar.

 

Os soldados que chegaram ali haviam cozinhado no pátio na sexta-feira e estavam cozinhando no sábado também – contam os sobreviventes - quando o primeiro foguete chegou sem nenhum alarme que os avisasse do perigo.

 

Valeriy não acusa ninguém, não faz perguntas, quando os socorristas pedem silêncio para saber se é possível ouvir sons debaixo dos escombros, ele se aproxima do cordão abrindo espaço entre os jornalistas e as câmeras e olha fixamente os bombeiros que começam a cavar com as mãos, movendo tijolo após tijolo. "Há alguém vivo lá embaixo - falam as equipes de resgate - mas fiquem para trás". Valeriy volta a se encostar no muro. Olhe para outro corpo retirado, mas não vivo, e aguarda.

 

Às quatro da tarde, quinze cadáveres foram levados nos sacos brancos e trinta pessoas ainda estão desaparecidas. Entre eles está o pai de Oleksandra. Seu namorado a abraça toda vez que tiram um cadáver. E a cada corpo levado para fora, Oleksandra também grita que a culpa é dos soldados que estavam estacionados em sua casa, que a guerra deve ser travada longe das pessoas, que são sempre os desgraçados que morrem. Como eles se sentem, que têm em seus rostos a tristeza e o realismo dos proscritos. Que não foram embora porque não podem sequer se permitir um destino como deslocados, porque têm medo do estigma que sentem manchar o povo do Donbass, ou porque estão à espera dos russos que, entretanto, os bombardeiam. Como já fizeram em outros lugares, no final de junho em um centro comercial em Kremenchuk – já foram 19 vítimas - e como eles fizeram na região de Odessa, matando 21 pessoas em um ataque que destruiu um condomínio e uma área de recreação.

 

Nos prédios que cercam o edifício onde moravam a irmã de Valeriy e o pai de Oleksandra, os homens carregam eletrodomésticos, algumas malas e sacolas com mantimentos nas costas. Eles levam embora os idosos enquanto pedaços de laje caem das sacadas em ruínas. Uma mulher arruma uma cadeira no pátio e se senta para olhar os restos de sua casa. Começa a chover, mas ela não se mexe, coloca um xale na cabeça e fala sem se importar se tem alguém por perto para ouvi-la.

 

“Vão embora, vão embora, vão embora nos diziam. Agora vamos, as bombas estão nos expulsando”. Quando a batalha se intensificou na província de Donetsk, o governador da região pediu aos 350.000 cidadãos que havia ficado na área que fossem embora. "Vocês devem salvar suas vidas", foram suas palavras. A vice-primeira-ministra Iryna Vereshchuk fez o mesmo há alguns dias, quando instou os civis na região meridional de Kherson, ocupada pela Rússia, a evacuar com urgência para deixar as forças armadas ucranianas livres para organizar o contra-ataque: “É claro que haverá bombardeios, então vão embora imediatamente e por todos os meios possíveis”.

 

Esse é o objetivo dos pedidos de evacuação para salvar a vida de civis e permitir que o exército ucraniano defenda pessoas e cidades e não as transforme em cemitérios.

 

Como ontem, tornou-se Chasiv Yar.

 

O escritor austríaco Martin Pollack, num dos seus livros sobre a memória deixada pelas guerras no Velho Continente, descreve o espaço como uma “paisagem contaminada”. Contaminada pelos carrascos que semearam atrocidades e depois as esconderam para tirar dos mortos e dos vivos qualquer resíduo de dignidade e justiça.

 

Pollack escreve: “As autoridades conhecem as áreas, mas se recusam a localizá-las com precisão, porque temem mais a verdade do que os fantasmas sangrentos do passado. Os fantasmas, pelo menos esperam, se deixam apaziguar, mas a verdade não conhece misericórdia”.

 

Ontem em Chasiv Yar estava toda a verdade sem misericórdia desta guerra. Quem estava pronto para trair o exército de Kiev enviando as posições dos soldados, quem entendia que sem deslocar bases e veículos para todos os lugares, essas áreas são impossíveis de defender. Havia também a verdade mais cínica, aquela do agressor, que não se importa com as vítimas civis e usa seu sangue para capitalizar os rancores de uma terra já devastada.

 

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