Abusos: nenhum novo documento papal. Deve-se aplicar a ''Carta ao povo de Deus''

Foto: Agência Brasil

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

25 Agosto 2018

Não há a previsão de novas diretrizes papais sobre o tema dos abusos, e Francisco não está preparando nenhum documento dirigido aos bispos sobre a luta contra a pedofilia clerical. Renomadas fontes vaticanas negam que, após a inédita “Carta ao povo de Deus”, escrita às pressas a poucos dias de distância da publicação do relatório da Pensilvânia, se esteja trabalhando agora em um novo texto a ser divulgado rapidamente no retorno da viagem à Irlanda, como havia circulado em vários meios de comunicação nos últimos dias.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada em Vatican Insider, 24-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa considera a carta exaustiva e acredita que a Igreja se dotou dos instrumentos normativos e das regras necessárias para combater aqueles que cometem o crime dos abusos contra menores e também para responsabilizar os superiores que, por negligência ou por outros motivos, não agem de forma adequada, pensando no bem das vítimas.

A “Carta ao povo de Deus”, de 20 de agosto, contém indicações precisas e concretas, que são espirituais e pastorais, portanto, não têm a ver com normativas, códigos e regulamentos. Acima de tudo, o pontífice recorda que a ferida dos abusos é uma ferida para toda a Igreja, e que a resposta deve ser conjunta e compartilhada. Ele invoca, para o futuro, o compromisso e novas iniciativas “para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas”.

É um apoio para as atividades da Comissão vaticana e para o Centre for Child Protection da Pontifícia Universidade Gregoriana, com o convite dirigido a toda a Igreja para que se continue e se trabalhe com o objetivo de mudar a cultura e a mentalidade clerical que, durante décadas, encobriu e acobertou em vez de escutar as vítimas.

Francisco escreve que “a dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor”. Uma dor que precisa ser assumida e correspondida, sempre. Sem considerar essas pessoas culpadas de causar escândalo, de manchar o nome da instituição eclesiástica. Sem afastá-las ou isolá-las, como, infelizmente, aconteceu tantas vezes. O papa afirma que, para a Igreja, as feridas das vítimas “nunca prescrevem”. E pede que se trate o problema “de maneira global e comunitária”.

Se é verdade que é preciso uma aldeia para educar uma criança, também é verdade que é preciso uma aldeia para encobrir os abusos, como bem mostra o filme “Spotlight” sobre o caso de Boston: para permitir que um abusador cometa seus crimes obscenos roubando de modo sacrílego a alma dos pequenos e dos indefesos, são necessários muitos acobertamentos, de quem sabe e finge que não vê, de quem, em nome de uma vida tranquila, prefere se virar para o outro lado, dos sistemas consolidados do poder clerical, dos lobbies...

Cultura da omissão

Francisco pede que se desmantele a cultura da omissão, envolvendo todo o povo de Deus. Porque o abuso de poder, fruto do clericalismo, e a sua perpetuação têm a ver com a não recepção do Concílio e, em particular, da sua fundamental constituição Lumen gentium, na qual se valoriza o sacramento do batismo e a importância do santo povo fiel de Deus.

Cada regurgitação clerical, que tende a considerar a casta dos sacerdotes como separada, acaba favorecendo atitudes que deveriam pertencer ao passado.

“É impossível imaginar – escreve o papa – uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas.”

No ápice de sua carta, Francisco oferece uma resposta concreta que é profundamente espiritual, pastoral, cristã. Toda a Igreja deve se colocar em uma atitude penitencial, deixando-se “renovar a partir de dentro. Tudo o que for feito para erradicar a cultura do abuso em nossas comunidades, sem a participação ativa de todos os membros da Igreja, não será capaz de gerar as dinâmicas necessárias para uma transformação saudável e realista. A dimensão penitencial do jejum e da oração ajudar-nos-á, como Povo de Deus, a nos colocar diante do Senhor e de nossos irmãos feridos, como pecadores que imploram o perdão e a graça da vergonha e da conversão”.

O papa pede a toda a Igreja, portanto aos seus pastores, bem como a todo o povo de Deus, que reaja com oração, penitência, jejum. É importante ressaltar que o modo de conjugar essas indicações muito concretas é deixado nas mãos das diversas Conferências Episcopais, porque – por exemplo – nos Estados Unidos ou na Alemanha pode ser mais útil o dia de jejum, na Argentina, a adoração eucarística perpétua, em outros países, ambas as iniciativas. Pode-se pensar em um dia nacional ou em uma semana de orações especiais e de encontros para sensibilizar cada paróquia sobre o problema.

Em suma, indicações concretas existem, e será preciso ver se as Conferências Episcopais, nas próximas semanas, levarão a carta papal a sério.

Quanto às expectativas sobre novas normas antipedofilia, deve-se notar que, sim, são possíveis alguns pequenos ajustes no Código de Direito Canônico, porque hoje se dá pouco espaço à voz das vítimas. Nos procedimentos pontuais e emergenciais contra os abusadores, elaborados pelo então cardeal Ratzinger no início dos anos 2000 e aperfeiçoados com mais procedimentos de urgência em 2010 pelo mesmo Ratzinger, tendo se tornado papa, ainda pode haver ajustes mínimos, por exemplo, para sanar um certo desequilíbrio entre o procedimento judicial e o administrativo contra o padre abusador em relação à indenização dos danos.

As regras existem

Para enfrentar esses crimes hediondos – que antes de serem crimes sexuais se configuram como abusos de poder por parte de pessoas que exercem uma influência e uma autoridade sobre as vítimas – as regras existem. Os bispos sabem como devem agir, sabem como denunciar à Congregação para a Doutrina da Fé os casos com uma suspeita fundamentada, sabem – por terem tido o exemplo constante de dois papas – que as vítimas não devem ser rejeitadas, desacreditadas, afastadas. Mas devem ser ouvidas, acolhidas, confortadas, ajudadas a iniciar percursos que permitam a elas e às suas famílias reconstruírem suas vidas destruídas.

Também no que diz respeito à questão da responsabilização dos superiores que agiram com negligência, as normas existem. Ainda no Código de Direito Canônico, no número 1.389 §1, prevê-se: “Quem abusar do poder eclesiástico ou do cargo seja punido segundo a gravidade do ato ou da omissão, sem excluir a privação do ofício, a não ser que por lei ou preceito já esteja cominada uma pena contra tal abuso”.

Como se vê, especifica-se que o motivo também pode ser “omissão”, não apenas dolo. A arma jurídica contra a negligência já estava no Código de 1983.

Mas o Papa Francisco, em 4 de junho de 2016, com o motu proprio “Como uma mãe amorosa”, aprofundou o tema, dedicando um documento justamente à responsabilidade dos bispos e dos superiores eclesiásticos: “O Direito canônico – escrevia – já prevê a possibilidade da remoção do ofício eclesiástico ‘por causas graves’: isto também diz respeito aos bispos diocesanos, aos eparcas e àqueles que a eles são equiparados pelo direito (cf. cân. 193 §1 CIC; cân. 975 §1 CCEO.). Com a presente Carta, pretendo especificar que, entre as chamadas ‘causas graves’, está incluída a negligência dos bispos no exercício do seu ofício, em particular no que diz respeito aos casos de abuso sexual cometidos contra menores e adultos vulneráveis”.

Para a remoção de um bispo, de um eparca ou de um superior religioso, “no caso de se tratar de abuso de menores ou de adultos vulneráveis, é suficiente que a falta de diligência seja grave”.

Além disso, na declaração do diretor da Sala de Imprensa vaticana, Greg Burke, divulgada na noite de 16 de agosto de 2018, afirma-se: “A Igreja deve aprender duras lições do passado e que deveria haver uma assunção de responsabilidade por parte tanto daqueles que abusaram, quanto daqueles que permitiram que isso acontecesse”.

O apelo ao povo de Deus, para que todos assumam o problema, é, no fundo, também um convite a vigiar. As normas para tomar medidas no caso de bispos que falharam gravemente em proteger as crianças ou que acobertaram estão todas lá. A novidade do relatório da Pensilvânia, infelizmente, está na narração dos casos, dos abusos. É uma nova e pesada carreata de horrores ocorridos de 1947 até hoje. Sem esquecer, porém, que, a partir de 2002, os casos se reduziram drasticamente.

Isso significa que estamos falando do passado – a maior parte dos padres abusadores já faleceu –, mesmo que seja um passado que não passa e que não passará enquanto houver vítimas com as suas vidas destruídas e as suas feridas abertas. Mas é preciso lembrar que estamos falando do passado e que, desde então, graças ao cardeal Ratzinger e a João Paulo II, depois graças sobretudo a Bento XVI e hoje a Francisco, foram dados passos significativos e importantes. Nas normas e na cultura, na mudança de mentalidade. Uma cultura e uma mudança de mentalidade que, infelizmente, ainda não se tornaram comuns e compartilhadas por toda a Igreja.

Homossexualidade

Por fim, certamente existe um problema de homossexualidade na Igreja. A quantidade de seminaristas homossexuais ordenados padres sem que a sua escolha celibatária estivesse “resolvida” é impressionante. Até mesmo casos recentes de “panelinhas” e minilobbies gays nos seminários dizem que se trata de uma chaga da qual o próprio Vaticano certamente não está isento.

Francisco, abrindo os trabalhos da última assembleia geral dos bispos italianos, convidou-os a não abrir as portas aos seminaristas homossexuais, seguindo, nisso, as diretrizes já existentes. Mas é incorreto afirmar que o problema dos abusos de menores é um problema de homossexualidade, trazendo como prova o fato de que um número considerável teria sido cometido contra meninos adolescentes.

Não, a homossexualidade é uma coisa, o abuso de menores é outra. O abuso é, acima de tudo, um abuso de poder e de consciência, perpetrado contra uma vítima menor de idade que é transformada em objeto. A maioria dos abusos de menores ocorre no âmbito familiar (60%), depois nas organizações esportivas, nas escolas etc. Ele sempre se configura como um crime cometido por alguém que nunca está em pé de igualdade com a sua vítima.

Por isso, parecem patéticas as tentativas por parte da galáxia de sítios autointitulados católicos e antipapais, assim como por parte de vaticanistas de memória curta, de despejar toda a responsabilidade pela crise atual sobre o Papa Francisco, conduzindo uma batalha seletiva apenas contra as pessoas que supostamente são “próximas” a ele, esquecendo quando e como essas pessoas – bispos e cardeais – foram nomeados. E esquecendo também que, durante décadas, uma certa cultura não foi suficientemente combatida sequer pela cúpula romana da Igreja Católica. Como os tristes casos como o do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, apenas para dar um exemplo.

Enfim, também é ridícula a tentativa de culpar o atual pontífice pela presença homossexual na Igreja e no Vaticano: só se pode tentar fazer isso, massacrando a realidade dos fatos, a história e as datas, esquecendo-se dos últimos 50 anos de história.

Leia mais