A paz que nasce da cruz. Comentário de Ana Casarotti

Foto: srocca

10 Abril 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20,19-31 que corresponde ao 2° Domingo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Eis o comentário.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: "A paz esteja convosco". Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio". E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos". Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: "Vimos o Senhor!" Mas Tomé disse-lhes: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei". Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles.

Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "A paz esteja convosco". Depois disse a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel". Tomé respondeu: "Meu Senhor e meu Deus!" Jesus lhe disse: "Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!" Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

Neste domingo termina a oitava da Páscoa, um período de oito dias durante o qual prolongamos a celebração da ressurreição de Jesus, assim como no próprio domingo de Páscoa. Ao longo de toda esta semana, foram lidos os textos evangélicos que narram as diferentes aparições de Jesus Ressuscitado. Neles, também observamos diferentes atitudes da comunidade de discípulos diante da notícia do túmulo vazio, do anúncio dos anjos, das mulheres que correram e não encontraram seu corpo. Sentimo-nos identificados com as mulheres que correm ao sepulcro em busca de seu corpo e não o encontram, ou também com os discípulos de Emaús, tomados pela tristeza diante da morte de Jesus, seu mestre e amigo, ou com a dor de Maria Madalena por ter perdido seu mestre, e assim cada um dos relatos nos ofereceu a possibilidade de fazer parte dessa comunidade que se sente desconcertada com o que foi acontecendo, que também se alegra com aqueles que o “viram”, mas que também tem dificuldade em acreditar que Ele está vivo!

O texto deste domingo nos situa no crepúsculo daquele primeiro dia. A comunidade joanina situa este texto no crepúsculo, quando o dia vai se esvaindo e também as esperanças da comunidade que está com as portas fechadas por medo dos judeus.

Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: "A paz esteja convosco".

Diante de uma comunidade amedrontada, mas que continua reunida, Jesus se apresenta no meio deles, oferecendo-lhes a sua paz. Para Jesus, não há portas fechadas, não há nenhum espaço que não possa ser habitado pela sua paz, pela sua vida em abundância. São suas primeiras palavras para a comunidade que hoje se dirigem a todos nós que também estamos reunidos, permanecemos juntos em meio a este conflito sem precedentes, onde o medo e a incerteza nos convidam a nos refugiar em nossa própria insegurança.

A comunidade experimenta a perplexidade própria daqueles que perderam seu guia. Sentem-se inseguros, temerosos e talvez também se repreendam por atitudes recentes. Quantas vezes, diante de situações que nos desconcertam, buscamos um último responsável e nos custa assumir que cada um tem sua responsabilidade no que está acontecendo, seu pequeno grão de areia a contribuir, sua palavra a dizer ou seu silêncio que colabora na construção de laços estáveis e permanentes.

Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: "A paz esteja convosco".

Jesus mostra-lhes as mãos e o lado, oferecendo assim a prova de que é Ele, aquele que foi morto na cruz, quem agora está vivo, ressuscitado, e lhes oferece a sua paz. Esta nova revelação de Jesus nos deixa com a pergunta sobre essa paz que Ele vive: é a paz daquele que viveu entre nós, que se fez um de nós e sofreu o desprezo, a zombaria e, finalmente, a morte como um assassino. Não é a paz da quietude ou da ignorância da realidade complexa e mutável do ser humano, mas, pelo contrário, Ele percorreu o caminho da vida até chegar à morte, e uma morte na cruz. E Deus O ressuscitou e, com Ele, abre um novo caminho de vida para todo ser humano, que começa no momento mesmo em que abrimos nosso ser à Sua paz; é uma paz que nasce da Sua Páscoa.

Vamos conhecê-la e recebê-la se deixarmos que Jesus Ressuscitado entre em nossa vida, que suas mãos e seu lado acariciem nossa dor e nosso sofrimento… e nos abramos humildemente às suas palavras, ao seu sopro que sopra sobre nós, dando-nos vida. Mas, assim como Tomé, temos dificuldade em acreditar que a dor e o sofrimento possam ser habitados por sua paz. Às vezes preferimos guardar essa dor, encher-nos de perguntas sem respostas… mas Jesus não nos deixa abandonados em nossas incertezas, dúvidas ou discussões.

Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "A paz esteja convosco".

Após oito dias, Ele aparece novamente aos discípulos, que se encontram na mesma situação em que estavam no início da semana, mas agora Tomé estava com eles. E, pela terceira vez, Ele lhes oferece a Sua paz: "A paz esteja convosco".

Depois disse a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel". Tomé respondeu: "Meu Senhor e meu Deus!"

Quantas vezes a dor, as injustiças que nos cercam, a indiferença e a opressão daqueles que se acham donos da vida alheia geram perguntas que nos levam a questionar onde está Deus, por que Ele não faz nada, por que não impede que isso aconteça. Jesus oferece sua Paz, aquela que nasce da cruz, do amor entregue, uma paz que não é quietude nem ausência de dor. Jesus convida Tomé a tocar suas chagas, a reconhecer que dali nasce uma vida nova habitada pela paz do Ressuscitado. Desde sua eleição como novo bispo de Roma, o Papa Leão não se cansa de falar da paz, da construção da paz, dos meios e das formas para alcançar a paz. Em sua primeira mensagem ao mundo no desejo e no apelo a “uma paz desarmada e desarmante”. “Uma paz desarmada e desarmante”. A preocupação pastoral maior do Papa Leão XIV. Artigo de Francisco de Aquino Júnior.

Neste segundo domingo da Páscoa, somos chamados a tocar as feridas de nossos irmãos e, unidos a Jesus, oferecer-lhes a Sua paz, aquela paz que acalma a dor e lhe dá um novo sentido, para que todos juntos possamos dizer com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!"

Fazemos nosso o pedido do Papa Leão no Primeiro domingo da Páscoa: “Quem porta armas, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear a guerra, que escolha a paz! Não uma paz conquistada pela força, mas pelo diálogo! Não com o desejo de dominar o outro, mas de encontrá-lo! Estamos nos acostumando à violência”, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às consequências do ódio e da divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências econômicas e sociais que produzem, as quais todos sentimos.” (Primeira Páscoa de Leão XIV: "Quem tem o poder de iniciar guerras deve escolher a paz”).

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