Vida ressuscitada: portas e janelas abertas ao mundo. Comentário de Adroaldo Palaoro

Foto: canva

10 Abril 2026

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do Domingo na oitava da Páscoa, Domingo da Divina Misericórdia2ª Semana da Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 20,19-31.

Eis o texto.

“(...) os discípulos estavam com as portas bem fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19)

O relato pascal deste domingo descreve, com traços fortes, a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta a presença do Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a comunidade se reduz a um grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.

Com as “portas fechadas” não se pode saber o que acontece lá fora; não é possível captar a ação do Espírito no mundo; não dá para abrir espaços de encontro e diálogo com ninguém; apaga-se a confiança no ser humano e crescem os medos e pré-juízos. Uma comunidade que permanece no túmulo, mergulhada no medo e sem capacidade de encontro e diálogo, é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade.

Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam nossa vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por fazermos as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as nossas expectativas.

O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no nosso coração. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação.

O “medo” pode paralisar o “movimento de vida” iniciado por Jesus e bloquear nossas melhores energias; sob o impacto do medo a tendência é nos fechar nos ritos estéreis, na doutrina fria, no legalismo e no moralismo doentios que nos levam a rejeitar o que é diferente e a condenar o que é novo. Com medo não é possível amar o mundo e as pessoas. E, se não o olhamos a realidade com os olhos de Deus, como vamos comunicar a Boa Notícia? Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar a algum doente excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores e marginalizados? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião?

Aqueles que desejam buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.

O relato de João é sugestivo e interpelador. Só quando vê a Jesus ressuscitado no meio deles, o grupo de discípulos se transforma, recuperam a paz, desaparecem seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, recebem o Sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai.

O relato joanino deste domingo traz uma série de expressões que revelam a profunda “ressurreição” vivida pela comunidade dos discípulos; ela precisou fazer a travessia da escuridão para a luz, do medo para a coragem, da timidez para a missão; são expressões carregadas de vida, de futuro, abertas ao novo e que mobilizam a retomar a mesma missão vivida por Jesus durante sua vida pública. O Ressuscitado reconstrói sua comunidade de seguidores, rompe as cadeias do medo e os devolve ao mundo.

* “O primeiro dia da semana”: começa uma nova Criação e com ela, uma nova Aliança. Em Jesus se completa a criação do ser humano, levando a humanidade à sua plenitude.

O local fechado, como consequência do medo, delimita o espaço da comunidade em meio a um mundo hostil. A mensagem de Maria Madalena fazendo-os saber que Jesus vivia, não os havia libertado do medo. Jesus sai ao encontro dos discípulos inesperadamente; sua presença se efetua diretamente. Ele é quem toma sempre a iniciativa e aparece no centro da comunidade, porque, agora, Ele é para eles a única referência e fator de unidade. A presença que experimentam não é uma invenção nem surge de um desejo ou expectativa dos discípulos. A nenhum deles teria passado pela cabeça que Jesus pudesse aparecer, uma vez que tinham testemunhado seu fracasso e sua morte.

* “A paz esteja convosco”: Jesus os saúda; o calor da saudação elimina o medo e as incertezas; é o gesto que conecta o que está acontecendo com o Jesus que viveu e comeu com eles.

A presença de Jesus se impõe como figura próxima e amistosa, que manifesta seu interesse por eles e que busca conduzi-los à sua plenitude de vida.

* “Soprou sobre eles”: É o mesmo gesto do Criador ao fazer do homem de barro um “ser vivente”. Tudo isso é obra do Espírito. Deus atuou em Jesus, atua em nós e atua no mundo. A obra da Criação continua. No sétimo dia, Deus não descansa, o Salvador não descansa até que todos sejam filhos e filhas. Jesus é nova Criação; nós também. Somos criadores com Deus, à sua imagem e semelhança.

* “Meu Senhor e meu Deus”: A resposta de Tomé é tão extrema quanto sua incredulidade. Ao dizer-lhe “Senhor”, reconhece o amor de Jesus e o aceita dando-lhe sua adesão. Ao dizer “meu” expressa sua proximidade, como Madalena. Não precisou tocar as chagas, mas precisou tomar consciência de que o Ressuscitado é infinitamente mais que aquilo que os próprios sentidos podem captar.

E ao reconhecê-Lo, modifica-se também a percepção de sua própria identidade e mergulha no assombro, na admiração e no louvor.

* “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”: O Ressuscitado convida a “crer” porque, quando alguém crê, recupera a capacidade de “ver”. A fé possibilita um olhar contemplativo: vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente. Vê sinais do Ressuscitado em tudo o que existe e compreende que tudo tem um sentido, imperceptível à luz dos sentidos externos. A ressurreição permite um olhar aberto, simples e natural, um olhar encantado diante de cada aspecto da realidade.

O relato evangélico deste domingo vem revelar que a nossa primeira atitude é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para nos defender do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas vidas e de nossas comunidades; que só Ele seja a fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe seu lugar; que ninguém se aproprie de sua mensagem; que ninguém imponha um modo de viver diferente do seu. Precisamos, mais do que nunca, abrir-nos ao alento do Ressuscitado para acolher seu Espírito.

Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.

A ressurreição nos compromete a abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejá-la, para lhe permitir uma melhor circulação do ar, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal.

É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos seguidores(as) do Ressuscitado. Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Ele e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar nas nossas comunidades com toda a liberdade.

Para meditar na oração:

Para fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado é preciso quebrar os “ferrolhos” de nossa morada interior: ferrolhos das ideias fixas, dos sentimentos frios, das relações vazias, do legalismo mortal...

- No nível mais amplo: quais são os “ferrolhos” que travam a vida da Igreja, impedindo-se de ser sinal do Ressuscitado? Quais são os “medos” que bloqueiam a criatividade e a ousada da verdadeira comunidade de Jesus?

Leia mais: