Lições ucranianas sobre paz e guerra

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24 Fevereiro 2022

 

"Os antigos países satélites da URSS estão em pleno declínio populacional e a crise ucraniana intervém em uma fronteira frágil justamente a esse propósito. O cabo de guerra nessa fronteira é o resultado de duas fraquezas que se contrapõem em vez de cooperar", escreve Mario Giro, vice-ministro do Exterior italiano, em artigo publicado por Domani, 23-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Quanto mais tempo passa desde a Segunda Guerra Mundial, menos as classes dirigentes temem a guerra. Com algumas exceções, os atuais líderes não tocaram pessoalmente o conflito real, aquele que deixa para trás apenas terra arrasada. A guerra tem essa particularidade: avança disfarçada, começando secretamente quando ainda não estourou, quando apenas poucos a percebem.

 

O escritor húngaro Sandor Marai, lembrando 1938, escreveu: "Ainda não havia guerra e já não havia mais paz". Esta é a situação na Ucrânia: já não há mais a paz. Perdeu-se dentro das sociedades e entre os povos fronteiriços, outrora irmãos, por causa da tolerância dada à ideologia do inimigo, à hostilidade latente construída contra o vizinho pintado como ameaça.

 

Quando uma sociedade se declara pronta para a guerra, significa que já perdeu a paz há tempo, pois o conflito se prepara com antecedência. Isso já pode ser visto nestas últimas semanas agitadas: não há verdadeira negociação entre EUA e Rússia, apenas propaganda. As notícias de inteligência que aparecem nos jornais, as fotos aéreas e vídeos de mísseis e sistemas de armas: tudo isso serve para ampliar o fosso entre as partes, acusar e intimidar.

 

Tanto a guerra quanto a paz são contagiosas. Guerra chama guerra: o conflito sírio – deixado explodir e depois tolerado sem limites - não é estranho à crise atual. A Rússia testou muitas armas lá, que agora mostra ao mundo com renovado orgulho. A guerra não é feita sem consequências e sempre oferece oportunidades para novos conflitos. De forma não diferente está se comportando a Turquia (em seu nível), testando com sucesso nas várias frentes seus drones armados, que se tornaram um must internacional.

 

O conflito russo-georgiano de 2008, apesar de um vitorioso chega-para-lá russo, havia revelado sérios problemas para o ex-Exército Vermelho, já reconhecidos nas guerras na Chechênia: obsolescência do equipamento militar e deficiências tecnológicas. Desde 2010, Moscou tinha iniciado um extenso programa de modernização, mas foi a campanha da Síria que ofereceu aos russos um campo de experimentação em grandeza natural.

 

Testar as armas e os sistemas tecnológicos que as suportam foi fundamental para obter a eficácia desejada. Há também um aspecto político: na Síria, a Rússia teve oportunidade de verificar a incerteza e a divisão entre os ocidentais, aproveitando especialmente os contrastes entre a Turquia e os aliados OTAN. Tudo isso resultou numa verdadeira tentação para a liderança russa: desencadear a crise ucraniana para dobrar os europeus e afastá-los dos EUA. Este é o propósito do reconhecimento das repúblicas separatistas. Apesar das provocações, por enquanto, está sendo obtido o efeito contrário aparentemente.

 

Assim como as guerras se saldam entre si em uma cadeia mortal, da mesma forma uma negociação séria poderia dar um bom exemplo e indicar o caminho para resolver outras crises maiores como aquelas na Ásia. No entanto, não parece que se queira negociar seriamente: não há mesas formais nem aqueles canais subterrâneos que são ativados nesses casos.

 

Há necessidade de intermediários entre as duas potências e talvez este seja o papel que a Itália pode desempenhar, especialmente o primeiro-ministro Mario Draghi, que possui forte credibilidade e autoridade reconhecida por todos. Os lados foram longe demais e correm o risco de perder a cara, o que em geopolítica equivale a uma quase derrota.

 

As declarações oficiais das últimas semanas não mostram aqueles nuances que poderiam ser utilizadas pelos mediadores internos. O que não se diz é que tanto na Rússia, como na Ucrânia e nos EUA há posições diversificadas sobre o que fazer: falcões e pombas. De acordo com analistas nos Estados Unidos, a Casa Branca seria mais soft que o Pentágono; o mesmo ocorre na Rússia, haveria uma divergência entre o Kremlin e as forças armadas.

 

Sabe-se que as mesmas deformidades também ocorrem na Europa. O que obviamente não funcionou são os acordos de Minsk e é provável que nos últimos anos não tenha havido esforços suficientes para levá-los na direção certa. De fato, nas últimas duas décadas, muitos problemas foram deixados em aberto e sem solução, contentando-se em congelá-los por acreditar que estavam resolvidos. Não é assim: basta olhar para o Nagorno Karabakh, que voltou a explodir subitamente após 30 anos.

 

A comunidade internacional - especialmente a Europa - deve preocupar-se com a Bósnia como com todas as outras fronteiras delicadas, das crises suspensas e das áreas de instabilidade. São numerosas: Sérvia-Kosovo; a crise na Venezuela; as maras da América Central e os narcos mexicanos; a guerrilha ELN na Colômbia e em outros lugares; os vários enclaves russos de Kaliningrado à Transnístria; Punjab e Cashmere; as duas Coreias; Malásia-Tailândia, além das guerras do Oriente Médio e da África ou os conflitos abertos da Síria, Iêmen e Líbia.

 

Como pode se ver, são cenários muito diferentes, mas, em um tempo fluido como o atual, não existe disputa suspensa que não possa se reabrir repentinamente. A crise ucraniana paradoxalmente fortaleceu a OTAN que Putin esperava eliminar depois que Macron havia declarado sua "morte cerebral" e Trump uma "despesa inútil". Com esta crise, a indústria militar ocidental está reencontrando aquele trampolim que faltava desde o fim das operações militares no Oriente Médio.

 

Parece que os repetidos sinais de alerta dos EUA e a propaganda de Moscou visam principalmente suas próprias opiniões públicas internas, e não a contraparte. Foi isso que a China entendeu ao decidir se manter em equilíbrio: por um lado não reconheceu a anexação da Crimeia, pelo outro, critica o alarmismo estadunidense.

 

A verdadeira questão é o equilíbrio estratégico na Europa que Putin quer reencontrar: o fim do tratado INF denunciado por Trump deixou um vazio perigoso. Mísseis de médio alcance (ainda falta saber os cruises também estão incluídos etc.) são um tema candente entre Moscou e Washington já há vários anos e se cruzam com crises locais como Geórgia, Síria, Mediterrâneo ou, justamente, Ucrânia.

 

Na Europa, a Rússia quer obter o direito de negociar cada colocação de lançadores e ogivas, algo que os estadunidenses haviam discretamente abandonado sob a presidência de Clinton e Bush, e formalmente excluído com Obama. O pedido de "garantias de segurança" diz respeito ao equilíbrio de forças nucleares mais que aos territórios disputados como o Donbass em processo de anexação.

 

Na luta interna entre gaviões e pombas, a disputa de terras pode ter uma função promocional (como é o caso do reconhecimento das repúblicas independentes de Lugansk e Donetsk) bem como para o público em geral, mas a verdadeira questão crucial é aquela estratégica. Moscou quer contar e se insere como pode entre as duas superpotências econômicas e tecnológicas, usando o que melhor controla: energia e armas.

 

A Rússia também tem outro grande trunfo: sua imensa extensão territorial entre a Europa e a Ásia.

 

Mas esta é uma faca de dois gumes quando se considera o declínio demográfico. É por isso que conceder passaportes russos a cerca de 800.000 ucranianos do leste faz parte do interesse nacional russo: aumentar sua população. Isso levará Moscou a anexar em vez de assumir a defesa de duas repúblicas. Trata-se de uma questão que os europeus ocidentais conhecem de perto: eles também estão preocupados com a crise demográfica e com as questões migratórias em geral.

 

São temas que assumem um aspecto ainda mais dramático se nos deslocarmos para o leste: os antigos países satélites da URSS estão em pleno declínio populacional e a crise ucraniana intervém em uma fronteira frágil justamente a esse propósito. O cabo de guerra nessa fronteira é o resultado de duas fraquezas que se contrapõem em vez de cooperar.

 

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