A crise da Ucrânia é o início de uma nova ordem mundial?

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16 Fevereiro 2022

 

A reunião entre Vladimir Putin e Xi Jinping, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno, foi mencionada apenas de passagem nos principais meios de comunicação. No entanto, trata-se de uma reunião muito importante, com consequências que podem ser muito impactantes. Estamos no início de uma nova ordem mundial?

Abaixo, uma interpretação histórica do especialista em China, Marc Vandepitte, economista e filósofo belga, em artigo publicado por Rebelión, 11-02-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Declaração conjunta

 

Pouco antes do início dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, Putin e Xi emitiram uma declaração conjunta sobre as relações internacionais e a cooperação entre os dois países. Trata-se de um documento de dez páginas que chega em um momento de grande tensão com a OTAN por causa da Ucrânia e o boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno.

O texto pode ser lido como um apelo a favor de uma nova ordem mundial em que os Estados Unidos e seus aliados não sejam mais os protagonistas, mas que se busque um mundo multipolar, que respeite a soberania dos países.

“As duas partes se opõem a uma nova ampliação da OTAN. Pedem à Organização do Atlântico Norte que abandone sua concepção ideológica da Guerra Fria, que respeite a soberania, a segurança e os interesses de outros países, bem como a diversidade de sua civilização e de seus antecedentes culturais e históricos, e que adote uma atitude honesta e objetiva em relação ao desenvolvimento pacífico de outros Estados”.

Sinais semelhantes foram enviados no passado, como uma declaração conjunta em 1997, mas é a primeira vez que os dois presidentes se pronunciam com tanta clareza e reforçam seus vínculos de forma tão próxima. Também é a primeira vez que a China se declara explicitamente contra a expansão da OTAN.

Para compreender o alcance deste documento, é útil dar uma olhada na história recente.

 

Hegemonia

 

Na primeira metade do século XX, por um lado, ocorreu a ascensão de duas novas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. Por outro lado, houve o relativo desaparecimento das antigas potências coloniais.

Os Estados Unidos emergiram como o grande vencedor da Segunda Guerra Mundial. Tanto as antigas superpotências quanto a União Soviética estavam completamente falidas. Em Washington, sonhavam com uma nova ordem mundial no qual só eles governassem.

“Optar por algo menos do que a hegemonia absoluta seria escolher a derrota”, disse Paul Nitze, alto assessor do governo dos Estados Unidos. Infelizmente, esses planos foram frustrados pela rápida reconstrução da União Soviética e a ruptura do monopólio nuclear.

Meio século depois, sim, esse sonho se tornou realidade com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o desmantelamento da União Soviética dois anos depois. A partir daquele momento não houve mais barreiras à supremacia absoluta. Os Estados Unidos enfim se tornaram o líder indiscutível da política mundial e quis manter essa posição.

O Pentágono não deixou margem para dúvidas em 1992: “Nosso primeiro objetivo é evitar que surja um novo rival nesse cenário mundial. Devemos evitar que os competidores potenciais sequer almejem desempenhar um papel maior em escala regional ou global”.

Naquele momento, ainda não tinham a China na mira. A economia chinesa estava muito subdesenvolvida e seu PIB significava apenas um terço do dos Estados Unidos. Militarmente, o país também não valia nada. Washington pensava principalmente na Europa como um rival potencial e em um possível ressurgimento da Rússia.

 

Sem freios

 

Após a queda da União Soviética, os Estados Unidos tiraram o pé do freio. A invasão do Panamá, no final de 1989, foi um ensaio para o que viria em seguida. Pouco depois, foi a vez do Iraque, Iugoslávia e Somália. Mais tarde, Afeganistão, Iêmen, Líbia e Síria.

Além das intervenções militares abertas, os Estados Unidos travaram cada vez mais “guerras híbridas” [1] ou “revoluções coloridas” [2] para provocar mudanças de regime, não funcionando em todos os lugares. É o que tentaram no Brasil, Bolívia, Venezuela, Cuba, Honduras, Nicarágua, Geórgia, Ucrânia, Quirguistão, Líbano e Bielorrússia. Por outro lado, mais de vinte países foram objeto de sanções econômicas.

A OTAN, criada para fortalecer militarmente a hegemonia dos Estados Unidos, também foi constantemente ampliada após o desmantelamento da União Soviética. Desde os anos 1990, 14 Estados do continente europeu se tornaram membros da organização do tratado. Outros países, como a Colômbia, tornaram-se “parceiros” da OTAN.

 

O cerco à China

 

Assim, os Estados Unidos pareciam ser o dono do mundo, após a Guerra Fria. Mas se esqueceram da China. Pela primeira vez na história recente, um país pobre e subdesenvolvido se tornou uma superpotência econômica em pouco tempo.

Nos últimos 30 anos, a China experimentou uma notável expansão econômica. Desde sua adesão à OMC, em 2001, o tamanho da economia chinesa mais do que quadruplicou. O avanço não foi apenas econômico, mas também tecnológico.

Até recentemente, o Ocidente, com os Estados Unidos na liderança, tinha um monopólio absoluto sobre a tecnologia, as armas de destruição em massa, os sistemas monetários e financeiros, o acesso a recursos naturais e meios de comunicação em massa. Como esse monopólio, conseguia controlar ou subjugar os países, especialmente do sul. O Ocidente, onde os Estados Unidos policiam, agora corre o risco de perder esse monopólio.

Por isso, os Estados Unidos identificam a República Popular da China como o seu principal inimigo. No marco dos debates orçamentários para 2019, o Congresso declarou que “a concorrência estratégica a longo prazo com a China é uma prioridade central para os Estados Unidos”. Trata-se de uma estratégia global que deve ser realizada em várias frentes. Os Estados Unidos tentam frustrar, ou como eles dizem, “sufocar” a ascensão econômica e tecnológica da China.

Se for necessário, também utilizarão meios extraeconômicos. A estratégia militar em relação à China segue duas vias: uma corrida armamentista e um cerco ao país. Os Estados Unidos já possuem mais de 30 bases militares que cercam a China, bases de apoio ou centros de treinamento. De sua frota total, 60% está estacionada na região. Há anos trabalham neste cerco militar.

Em abril de 2020, o Pentágono publicou um novo relatório que defende uma maior militarização da região. O plano é instalar mísseis balísticos em suas próprias bases militares ou nas de seus aliados. Se depois também instalarem mísseis de cruzeiro em submarinos, podem chegar à China continental em 15 minutos. São passos muitos perigosos.

Como parte dessa estratégia de bloqueio, o Pentágono também está reforçando os laços militares com os países da região. Por exemplo, em 2021, concluiu um pacto de segurança com a Austrália e a Grã-Bretanha para conter a China.

 

Já basta

 

Putin e Xi consideram que já basta. O avanço da OTAN ao leste, o aumento da guerra militar e híbrida em todo o mundo, as numerosas sanções econômicas e o cerco à China, tudo isso deve parar. Acabou o tempo em que a OTAN, o G7 e o FMI, dominados pelo Ocidente, estavam no comando. O mundo unipolar deve dar lugar a um mundo multipolar.

A agressão cada vez maior contra a China e a Rússia está levando os dois países a se abraçarem. A China possui quase um quinto da população mundial, é uma potência econômica global e é o parceiro comercial mais importante da maioria dos países. A Rússia é o maior país do mundo e é uma superpotência nuclear.

Uma aliança entre os dois países constitui um importante contrapeso à supremacia estadunidense. Segundo o jornal The Guardian, “o nascimento deste eixo sino-russo, concebido como uma resistência às democracias ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, é o acontecimento estratégico global mais importante desde o colapso da União Soviética, há 30 anos. Determinará a era vindoura”.

No entanto, não se trata apenas desses dois países. A Rússia é membro de várias alianças regionais e multinacionais. Uma delas, uma aliança militar, é a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), que atualmente participa em operações de “manutenção da paz” no Cazaquistão. Outra é a Organização para Cooperação de Xangai, que é uma aliança euroasiática nos campos político, econômico e de segurança. Além de Rússia e China, também são membros Índia e Paquistão, entre outros.

A China se uniu recentemente à maior associação econômica do mundo, a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês). Esta associação no sudeste asiático atinge 30% da população mundial. A nova Rota da Seda significa centenas de investimentos, empréstimos, acordos comerciais e dezenas de Zonas Econômicas Especiais no valor de 900 bilhões de dólares. Estão espalhados por 72 países, com uma população de 5 bilhões de pessoas ou 65% da população mundial.

 

Nova ordem mundial?

 

Com seu artigo O fim da história e o último homem, publicado pouco depois da queda do Muro de Berlim, Fukuyama anunciou uma nova era baseada na hegemonia ocidental. Os fracassos no Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia e Iêmen, entre outros, demonstram que se tratava de uma enorme arrogância.

Se a recém-concluída aliança entre Rússia e China se consolidar e outros países se unirem a ela, sim, é possível que estejamos diante do início de uma nova era. Não é o fim da história, mas o começo de uma nova etapa, na qual o poder no mundo é mais descentralizado. Em outras palavras, uma nova ordem mundial. Tempos emocionantes estão a caminho, mas também perigosos. Agora, mais do que nunca, precisamos de um forte movimento pela paz.

 

Notas

 

[1] A guerra híbrida é uma forma de guerra acobertada, que utiliza uma série de meios: notícias falsas, manipulação por meio das redes sociais, pressão diplomática, artifícios legais contra líderes políticos (lawfare), manipulação e direcionamento ao descontentamento popular, pressão nacional e estrangeira sobre as eleições etc.

[2] Segundo o manual das revoluções coloridas, ONGs, organizações estudantis e locais são financiadas para organizar distúrbios nas ruas com a maior eficácia possível. A violência nas ruas deve desestabilizar o país a ponto de o governo ser forçado a renunciar ou o exército intervir e destituir o governo.

 

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