A rebelião dos pulmões. Entrevista com Franco “Bifo” Berardi

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15 Abril 2020

Em “Diário da psicodeflação”, o filósofo e escritor italiano Franco Berardi realiza uma das análises mais lúcidas e comovedoras da atual pandemia que sacode o planeta e que “poderia abrir a porta ao autoritarismo “tecnocrático” ou “criar um efeito de frugalidade que pudesse mudar o mundo”.

Professor durante décadas em Bolonha, cidade onde nasceu e reside, autor de livros como “Futurabilidad: la era de la impotencia y el horizonte de la posibilidad” e “Fenomenología del fin: sensibilidad y mutación conectiva” - ambos publicados na Argentina por Caja Negra -, Berardi, de antiga tradição marxista, continua reivindicando o internacionalismo.

Na atualidade, propõe a interconexão solidária de trabalhadores do conhecimento e artistas em uma plataforma que deixe para trás o Facebook e o Google, mas sua experiência política e filosófica remonta aos anos 1970, quando publicou o seu primeiro livro (“Contra o trabalho”) e fez parte do Lotta Continua, grupo emblemático do autonomismo radical italiano.

Em 1975, funda a revista “A/Traverso”, participa da criação da emissora de rádio pirata Alice e, tempos depois, se vê obrigado a se exilar em Paris, onde tem contato com Felix Guattari e Michel Foucault.

De volta à Itália, em 2002, fundou o canal de televisão comunitária Orfeo TV, lançando o movimento da estação de televisão pirata Telestreet, em pleno auge político do magnata da televisão e meios de comunicação Silvio Berlusconi, então primeiro-ministro.

De seu apartamento no centro de Bolonha, onde com 71 anos cumpre o isolamento social obrigatório, Berardi, conhecido popularmente como “Bifo”, concordou em conversar com Télam sobre sua visão do atual momento vivido pelo mundo.

A entrevista é de Pedro Fernández Mouján, publicada por Télam, 10-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em “Diário da psicodeflação”, você explica que há anos o capitalismo se encontra em um estado de estagnação irremediável, obrigando todos nós a sustentar a ilusão de sua bolha expansiva com base na hiperatividade e superestimulação e enxerga essa parada forçada pelo vírus uma condição para um salto mental.

Estamos descobrindo algo novo que é o útil, a economia capitalista se funda na acumulação do valor de troca, o dinheiro, o poder, mas, de repente, nos vemos forçados a outra economia, onde as finanças perdem potência e a sobrevivência se apresenta em termos do que é útil: a água, o alimento, o ar que respiramos, o sorriso do outro, a palavra, o afeto.

Não é minha intenção esquecer o sofrimento que a condição pandêmica acarreta, sobretudo aos que são mais pobres. Minha intenção é ressaltar o efeito de frugalidade que pode mudar radicalmente nosso estilo de vida.

Você destaca: “O que a vontade política não pôde fazer, poderia ser feito pela potência mutagênica do vírus, mas esta fuga deve ser preparada imaginando o possível”. O que pensa que é “imaginar o possível”?

Frente ao futuro podemos pensar no provável, o que está inscrito nas relações presentes do poder, mas o futuro não só é provável, como também imprevisto. A explosão da pandemia é a demonstração evidente do fato de que o imprevisto sempre muda as perspectivas do inevitável. O futuro não é apenas o que está inscrito como probabilidade no presente, é também uma quantidade de outros desenvolvimentos “possíveis”, ainda que pouco prováveis.

Em nosso futuro próximo, existe a probabilidade de uma volta totalitária, sombria, agressiva, mas também há outras possibilidades, por exemplo, a possibilidade de um relaxamento do sistema nervoso do corpo planetário, uma disposição frugal e igualitária, uma redistribuição da riqueza existente e uma produção mais compartilhada e mais relaxada do útil que necessitaremos.

Voltando à saída sombria da crise, você adverte, em “Diário...”, que podemos estar “no limiar de uma forma tecnototalitária”.

Claro que sim, é totalmente provável, é a coisa mais provável que pode acontecer. Giorgio Agamben destacou isso desde o começo, desde o primeiro dia de “lockdown”. Agamben disse: a quarentena é o começo de uma transformação tecnototalitária. O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, claramente, deu essa demonstração introduzindo uma reforma constitucional definitivamente autoritária, mas não é o foco de minha intenção. Está claro que me interessa saber que provavelmente a reclusão generalizada irá gerar um sistema mais autoritário, tendencialmente tecnototalitário, mas para mim interessa mais fotografar o “possível” que esta situação nova oculta.

O que pode resistir na psicodeflação e ser motor da mudança, o desejo?

O desejo está comprimido nesses dias. O moto da transformação possível, da reativação possível, é a respiração. A respiração de um corpo se concatena à respiração do corpo do outro e todos os corpos estão buscando um ritmo de respiração comum, uma sintonia com a respiração do cosmos.

Guattari fala de espasmo cósmico para definir a transição da época moderna do capitalismo e da economia expansiva. Há um espasmo, uma contração dolorosa do corpo coletivo que vivemos por muitos anos. A revolta global dos jovens de Santiago do Chile, Hong Kong, Beirute, Paris, Barcelona, Quito, em 2019, foi um sintoma desta contração convulsiva. Depois, de repente, o silêncio. E agora estamos tentando retomar a respiração: a solidariedade, o contrário da competição.

Em 2008, o capitalismo global também sofreu uma crise importante, mas se recuperou rapidamente. Qual seria a diferença em relação a esta?

O fator antissistêmico: o corpo humano. A crise de 2008 era o efeito artificial de um desequilíbrio na relação entre lucro financeiro e produção de mercadorias. A crise de hoje não tem nada a ver com a dimensão financeira (ainda que a faça explodir): é uma crise do corpo humano, uma rebelião dos pulmões, do sexo, do coração, das pernas, do estômago, da garganta, dos olhos, do ouvido, do olfato. Da respiração, o capitalismo financeiro não pode curar esta doença, só o corpo mesmo, e a mente, podem curá-la: respirando.

 

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