Cadeia de jejuns para levar o Papa a Gaza

Foto: Vatican News

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23 Setembro 2026

"Há momentos na história em que as declarações não são suficientes. Acreditamos que estamos vivendo um desses momentos."

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por Sete Margens, 20-09-2026.

Uma cristã dirigente de uma organização civil da Palestina desafiou o Papa Leão XIV a passar três dias em Gaza e a mobilizar a Igreja Católica universal para dar proteção a um povo cuja existência se vê dia a dia mais ameaçada e, com ele, também os cristãos na terra em que Cristo nasceu. A não resposta do lado do Vaticano levou, entretanto, outros cristãos a lançar, já a partir desta segunda-feira, Dia Internacional da Paz, uma cadeia de jejuns e reflexões como forma de apoiar as propostas feitas.

"Há momentos na história em que as declarações não são suficientes. Acreditamos que estamos vivendo um desses momentos", afirma Amira Mussallam, que dirige, com Mel Duncan, a Proteção Civil Desarmada na Palestina (Unarmed Civilian Protection in Palestine – UCPiP), uma organização que envolve civis treinados e organizados para fornecer proteção direta a outros civis ameaçados por conflitos violentos, além de apoiar a autoproteção de comunidades locais, sempre sem recurso a métodos violentos.

Numa carta dirigida a Leão XIV, Amira Mussallam, que assina o texto, diz saber "quão extraordinário é pedir ao Papa que visite um lugar que vive a guerra, a ocupação e um sofrimento imenso". "Mas fazemos esse pedido mesmo assim", diz ela, porque o apelo que faz é "à proteção, à dignidade e ao futuro de todos os palestinos — tanto cristãos quanto muçulmanos". São quatro os verbos que, para ela, dão substância a esse desejado gesto papal: venha, fale, mobilize e proteja.

"Passe algum tempo em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental; não apenas nos lugares santos, mas entre as pessoas e as comunidades que enfrentam assassinatos, deslocamentos e expropriações. Sua presença física mostraria aos palestinos que não foram abandonados", sublinha a carta.

Também as palavras do Papa, para "exigir, de forma inequívoca, o fim das mortes, dos deslocamentos forçados, da destruição e da expropriação dos palestinos — e para instar os governos a irem além das declarações e a tomarem medidas concretas", seriam fundamentais, dado "todo o peso moral e diplomático da Santa Sé".

Apoiar o povo palestino poderia passar por mobilizar para os territórios protetores civis desarmados (existem cerca de uma centena organizados em 20 grupos, mas seriam necessários pelo menos mil). O que fazem os palestinos, israelenses e pessoas de outras nacionalidades que já trabalham lá? A resposta vem na carta: "Acompanhamos pastores de rebanhos. Permanecemos em comunidades ameaçadas. Caminhamos ao lado de famílias. Respondemos quando as comunidades nos chamam. Documentamos ataques. Tentamos reduzir a tensão em situações perigosas. Às vezes, simplesmente dormimos numa comunidade porque as famílias têm medo do que pode acontecer durante a noite".

Vale lembrar que essa iniciativa ganhou forma durante a recente conferência internacional sobre "a paz desarmada e desarmante", organizada em Roma pelo Instituto Católico para a Não Violência, da Pax Christi Internacional. Nela, os dois dirigentes da UCPiP apresentaram o trabalho que realizam, e foi nesse contexto que uma outra intervenção lançou a ideia de levar a luta não violenta a patamares mais ousados, que possam ser mais eficazes na resolução dos problemas das comunidades e dos povos. Como o Sete Margens, que cobriu esse encontro, relatou, uma das propostas foi, precisamente, a de convidar Leão XIV a ir a Gaza. No dia seguinte, a carta começou a ganhar forma.

Duas semanas para uma cadeia de jejuns e reflexões pela Palestina

Durante sua estadia em Roma, a dirigente da UCPiP procurou, por todos os meios, ser recebida por Leão XIV, mas, como explicou na carta que deixou no dia 11 de setembro, em cinco endereços diferentes do Vaticano, tinha pela frente apenas três dias antes de sair de Roma. Não só não recebeu contato como, até o momento, não teve resposta.

Para manter essa intenção e esse pedido vivos, até porque não envolve apenas a referida ida do Papa a Gaza, um grupo de participantes de diferentes países na Conferência pela Paz Justa e pela Não Violência decidiu lançar um período de jejuns de 24 horas e ações de reflexão, numa cadeia que vai desta segunda-feira, 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, até 2 de outubro, Dia Internacional da Não Violência (ambos instituídos pela ONU).

A iniciativa visa suscitar respostas à carta de Amira Mussallam por parte de Leão XIV e de grupos e comunidades cristãs que se sintam interpelados.

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