Sete dores e sete alegrias de Maria Santíssima. Artigo de Fernando Altemeyer

Virgem Maria sofre profundamente durante a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Localizado na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, mosaico representa a quarta estação da Via-Sacra. (Foto: Lawrance OP/Flickr)

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16 Setembro 2026

"Ela é a Stabat Mater Dolorosa: mãe que permanece cheia de dores (Jo 19,25-27). É a mesma mulher que é Stabat Mater Speciosa: mãe que permanece sempre bela. Pode haver dor maior que a de uma mãe que vê o filho sofrer? Que mãe não questionaria o próprio Deus por tal incongruência? Ela fica perto da cruz com as outras mulheres com coragem inaudita. Conhece a dor na carne, mas segue resiliente e audaz. Será acolhida por João e se torna a mãe da humanidade", escreve Fernando Altemeyer Junior, professor doutor na PUC-SP, ao refletir sobre as Sete Dores de Maria no Dia de Nossa Senhora das Dores, celebrado pela Igreja em 15 de setembro.

Eis o artigo.

Falar das dores de Maria exige sintonia entre fragilidade humana e graça de Deus para superar momentos difíceis. Entretanto, se esticarmos demais o discurso das sete dores, acabaremos por favorecer uma fé cristã resignada e submissa. Tais sete dores acabariam por manter as pessoas presas ao vale de lágrimas depressivo. Isso seria uma ofensa à pessoa de Maria Santíssima, que canta o hino subversivo do Magnificat. Maria e o próprio filho Jesus não anunciaram doutrinas ou teorias, mas realizaram atos significativos em favor dos empobrecidos. Atos de alto valor simbólico que denunciavam a mentira dos seus adversários e despertavam a esperança no povo. Com isso, (Jesus) não derrubou imediatamente o Império Romano. Mas, desde então, todos os movimentos revolucionários tiveram raízes na sua missão profética (COMBLIN, José. A profecia na Igreja, São Paulo: Paulus, 2008, p. 273).

É oportuno contrapor as sete dores aos sete amores que emergem na história real da Mãe de Deus, nas dores e nas alegrias. Há entre os títulos gloriosos da Virgem o de Nossa Senhora do Sorriso. “Originou-se do seguinte fato: estando Santa Teresinha de Lisieux, quando menina, gravemente enferma, dirigiram-se os seus com fervorosas súplicas à Santíssima Virgem, e em 13 de maio de 1883 a bela imagem que estava à cabeceira de Teresinha, animando-se, sorriu-lhe com um sorriso arrebatador, curando-a maravilhosa e repentinamente. A milagrosa imagem é uma reprodução da obra do artista Bouchardon, e, foi em 1894 doada ao mosteiro de Lisieux” (ADUCCI, Edésia. Maria e seus títulos gloriosos, São Paulo: Edições Loyola, 1998, p. 341). A tradição popular construiu uma profunda devoção das sete dores inscrita no coração dos pobres. Cumpre a nós, hoje, completar esse septenário de preces às sete alegrias marianas que pedem contemplação e ação em favor da vida e das mulheres de todas as nações.

Milagre do Sorisso de Nossa Senhora a Santa Teresinha do Menino Jesus. Encontro é relatado em seu livro autobiográfico História de uma alma. (Foto: Reprodução)

A primeira dor de Maria é expressa no momento em que ela se encontra com o justo Simeão, quando se dá a apresentação de seu filho Jesus no Templo para cumprir a purificação prescrita pela lei de Moisés (Lc 2,22-35). A cena é pungente e dramática. Toda mãe exultaria ao ouvir essas palavras do ancião: “meus olhos viram a tua salvação”, e certamente ficaria sobressaltada ao ouvir a sequência cruenta: “a ti (Maria), uma espada traspassará tua alma!”. Mescladas no momento da apresentação, palavras de contentamento e palavras de dor. Saber que seu filho vai sofrer é carga pesada para qualquer mãe. Ouvir que o filho será sinal de contradição traz pesadelos. Ouvir o piedoso profeta, agora preparado para morrer, pois tinha em seus braços o Ungido, fez a mãe sorrir. Mas, ouvir que esse filho será posto para a queda e soerguimento a terá feito tremer.

Felizmente havia a profetisa Ana, viúva de 84 anos, que ao tomar o menino em seu colo, canta enternecida com esse seu novo “afilhado”. O menino recebido por dois anciãos manifesta a esperança messiânica, anteriormente cantada pelas profetisas Miriam, irmã de Moisés (Ex 15,20), Débora (Jz 4,4) e Hulda (2Rs 2,14). A festa ritual fez entrelaçar no coração da Mãe Santíssima os mistérios de Deus e as dores do mundo. Nada mais será como antes depois das falas de Simeão e Ana. As palavras de dor de Simeão virão acompanhadas dos cantos de Ana. Não há vida sem dores de parto.

A segunda dor de Maria será vivida na fuga para o Egito, na migração forçada da Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José (Mt 2,13-18). Tal ferida, ao deixar a terra materna, traz memórias dolorosas das dispersões forçadas dos impérios invasores da terra palestina. Assim foi contada, de geração em geração, desde os tempos de escravidão no Egito e Babilônia, e condensada no choro coletivo de Raquel, pela voz do profeta Jeremias. Depois da tempestade, retornou vigorosa a esperança. Um aviso por sonho, dirá que podem voltar para a Galileia (Mt 2,19-23). A Sagrada Família retorna para a Terra Santa, aquela onde corre leite e mel. Irão viver na periferia do mundo, na pequena Nazaré, a flor das terras palestinas. Não há fuga que não reencontre o útero materno, na volta ao paraíso perdido.

A terceira dor de Maria emerge quando do desaparecimento do adolescente Jesus que fez Maria e José buscarem por quatro dias esse Jesus desaparecido (Lc 2,4150). Que mãe e que pai não ficariam aflitíssimos ao perder de vista seu “filhote” por alguns segundos. Imaginem por quatro dias! Quantos sobressaltos na mente e coração de Maria e José na sôfrega busca do adolescente Jesus pelas vielas da Cidade Santa. Em tempo de Páscoa e ainda mais após dias de muita festa e reencontro dos parentes e primos. Ao reencontrar o menino explode a alegria e a pequena “bronca materna” daquela que viveu a agonia da busca. E, paradoxalmente, vê seu “menino Jesus” ensinando aos doutores no Templo. Orgulho santo. Ao questionar o filho, ouve a cândida e misteriosa resposta: “não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. O que quis dizer Jesus para sua mamãe e seu pai adotivo? Eles não podiam compreender. Retornaram os oito dias da viagem no lombo de jumentos, remoendo no coração e na mente tal enigma. O que Deus pedia do filho tão amado? O Que Deus pede da mãe de Jesus? O que irá pedir de quem n´Ele crê? Quem procura sempre há de encontrar o amor.

A quarta dor de Maria, experimentada no encontro da mãe com o filho que está a caminho do Calvário (Lucas 23,27-31). Muita gente no caminho da cruz. Dois malfeitores, um camponês Simão, estrangeiro de Cirene, a quem é imposto o fardo da cruz, como companheiro das dores. E entre a multidão de gente que seguia o macabro cortejo rumo ao Gólgota, estão as mulheres. A tradição faz presente entre as mulheres apostolas e discípulas, a mãe de Jesus e, consigo, está Madalena. As mulheres nunca se afastam dos sofredores nem temem os poderosos. Enfrentam com audácia e vigor. As mulheres comungam as dores do parto e as da morte. Elas batem no peito por causa de Jesus. Elas sabem que ali está o inocente que tira o pecado do mundo. O justo e santo que amou e segue amando. Nesse momento de tamanha dor onde estaria a alegria mariana? Na solidariedade e na compaixão. Maria se faz mãe da misericórdia ao seguir Jesus na Via Sacra. Sua fidelidade e sua esperança são as mesmas de Jesus. A última palavra é sempre ressurreição. Na hora decisiva, Maria segue movida pelo principio da misericórdia.

Assim diz Jon Sobrino: “Segundo Jesus, sem misericórdia não há humanidade nem divindade e, como todos os mínimos, é um verdadeiro máximo. O importante é que esse mínimo-máximo é o primeiro e o último: não existe nada anterior à misericórdia para motivá-la, nem existe nada mais além dela para relativizá-la ou recusá-la” (SOBRINO, Jon. A misericórdia. Petrópolis: Vozes, 2020, p. 41). Podemos afirmar com certeza que o sofrimento dos fracos e dos subalternos na Palestina do primeiro século, é sempre o pano de fundo da ação de Jesus e de Maria Santíssima. Ao ver a vida dos sofredores, as entranhas de Maria e de Jesus sempre se comovem e exigem coerência até o fim. Ser misericordioso quando ninguém o é. Eis o desafio alegre em meio de tantos crucificados. Crer apesar de tudo parecer naufragar. Começar com a misericórdia não é fácil, mas mantê-la é ainda mais difícil. A fidelidade do encontro fortalece o nosso caminhar.

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A quinta dor de Maria emerge quando assiste ao sofrimento e morte do filho Jesus na cruz. Ela é a Stabat Mater Dolorosa: mãe que permanece cheia de dores (Jo 19,25-27). É a mesma mulher que é Stabat Mater Speciosa: mãe que permanece sempre bela. Pode haver dor maior que a de uma mãe que vê o filho sofrer? Que mãe não questionaria o próprio Deus por tal incongruência? Ela fica perto da cruz com as outras mulheres com coragem inaudita. Conhece a dor na carne, mas segue resiliente e audaz. Será acolhida por João e se torna a mãe da humanidade. Como diz o ditado popular: “no coração de mãe, sempre cabe mais um”. Na voz de Adélia Prado: “mulher é desdobrável". Aquela que é alegre e bela é a mesma mãe que sofre e acompanha o Filho na hora derradeira. Jamais ficamos órfãos. Maria sempre caminha conosco e, por isso, cantamos: “Pelas estradas da vida, nunca sozinho estás. Contigo pelo caminho, Santa Maria vai”. A cruz não tem a última palavra. A última palavra é sempre a do Amor eterno.

A sexta dor de Maria quando recebe o corpo do filho tirado da cruz (Mt 27,55-61). Exige silêncio e veneração. Presença silente de três Marias. A vida de Jesus, sua mensagem e sua morte não foram esquecidas nem interrompidas graças às três mulheres. “A força que tomava conta e movia essas mulheres era, sem sombra de dúvidas, o amor. Também agora o amor era o elo que as unia a seu Mestre, que partira para longe delas, e era o amor que dilatava e abria seus corações além dos confins desse mundo, para lá onde acreditavam que Ele teria se elevado” (LIMBECK, Meinrad. Adeus à morte sacrificial: repensando o cristianismo. Petrópolis: Vozes, 2016, p. 65).

A sétima dor de Maria que observa o corpo do filho sendo depositado no Santo Sepulcro (Lc 23, 55-56). Maria permanece firme e forte até o último momento da vida terrena de Jesus. Veio da Galileia com Jesus, e agora observam o túmulo onde ele fora colocado. Túmulo emprestado. Morte imposta pelo sanguinário Pôncio Pilatos, em nome do Império Romano. Verdadeiro pesadelo para seus companheiros e companheiras. Na noite mais escura, irrompe a luz divina e exalam os aromas e perfumes que anunciam Jesus ressuscitado. Jesus ressurge entre os jardins e na estrada de Emaus. Ele vive! Maria bem o sabe. Sabe em seu coração e pensamento. Quem ama, conhece os segredos de Deus. Ela sabe por que gestou o Ungido de Deus. Sabe por que é a filha predileta de Deus. Ela é a Virgem Dolorosa. Ela é a Mãe da Alegria. Ela conhece as sete dores. Ela experimenta as sete alegrias.

Escreve Clodovis Boff: “Ela manteve o coração soberanamente livre, aberto, desapegado. Não houve mulher que tenha vivido e sofrido uma desapropriação mais radical do fruto de suas entranhas do que ela. Como mãe, sentiu toda a força do instinto que quer possuir e reter, e ao mesmo tempo, toda a pulsão do amor e da vida que quer dar e entregar. Por isso, deixou serenamente o filho seguir sua livre e única missão, oferecendo-o a Deus e ao mundo. E, no momento supremo da elevação na cruz, lá estava ela, stantem non flentem (de pé sem chorar), como se exprimiu admiravelmente Santo Ambrósio. Era o ícone da fé, uma fé, porém, que respondia ao transbordamento da própria graça” (BOFF, Clodovis. O cotidiano de Maria de Nazaré, São Paulo: Ed. Salesiana, 2003, p. 110). Uma gota de perfume muda o mundo. Onde há perfume há amor invisível. Mesclando azeite e sândalo, confirmamos nossa fidelidade ao Cristo. Para carregar as sete dores, precisamos de sete amores.

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