Cruz como arma de tortura. Artigo de Fernando Altemeyer Junior

Cristo de São João da Cruz (1951). Obra de Salvador Dalí. (Foto: Vatican News)

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15 Setembro 2026

"Diante do paradoxo da cruz, proclama-se a vitória do amor. A cruz é real e o amor de Jesus também o é. Se a última palavra não pertence à morte e se a morte não tem mais poder, é porque Cristo passou pela prova deste amor. A cruz, como nos ensina Jon Sobrino, “é tudo, menos uma metáfora. Significa morte e crueldade, ao que a cruz de Jesus acrescenta inocência e indefensibilidade. Para os teólogos cristãos, a cruz remete-nos a Jesus de Nazaré. Ele é o crucificado. Por isso, ao chamar os pobres deste mundo de povos crucificados, nós os tiramos do anonimato e conferimos-lhes a máxima dignidade", escreve Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor na PUC-SP, ao refletir sobre a Festa da Exaltação da Santa Cruz e os 71 anos do Papa Leão XIV.

Eis o artigo.

A cruz como instrumento de tortura e morte se originou com os assírios e babilônios e passou a ser usada pelos persas de forma sistemática. Alexandre, o Grande, levou tal método de terror aos países do Mediterrâneo. Os romanos tornaram-no ainda mais cruel usando-o como instrumento de tortura psicológica e execução pública para intimidar os povos subjugados e impedir rebeliões. Era reservada aos escravos, rebeldes e criminosos não cidadãos, visando a humilhação extrema.

A cruz romana clássica era composta pelo stips (poste vertical fixo) e pelo patibulum (travessa horizontal carregada pelo próprio condenado, que em geral era acorrentado a essa madeira, onde seria pregado para morrer exangue). Todo crucificado era desnudado completamente de suas vestes para vergonha pública.

O escândalo de um corpo nu

Artistas veem corpos com olhar distinto de religiosos, alemães veem corpos nus de forma distinta de yanomamis amazônicos ou bosquímanos africanos. Japoneses, palestinos, russos, médicos, enfermeiros, cuidadores, mães, atletas, cristãos, muçulmanos, ateus e agnósticos, cada qual contempla corpos nus com olhar distinto.

Estar diante de um corpo nu mexe com nossas entranhas, valores, pensamentos, intestinos, sexualidade, pele, e noções de pudor e vergonha da intimidade. Não há como ficar impassível diante de um corpo nu. Diante do nu, não há espaço para palavras ocas. Em muitos emerge o pudor, em outros a vergonha, em muitos a naturalidade, e mesmo o medo. O nu abre para o conflito e para a verdade pessoal.

Diante do nu, é raro que as pessoas pensem e reflitam. Em geral, as pessoas demonstram seus sentimentos mais subterrâneos. É, portanto, um dos temas mais vulcânicos da história dos povos. Uns enxergam amor erótico e outros só veem pornografia. O corpo nu desvela conceitos e valores. Os antigos escritores da Igreja falam de Jesus na cruz com o corpo completamente nu: "nudus, nudita, gymnos, gymnesthai - nu, nudez, nu, desnudado". São João Crisóstomo escreveu: "Ele foi conduzido nu à morte - epi to pathos efeto gymnos", e "eistekeigymnos eis meso ton ochlon ekeinos - ficou nu no meio daquela multidão".

Santo Efrém, o Sírio, (Sermão VI sobre a Semana Santa) diz que o Sol se escondeu diante da nudez de Jesus. Em outra passagem: "A luz dos astros se obscureceu porque fora completamente despido Aquele que veste todas as coisas". Afirmação mais conclusiva de João Crisóstomo. Diz que Jesus, antes de subir à cruz, despojou-se do velho homem tão facilmente como de suas vestimentas, e acrescenta: "Agora está ungido como os atletas que vão entrar no estádio" (Homilia sobre a Epístola aos Colossenses). Toda escultura grega nos mostra os atletas completamente nus. Onde, pois, reside o maior escândalo: em um corpo nu ou na própria cruz, instrumento de morte e escárnio de corpos nus? A cruz que é sempre um corpo nu crucificado, é sempre escandalosa e brutal. Diante dela, ficamos impactados.

A missão cristã é a de tirar corpos das cruzes para que estes corpos possam manifestar sua identidade profunda de silhuetas de Deus, pulsantes de amor. Bem poucos artistas tiveram coragem de apresentar em suas obras, pessoas nuas. Gregório de Tours informa que na Igreja de Saint Gènes de Narbona, existia um Cristo na Cruz que escandalizou aos fiéis por sua nudez (RÉAU, Louis. Iconografia da Arte Cristã, Volume 5: Iconografia de la Biblia (Nuevo Testamento), Seção IV – A Paixão, Barcelona: Ediciones del Serbal, 1996, p 495).

Entre os gregos, a representação do corpo nu não era ofensiva, enquanto no Oriente a nudez representava vergonha e humilhação. "Cristo de São João da Cruz" (1951) é uma obra-prima de Salvador Dalí, óleo sobre tela (205x116 cm) mostrando Jesus na cruz flutuando num céu escuro sobre Porto Lligat.

Cristo de São João da Cruz (1951). Obra de Salvador Dalí. (Foto: Vatican News)

O escândalo do crucificado e dos crucificados

Jesus, o Filho de Deus é o crucificado exemplar no Gólgota (lugar do crânio ou pedra da Caveira), exposto nu fora dos muros de Jerusalém. Tal lugar do calvário de Jesus se torna o ponto crucial de sua execução capital. Foi a hora do vinagre, da placa com a inscrição do crime, INRI (Jesus de Nazaré, rei dos judeus) e, hora da sofrimento cruel. Esse instrumento degradante era aplicado aos escravos e rebeldes. Matava lentamente e servia de exemplo para que ninguém seguisse o exemplo do condenado.

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Entretanto, será nessa hora que os sinais de vida e compaixão se multiplicam: mulheres permanecem com ele apesar da perseguição; Simão de Cirene ajuda-o no transporte da cruz; dois subversivos estão com ele em cruzes laterais. Jesus morre em solidariedade, para salvar a todos. É morto como prisioneiro político por incomodar os poderes imperiais de Roma e o poder religioso do Sinédrio. Assim canta o hino rezado na Sexta-feira Santa: “Cravam-lhe os cravos tão fundo, seu lado vão traspassar; já corre o sangue fecundo, a água põe-se a brotar: estrelas, mar, terra e mundo a tudo podem lavar! (missal dominical, hino durante a adoração da cruz)”. Esse sacrifício voluntário e livre é a PASSAGEM pascal para uma vida nova. Por essa santa morte, desce copiosa sobre o povo a bênção infinita do Pai, que não abandona seu Filho.

Diante do paradoxo da cruz, proclama-se a vitória do amor. A cruz é real e o amor de Jesus também o é. Se a última palavra não pertence à morte e se a morte não tem mais poder, é porque Cristo passou pela prova deste amor. A cruz, como nos ensina Jon Sobrino, “é tudo, menos uma metáfora. Significa morte e crueldade, ao que a cruz de Jesus acrescenta inocência e indefensibilidade. Para os teólogos cristãos, a cruz remete-nos a Jesus de Nazaré. Ele é o crucificado. Por isso, ao chamar os pobres deste mundo de povos crucificados, nós os tiramos do anonimato e conferimos-lhes a máxima dignidade. O povo crucificado é sempre ‘o’ sinal dos tempos. (Descer da cruz os pobres, Paulinas, 2007)”. É preciso descobrir Deus na cruz, sem esvaziá-la.

A cruz segue escandalosa

Uma história pessoal vivida na Paróquia São Mateus Apóstolo, zona leste paulistana, em 13 de abril de 1990, impressa em minha memória e coração. Fazíamos a tradicional Via-Sacra (Via Crucis), com quatorze estações do caminho de Jesus, até a morte na cruz, caminhando pelas ruas do bairro. Havia uma multidão de cerca de cinco mil participantes, em sua imensa maioria, mulheres do povo. A cada parada, cantávamos e rezávamos, tendo como motivação o caminho de Jesus e naquele ano de 1990 a situação das mulheres como tema da Campanha da Fraternidade. As mulheres rezavam, cantavam e falavam em cada uma das quatorze estações sobre suas cruzes, quedas, sofrimentos e diziam também onde encontravam forças e resiliência para seguir a estrada da vida. Tudo vivo, forte, espiritual e encarnado.

Quando chegamos ao pátio da Igreja, havia o relato da Paixão de Jesus e no alto de um caminhão, para que todos pudessem ver havia uma cruz imensa em madeira e nela amarrada e crucificada uma mulher, Teresa do Carmo, negra, cantora exemplar da Igreja. Estava atada com fios de ferro de passar, com panelas amarradas, enfim, presa como mulher crucificada. O povo, vendo tal cena, emudeceu! Eu, coordenando a leitura e encenação do evangelho, fiz a leitura da parte em que Pilatos diz aos judeus: “Eis o vosso rei”. E o roteiro litúrgico indicava que o povo fizesse o papel dos judeus diante de Cristo, gritando: “Morra! Morra! Crucifica-o!” Havia no ar, revolta, indignação e um silêncio gigante, que demonstrava que ninguém do povo que ali estava tinha coragem de gritar tais malditas palavras, vendo nossa querida Teresa, mulher negra crucificada. Todas as mulheres e homens se colocavam no lugar dela. Não seriam cúmplices da cruz.

E eis que, quebrando o silêncio da multidão, uma mulher franzina e pequenina começou a gritar à plenos pulmões: “Ressuscita! Ressuscita! Tirem a Teresa da cruz. Vamos adiantar a Páscoa. Chega de sofrimento. BASTA! Cristo vive”. Assim que ela terminou seu grito evangélico, subiram ao caminhão uma dezena de mulheres e homens e retiram Teresa do calvário. Eu calei e chorei. O povo sabia mais de Deus e de Páscoa do que eu! Para mim, era uma celebração em que eu seguiria o roteiro quase teatral e simbólico litúrgico.

Para o povo da periferia de São Mateus, zona leste paulistana, aquela Via Sacra era a sua própria vida sofrida e lutadora no desejo de rebeldia e liberdade. Isso é a Páscoa de Cristo vivo. Aleluia. Cruz como rebeldia. Cruz como gesto de amor aos sofredores. Cruz como sinal de contradição.

Cruz como sinal de coerência e nunca como submissão e silenciamento

Jesus não foge de seu projeto em favor do Reino de Deus e fica ao lado dos pobres até a entrega radical. Não morre como bode expiatório, mas oferta a vida como CORDEIRO de Deus. Se faz testemunha do Eterno como mártir da boa-notícia. A cruz se torna paradoxo a questionar e incomodar a todos. Nossa tarefa é tirar das cruzes as pessoas crucificadas. Fora do amor, não há salvação. A cruz de Jesus é um sinal de liberdade e libertação. O que era abominação do Império Romano e da tortura dos persas, se torna salvação.

"Ave crux, spes unica
hoc Passionis tempore!
piis adauge gratiam,
reisque dele crimina".

que se traduz:

"Salve cruz, única esperança
em épocas de Paixão,
conceda aumento de graça.
Remove os pecados dos culpados".

Celebramos o nascimento de dois bispos: em 14 de setembro de 1921, nascia o cardeal Paulo Evaristo Arns, há 105 anos em Forquilhinha, SC. Falecido.

Em 14 de setembro de 1955, nascia o Santo Papa Leão XIV (Robert Francis Prevost Martinez) em Chicago, USA. Ambos marcados pelo sinal-da-cruz.

Sejamos como o cardeal Arns que sempre nos animava com: Esperança sempre.

Sejamos como Leão XIV clamando por paz e unidade.

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