Do altar para a vida: desafios e caminhos para uma catequese matrimonial

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14 Setembro 2026

"O casamento cristão, portanto, não deve ser compreendido como um espetáculo diante dos homens, mas como uma aliança vivida diante de Deus. Não se trata apenas de querer 'casar na Igreja', mas de desejar construir uma vida na Igreja e com Cristo."

O artigo é de Alvim Aranfilósofo e irmão formado pelo Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina/MG.

Eis o artigo.

Vemos em nossas Igrejas uma realidade cada vez mais presente: o crescimento de celebrações matrimoniais que, em alguns casos, parecem assumir mais o caráter de um espetáculo do que propriamente de uma celebração do sacramento do matrimônio. Muitos casais sonham em se casar na Igreja, e isso, em si mesmo, é algo muito bonito e significativo. Entretanto, é necessário perguntar: onde termina o sonho da celebração e onde começa a realidade da vida matrimonial?

Para a fé católica, o matrimônio não pode ser reduzido a uma cerimônia ou a um evento social. Ele constitui uma vocação e uma aliança de vida e amor. Entre os batizados, Cristo elevou o matrimônio à dignidade de sacramento. Por isso, casar-se na Igreja significa assumir diante de Deus e da comunidade cristã um compromisso que ultrapassa o dia da celebração e se prolonga por toda a vida.

A própria Sagrada Escritura apresenta o matrimônio como uma realidade de profunda comunhão: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Mt 19,5). E Jesus acrescenta: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe” (Mt 19,6). Essas palavras demonstram a seriedade da aliança matrimonial e mostram que o casamento cristão não pode ser compreendido apenas como a realização de um sonho pessoal.

Ser católico também implica uma experiência concreta de fé, marcada pela pertença à comunidade e pela participação na vida da Igreja. Nesse sentido, é necessário observar pastoralmente uma situação que pode ser encontrada em algumas comunidades: há casais que desejam intensamente realizar a cerimônia matrimonial na Igreja, mas que possuem pouca ou nenhuma participação na vida comunitária. Assim, corre-se o risco de que o sacramento seja compreendido mais como parte de uma tradição familiar ou como elemento de uma grande celebração do que como expressão de uma fé verdadeiramente assumida.

Muitas vezes, o casal pensa em todos os detalhes: a roupa, o local da festa, a ornamentação da Igreja, o horário, a fotografia, a música e tantos outros elementos. Tudo isso pode fazer parte legitimamente da celebração e da alegria do casamento. O problema surge quando a preparação para a cerimônia ocupa o lugar da preparação para a própria vida matrimonial. A festa possui seu valor, mas ela não pode ocupar o lugar do sacramento. A celebração exterior não pode fazer desaparecer aquilo que, de fato, está sendo celebrado.

É justamente aqui que se encontra uma importante tarefa da catequese matrimonial: ajudar os noivos a compreenderem que o casamento não termina na celebração; pelo contrário, é na celebração que se inicia uma nova etapa da vida do casal. O altar não deve ser compreendido como o ponto final de um projeto, mas como o lugar a partir do qual os esposos são enviados a viver sua vocação matrimonial no cotidiano.

São Paulo apresenta uma compreensão profunda do amor conjugal ao relacioná-lo com o próprio amor de Cristo pela Igreja: “Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). O matrimônio cristão, portanto, não se fundamenta apenas em sentimentos, atração ou realização pessoal. Ele é chamado a ser uma expressão concreta de amor, entrega, fidelidade, serviço e doação.

Isso não significa, entretanto, afirmar que um casal sacramental jamais enfrentará conflitos. O sacramento não elimina automaticamente as fragilidades humanas. O casal continua sendo formado por pessoas que possuem limites, diferenças, expectativas e dificuldades. Por isso, a vida matrimonial exige diálogo, perdão, paciência, maturidade afetiva e disposição para construir diariamente a comunhão.

Nesse sentido, situações de ciúmes excessivos, constantes discussões, tentativas de controle e relações marcadas pela dominação de um sobre o outro precisam ser levadas a sério. A relação conjugal cristã não pode ser construída sobre a lógica do poder de um sobre o outro, mas sobre a lógica do amor e do serviço. O próprio Cristo ensina: “Quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso servo” (Mt 20,27).

Por isso, a preparação para o matrimônio não deveria limitar-se aos procedimentos necessários para a realização da cerimônia. É necessário proporcionar aos noivos um verdadeiro caminho de discernimento, formação e amadurecimento. É preciso ajudá-los a conhecer melhor um ao outro, refletir sobre suas expectativas, compreender as exigências da vida conjugal, reconhecer suas próprias fragilidades e, sobretudo, discernir diante de Deus a vocação para a qual estão se encaminhando (HORTAL, 2006).

Também é necessário olhar com atenção para os casais jovens que desejam se casar rapidamente, muitas vezes sem terem desenvolvido suficientemente o conhecimento mútuo e a maturidade necessária para enfrentar as responsabilidades da vida matrimonial. A questão não está simplesmente na idade dos noivos, pois a maturidade não pode ser determinada apenas por um número. O verdadeiro desafio está em verificar se existe liberdade, responsabilidade, conhecimento mútuo, maturidade afetiva e consciência daquilo que está sendo assumido.

O namoro possui, nesse sentido, uma importância significativa. É um tempo de conhecimento, discernimento e amadurecimento da relação. Não se trata apenas de um período anterior ao casamento, mas de uma etapa na qual o casal pode descobrir se existe verdadeira disposição para construir uma vida em comum. A pressa em transformar um relacionamento em casamento pode fazer com que os noivos assumam compromissos para os quais ainda não estão suficientemente preparados (HORTAL, 2004).

Além disso, o casamento cristão não pode ser separado da experiência de fé. Jesus não deve aparecer apenas no momento da celebração, mas precisa estar presente no cotidiano do casal. É necessário que os esposos aprendam a rezar juntos, a perdoar, a servir, a participar da comunidade e a colocar sua vida sob a luz do Evangelho.

A família cristã é chamada, inclusive, a ser uma pequena Igreja doméstica, lugar onde a fé é vivida e transmitida. Por isso, o matrimônio possui uma dimensão que ultrapassa os próprios esposos. A família torna-se também espaço de testemunho cristão e de transmissão da fé (JOÃO PAULO II, 1981).

Entretanto, quando o casal compreende o casamento apenas como a realização de um sonho, existe o risco de imaginar que tudo estará resolvido depois da cerimônia. O sonho da festa passa, as fotografias permanecem, os convidados retornam para suas casas e, então, começa a realidade cotidiana: as contas, o trabalho, as diferenças de personalidade, as responsabilidades, os conflitos, os filhos, as dificuldades e também as alegrias.

É nesse momento que se revela a verdadeira profundidade da decisão tomada diante de Deus. O matrimônio não é sustentado apenas pela emoção do dia da celebração, mas por uma decisão cotidiana de amar, perdoar, servir e permanecer fiel.

Por isso, as palavras de Jesus: “o que Deus uniu, o homem não separe” (Mt 19,6), não devem ser compreendidas simplesmente como uma proibição, mas como a expressão da seriedade da aliança matrimonial. O casal que se apresenta diante do altar precisa compreender que está assumindo uma vocação marcada pela fidelidade e pela entrega.

Nesse sentido, a Igreja possui uma responsabilidade pastoral que não termina no dia do casamento. Se existe preparação para a celebração, também deve existir acompanhamento depois dela. Os recém-casados precisam encontrar na comunidade cristã um espaço de acolhimento, formação, oração, diálogo e acompanhamento. A catequese matrimonial não pode preparar apenas para o “dia do casamento”; precisa preparar para uma vida inteira de matrimônio.

Assim, o grande desafio pastoral talvez não seja impedir que os casais sonhem com o casamento. Sonhar é algo próprio do amor. O desafio é ajudá-los a compreender que o sonho precisa encontrar sua realização na realidade concreta da vida. O vestido, a festa, a música, as flores e as fotografias passarão. O que permanecerá será a aliança assumida diante de Deus.

O casamento cristão, portanto, não deve ser compreendido como um espetáculo diante dos homens, mas como uma aliança vivida diante de Deus. Não se trata apenas de querer “casar na Igreja”, mas de desejar construir uma vida na Igreja e com Cristo.

Como afirma São Paulo: “Acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14). É esse amor, vivido concretamente no cotidiano, que permite ao casal transformar o sonho da celebração em uma verdadeira vocação matrimonial.

A pergunta pastoral que permanece, portanto, é esta: como ajudar nossos casais para que o desejo de celebrar o casamento na Igreja não termine no dia da cerimônia, mas se transforme em uma verdadeira experiência de discipulado, comunhão, fidelidade e vida matrimonial cristã?

Talvez seja justamente aí que comece a verdadeira catequese do matrimônio: não quando o casal chega à Igreja para marcar a data do casamento, mas quando a comunidade consegue ajudá-lo a compreender que o sacramento celebrado no altar precisa continuar sendo vivido todos os dias dentro de casa.

Referências

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002

HORTAL, Jesús. O que Deus uniu: lições de direito matrimonial canônico. São Paulo: Loyola, 2006.

HORTAL, Jesús. Casamentos que nunca deveriam ter existido: uma solução pastoral. São Paulo: Loyola, 2004.

JOÃO PAULO II. Familiaris consortio: exortação apostólica sobre a função da família cristã no mundo de hoje. Vaticano, 22 nov. 1981. Disponível aqui. Acesso em: 11 set. 2026.

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