15 Setembro 2026
"Embora o estilo, e o gosto incipiente do retrato reflitam a arte grega contemporânea, a igual dignidade conferida ao casal é totalmente etrusca. Não há mestre, não há chefe, não há senhor; apenas duas pessoas, dois corpos de igual dignidade", escreve Tomaso Montanari, historiador de arte italiano, em artigo publicado por il Venerdi, 11-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
“Três vezes felizes, e mais ainda, são aqueles que um vínculo inquebrável une e a quem o amor, livre de disputas odiosas, não separará antes do dia derradeiro.” A antiga arte funerária transcende o desejo de Horácio: aquele vínculo não deveria ser rompido, nem mesmo na vida após a morte.
Tampa de um sarcófago etrusco em mármore mostra o casal Larth Tetnies e Thanchvil Tarnai. (Foto: Pinterest)
Essa magnífica tampa de sarcófago encontra-se hoje em Boston, mas é originária de Vulci, onde foi descoberta em meados da década de 1840, na propriedade de Alexandrine de Bleschamp, viúva de Lucien Bonaparte. Fica-se imaginando o que Alexandrine pensou ao vê-la pela primeira vez; talvez tenha corado diante da espetacular e invejável naturalidade com que, mais de 2.100 anos antes, Thanchvil Tarnai e seu marido, Larth Tetnies, haviam escolhido ser sepultados: felizes abraçados, nus, sob um lençol. Ela adornada apenas por um par de maravilhosos brincos, ele com uma pulseira: unidos para a eternidade em um leito de travertino decorado com cenas de guerra entre gregos e amazonas, e de lutas entre feras reais e míticas. Fazendo amor para sempre, olhando nos olhos um do outro, deitados sobre o caos do mundo, indiferentes até mesmo à morte. Embora o estilo, e o gosto incipiente do retrato reflitam a arte grega contemporânea, a igual dignidade conferida ao casal é totalmente etrusca. Não há mestre, não há chefe, não há senhor; apenas duas pessoas, dois corpos de igual dignidade.
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Apesar das tantas variações criativas, essa tipologia funerária perduraria por toda a era etrusca (lembrando, por exemplo, o famoso sarcófago da Villa Giulia, que retrata o casal no banquete e antecede este em dois séculos). Será que os descobridores sentiram algum pudor ao violar a intimidade milenar daquele nicho-alcova, um lugar onde, na verdade, ninguém jamais deveria ter posto pé. De fato, há algo profundamente errado em nossa mania de quebrar, separar, vender e deslocar coisas: o que esse sarcófago está fazendo em Boston? E, no entanto, já que ele está lá agora, por que não olhá-lo adequadamente, não apenas como se olha uma curiosidade?
Sarcófago da Villa Giulia. (Foto: Tutorialwiki/Wikimedia Commons)
Em uma época como a nossa, que parece empenhada em buscar no passado as piores inspirações, por que não aprender também algo de bom? Por que não corrigir a retórica fluvial e destrutiva, que vê a família como fábrica de mão de obra para a época da velhice ou para a guerra, e, em vez disso, abraçar a felicidade consciente, liberta e plena de um casal de pares, reconciliada com seus próprios desejos e corpos, e capaz de viver juntos, plenamente, a vida? Quantas coisas têm a ensinar o casal de Vulci, Thanchvil e Larth, aos estadunidenses e a nós também, com seus nomes tão felizmente pouco clássicos-judaicos-cristãos.
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