Leão XIV e as relações EUA-Vaticano: preparando-se para a era pós-Trump. Artigo de Massimo Faggioli

Encontro de 13 de setembro de 2025 entre o Papa Leão XIV com Brian Francis Burch, embaixador dos Estados Unidos junto à Santa Sé. (Foto: Vatican News)

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05 Setembro 2026

O Papa Leão XIV melhorou as relações entre os EUA e o Vaticano, e a direita católica americana que se opunha a Francisco se mostrou mais receptiva a ele, mas ele se recusa a ser visto como uma voz anti-Trump.

O artigo é de Massimo Faggioli, publicado por Global Catholic, 02-09-2026.

Massimo Faggioli é professor no Instituto Loyola do Trinity College, em Dublin. Seu livro mais recente é Teologia e ensino superior católico: além da nossa crise de identidade (Orbis Books).

Eis o artigo.

A revista mensal americana Vanity Fair acaba de divulgar uma lista dos mais bem-vestidos, e entre as estrelas de Hollywood e os casais poderosos está também o Papa Leão XIV.

Em dezembro de 2025 – apenas alguns meses após sua eleição – Leão já figurava ao lado de A$AP Rocky e Bad Bunny na lista dos mais bem-vestidos da Vogue, enquanto o New York Times o nomeou como uma das 67 “Pessoas Mais Estilosas de 2025”.

O que diria Santo Agostinho?

O que podemos afirmar é que, em apenas alguns meses, e apesar do governo Trump, o pontificado do Papa Leão XIV melhorou a relação entre os Estados Unidos e o Vaticano.

O presidente Trump, sua administração e o movimento MAGA estão se movendo de forma descoordenada em comparação com as forças gravitacionais que agora realinham essa relação transatlântica, crucial para o Vaticano, o catolicismo global e a Igreja nos EUA.

Durante doze longos anos, setores influentes do catolicismo americano formaram os centros políticos, financeiros e midiáticos da oposição ao Papa Francisco: um movimento que começou bem no início de seu pontificado, na primavera e no verão de 2013, e durou até sua morte.

Hoje, esses mesmos setores que estavam na segunda ou terceira linha da frente anti-Francisco (e não na primeira linha, como Steve Bannon, Peter Thiel e outros) adotaram uma abordagem mais conciliatória e pragmática.

O Vaticano está atento. Em um artigo publicado em 17 de agosto, o teólogo e jornalista holandês Hendro Mustermann investigou "como o Papa Leão XIV jantou em segredo com doadores americanos ricos" após uma oração pela paz em 29 de julho nos jardins papais de Castel Gandolfo.

Essa reaproximação aconteceu por diferentes razões: o Papa Leão XIV é americano, e os americanos de direita sabem que uma oposição frontal a ele seria contraproducente. Muitos americanos estão genuinamente orgulhosos e entusiasmados com o primeiro papa oriundo dos EUA.

Aqueles com espírito empreendedor (nos negócios, esportes, academia e indústria cultural) também estão entusiasmados com as oportunidades que este pontificado oferece.

Há ainda outro fator: o ensino de Leão adotou um tom mais pragmático e realista.

Um exemplo da reformulação das relações EUA-Vaticano é a primeira encíclica. Leão XIV convidou, para a apresentação da encíclica, Christopher Olah, um multimilionário de 36 anos (anteriormente uma criação de Peter Thiel), um dos cofundadores da empresa Anthropic, sediada em São Francisco, que agora mantém uma relação tensa com o governo Trump.

Mas Magnifica Humanitas é uma abordagem politicamente realista das questões sociais subjacentes à atual revolução tecnológica.

No século V, Agostinho, mais pragmático do que o homem que o converteu ao catolicismo — o bispo de Milão, Santo Ambrósio, que era a favor de uma redistribuição radical da riqueza — enfrentou o desafio de manter ricos e pobres unidos dentro da Igreja no Norte da África.

Leão XIV nos ajuda a vislumbrar uma outra América, diferente da aliança formada em torno de Trump entre o "nacionalismo cristão" e os empreendedores tecno-autoritários do Vale do Silício.

Leão reúne os principais especialistas em inteligência artificial, mantendo ao mesmo tempo a liderança do papado na identidade ativista católica global em questões de justiça social e pobreza.

A liderança de Leão XIV não precisa, pelo menos por enquanto, lidar com a hostilidade implacável de vozes católicas de direita, neoconservadoras e iliberais nos EUA, como aconteceu com o Papa Francisco. Isso não significa que ele esteja menos isolado do que seu antecessor.

O ensinamento papal hoje, quando se refere ao meio ambiente ou à inteligência artificial, é uma voz solitária, embora aclamada globalmente: não pode contar com partidos católicos ou democrata-cristãos como os antecessores de Leão XIV podiam, pelo menos até o final do século XX, nem há uma contraparte ou interlocutor na cultura social-progressista, que atualmente se encontra em seu ponto mais baixo no Ocidente.

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No que diz respeito à doutrina social católica, o papado não pode contar com uma geração de líderes políticos católicos. Hoje, os “católicos culturais” com objetivos políticos estão cada vez mais cativados por plataformas neonacionalistas.

Nesse sentido, o pontificado de Leão XIV é mais semelhante ao de Leão XIII (com os católicos encarando o caminho da modernidade política do absolutismo à democracia como o de forasteiros) do que aos períodos entre 1945 e o final do século XX ( a era de ouro dos partidos políticos democrata-cristãos na Europa).

Em comparação com a tumultuada primavera de 2026, o verão foi um período de relativa calma nas relações entre o Vaticano e os EUA, tanto eclesiástica quanto politicamente. A resposta de 13 de julho do Dicastério para a Comunicação do Vaticano às declarações do embaixador dos EUA junto à Santa Sé sobre a autoridade papal como soberano do Estado da Cidade do Vaticano foi uma exceção.

Como o Papa Leão XIV não está preso ao movimento anti-Trump

Julho e agosto contam a história de uma sólida relação entre o pontificado do Papa Leão XIV e os EUA: a visita de 4 de julho ao embaixador dos EUA junto à Santa; a nomeação, em 25 de julho, de dois bispos americanos, Cordileone e Lohse, para o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica; a entrevista de 29 de julho à rede de televisão americana NBC em Castel Gandolfo; o encontro, em 12 de agosto, com uma delegação bipartidária da Câmara dos Representantes dos EUA, que se reuniu com altos funcionários do Vaticano para discutir inteligência artificial durante uma visita que incluiu brevemente o Papa Leão XIV; e a nomeação, em 25 de agosto, de Patrick E. Kelly, Cavaleiro Supremo dos Cavaleiros de Colombo, para o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

Além disso, Leão XIV fala com mais frequência em inglês, mesmo quando a mensagem pode ser difícil de transmitir em seu país natal: por exemplo, no domingo, 30 de agosto, após o Angelus, ele falou sobre a celebração do “Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação”, em 1º de setembro.

O Vaticano conversa com todos. O Vaticano e o Papa também sabem hoje que as eleições de meio de mandato serão realizadas em novembro, o que pode ser muito consequente para o que resta do segundo mandato de Trump, até janeiro de 2029.

Este pontificado não hesitou em abordar – ainda que indiretamente – a apropriação política da religião em nome do etnonacionalismo nos Estados Unidos, especialmente no que diz respeito ao impacto disso na política externa americana e nas relações internacionais.

Mas Leão XIV decidiu não ficar preso ao papel de porta-voz do movimento anti-Trump. Isso seria uma forma de cativeiro que limitaria o papel da Santa Sé. É uma maneira de se preparar para a era pós-Trump. Isso também implica em dialogar e interagir com os católicos americanos que ainda não são, ou não necessariamente são, anti-Trump.

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