Quando a violência procura um nome virtuoso. Artigo de Paulo Baía

Estudante de História teria comparecido a uma aula com estampa associada ao nazismo e colegas tentaram retirá-lo do prédio — Foto: Reprodução/X

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05 Setembro 2026

Espancamento na UFRJ reacende debate sobre violência política, justiça pelas próprias mãos e os limites democráticos diante de acusações graves.

O artigo é de Paulo Baía, sociólogo, cientista político e professor da UFRJ, publicado por Agenda do Poder, 02-09-2026.

Eis o artigo.

Dentro de um prédio da UFRJ, em agosto de 2026, um estudante veterano foi cercado e espancado num episódio envolvendo outros estudantes. Houve espancamento. Nada justifica cercar alguém e submetê-lo a socos e chutes. Chamar isso apenas de "agressão" suaviza o ocorrido. Um espancamento coletivo contra alguém cercado tem dinâmica de linchamento. É uma cena perversa também pela tentativa de justificá-la moralmente.

As imagens me devolveram a Viagem ao Fim da Noite, de Louis-Ferdinand Céline. No romance de 1932, Ferdinand Bardamu atravessa guerra e miséria e encontra, sob palavras solenes, a crueldade e seus discursos de justificação. Céline retira os ornamentos e deixa o corpo diante de nós. Na UFRJ, depois do corpo espancado, surgem palavras para explicar o espancamento.

Depois vêm as acusações. O estudante foi acusado de manifestações associadas ao nazismo e de racismo. São acusações gravíssimas a apurar; crimes comprovados devem ser submetidos à lei. Nada autoriza uma coletividade a constituir tribunal instantâneo e aplicar punição corporal. Não precisamos provar a inocência do espancado para condenar o espancamento.

Por isso me preocupa a descrição como "autodefesa". Autodefesa precisa ser demonstrada. Diante de imagens de uma pessoa cercada sob sucessivos golpes, essa expressão exige cuidado. Senão, a linguagem veste a violência: o punho apresenta-se como escudo e a punição como resistência. Vídeos fragmentários não reconstroem todo o episódio, mas mostram um estudante sendo espancado dentro de uma universidade.

A biografia de Céline amplia a advertência. O escritor que revelou a desumanização escreveu panfletos antissemitas abjetos. O homem que enxergou a noite entrou nela. Reconhecer a violência alheia não nos imuniza contra a nossa.

Violência não muda de natureza conforme a identidade política de quem a pratica. Isso não torna direita e esquerda historicamente equivalentes. A extrema direita tem relações documentadas com a glorificação da força e o autoritarismo. Movimentos emancipatórios, organizações partidárias, socialistas e setores das esquerdas também precisam vigiar seus métodos. Não os classifico como fascistas: grupos adversários podem reproduzir procedimentos semelhantes ao admitir violência contra quem transformaram em inimigo.

O século XX impede certezas de imunidade. Autoritarismos de direita produziram perseguições, torturas e mortes; experiências revolucionárias ou socialistas também conheceram repressão. As diferenças importam. Nenhuma ideologia torna justa a violência em seu nome.

É aí que Céline permanece próximo daquele corredor da UFRJ. A universidade deve investigar e submeter certezas ao contraditório. Liberalismo, conservadorismo, socialismo, comunismo e movimentos emancipatórios são matéria de estudo e crítica. Nazismo, fascismo, racismo e autoritarismos devem ser conhecidos e enfrentados; havendo crime, cabe à lei. Uma fronteira é anterior: ninguém deve ser espancado.

Ao redor há assassinatos, execuções sumárias, mulheres mortas e espancadas, intolerância religiosa e reputações destruídas. São fenômenos distintos. Inquieta-me quando a pessoa se torna apenas inimiga ou culpada.

Retorna a expressão tenebrosa do fascismo espanhol: "¡Viva la muerte!", "Viva a Morte". Seu contexto é específico. Interessa-me sua sombra: quando a destruição do outro produz satisfação e precisamos saber quem apanhou antes de condenar quem bateu.

UFRJ e Céline deixam uma pergunta: quem precisa ser o espancado para que um espancamento seja inaceitável? Se a resposta depender da ideologia ou das acusações contra quem está no chão, algo essencial se perdeu.

A democracia pôs investigação, prova e defesa entre nossa certeza e o corpo do acusado. Precisamos reaprender a dizer não aos nossos. A convicção democrática começa quando recusamos a violência praticada em nome de nossas causas.

Entre o punho e a palavra, entre o linchamento e a lei, escolho a democracia. 

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