Vozes de Emaús: Uma Comunidade de destino. Artigo de Leonardo Boff

Arte: Lauren Palma | IHU

02 Setembro 2026

"Foi o contato e a aprendizado com aqueles dois amigos-irmãos que me ofereceram as chaves de raiz do mais puro marxismo, como método, para entender a nossa realidade, na qual não haviam apenas entes como revelações do Ser, mas entender os conflitos sociais, um mundo contraditório, construído como sistema que explorava e reduzia à pobreza a maioria da humanidade e junto com ela toda a natureza".

O artigo é de Leonardo Boff autor de O doloroso parto da Mãe Terra (Vozes, 2021), Cuidar da casa comum (Vozes, 2023) e Habitar a terra (Vozes, 2021), entre outros.

Leonardo Boff (Foto: acervo pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.

E num piscar de olhos chegamos aos 100!

Com muita alegria, nos demos conta que estamos publicando hoje o texto de número 100 de nossa coluna Vozes de Emaús. Quantos passos foram dados! Quantas ideias partilhadas! Foram dezenas de reflexões teológicas, análises de conjuntura nacional e mundial e estudos específicos de diversos temas, como uma rede de colaboração e cuidado com as demandas que o nosso tempo apresenta.

Muita gratidão em todo esse caminho:

E, sobretudo, nosso agradecimento especial a cada leitor e leitora, que reverbera e multiplica nossas ideias, reage, critica e forma conosco uma “comunidade de destino”, como nos diz Leonardo Boff, neste centésimo texto da coluna. Aliás, para essa marca significativa, não poderia ser diferente do que ouvir desse querido teólogo-irmão os seus sentimentos em participar do grupo Emaús. Está com ele, a palavra…

Eis o artigo.

Humberto Maturana e Francisco Varela, dois notáveis biólogos chilenos, têm deixado claro que a fala pertence à essência do humano. Um símio superior como um orangotango nunca chegará a falar porque não possui nem sequer configuração biológica para isso. Ademais, Maturana tem sustentado a tese de que foi o amor a constituir a sociabilidade humana e não o inverso. Famoso é o seu estudo sobre a base biológica do amor e também da democracia.

Digo isso porque no grupo EMAÚS tivemos a experiência da fala e da relação amigável e amorosa entre todos os participantes. Começamos nos anos de 1970, ainda no século passado, somente com homens católicos. Abrimo-nos ao ecumenismo. E, por fim, às mulheres. Com isso, ganhamos múltiplos olhares. De minha parte, diria, que deveríamos abrir mais ainda: a representantes dos filhos da pobreza, homens ou mulheres. Geralmente eles não dizem palavras, mas coisas, vividas, sofridas e esperançadoras.

Ilya Prigogine, um dos gênios da ciência moderna, portador do prêmio Nobel em termodinâmica, escreveu A nova aliança, traduzido pela Universidade de Brasília. Um livro precioso porque diz: o que é a realidade nós não sabemos. Sabemos apenas as diferentes perspectivas dos muitos saberes humanos. Ele postula que todos os saberes tidos como científicos e os dos xamanes, dos indígenas, dos trabalhadores do campo, das mulheres, das benzedeiras deveriam estabelecer uma aliança entre todos eles e valorizar cada um: só assim teríamos uma compreensão, uma achega, mais fecunda da realidade. Porém, ela mesma transcende a todos, o que faz todos relativos e sempre abertos.

O que vivi nas dezenas de anos de participação do grupo EMAÚS foi a troca de nossos saberes. Ao ouvir um e outro dei-me conta de que eu era de outra geração. As referências deles eram diversas da minha formação. Sentia-me até superado.

Preciso confessar uma conversão que vivi graças ao frei Betto e ao Ivo Lesbaupin. Nos começos dos anos 70, eu vinha imbuído da cultura filosófica e teológica alemã. Minha estrutura teórica se derivava da ontologia da Martin Heidegger e com ela pensava a própria teologia. Ao pregar um retiro aos missionários que trabalhavam no interior da floresta amazônica, me dei conta de que ela não servia para aquela realidade. Mas foi o contato e a aprendizado com aqueles dois amigos-irmãos que me ofereceram as chaves de raiz do mais puro marxismo, como método, para entender a nossa realidade, na qual não haviam apenas entes como revelações do Ser, mas entender os conflitos sociais, um mundo contraditório, construído como sistema que explorava e reduzia à pobreza a maioria da humanidade e junto com ela toda a natureza.

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Essa visão, logo entendi, era a mais adequada para entender o Jesus histórico e libertador. Graças a eles, toda minha produção posterior mudou e estou ainda aprendendo. Essa gratidão perene devo-a ao frei Betto e ao Ivo Lesbaupin.

Agora, passados esses anos, temos a coluna de Vozes de EMAÚS no IHU. Os seus textos ajudam a todos a compreenderem melhor o nosso Brasil e o mundo e a função crítica e libertadora da fé e da esperança cristãs. É para mim o único olhar que se compagina com o Concílio Vaticano II, com os papas João XXIII e Francisco e agora, ainda “sub umbra” com o atual Papa Leão XIV. Isto apenas para citar o universo católico. É o horizonte que pode restituir à mensagem evangélica como algo bom para toda a humanidade, não um pesadelo ou um lago de águas mortas, mas uma fonte de água cristalina sempre a jorrar.

Esse é o meu juízo de alguém já ancião no entardecer da vida. Triste segundo o mundo, como diria São Paulo, porque ele é dramático e trágico, mas não triste segundo Deus. Porque todos os tempos são tempos de Deus e nós desafiados a moldá-los no seguimento de Jesus, o Nazareno, nosso Irmão Maior e Senhor.

Vozes de EMAÚS está oferecendo sua contribuição. Operando este sonho formamos, verdadeiramente, não apenas um grupo, mas uma Comunidade de Destino.

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