Francisco de Assis que pregava para as cotovias: como o amigo dos animais se tornou o "santo padroeiro dos ecologistas". Artigo de Jérôme Gautheret

São Francisco com os Animais. Obra de Lambert de Hondt (I) e Willem van Herp (I). (Foto: Wikimedia Commons)

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29 Agosto 2026

 "Ao exaltar todos os animais da criação, Francisco busca, acima de tudo, prestar graças ao Criador, presente em todas as coisas e ele demonstra um cuidado especial pelas espécies mencionadas na Bíblia. Quando se desloca montado em um burro, já no fim da vida, o faz tanto para evitar o cavalo, que lhe lembra sua vaidosa juventude, quanto para rememorar a entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, poucos dias antes da Crucificação", escreve Jérôme Gautheret, jornalista francês, em artigo publicado por Le Monde, 21-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A atitude do cristão que ama os animais foi logo esquecida por uma Igreja decididamente antropocêntrica. Só recuperaria sentido muito tempo depois de sua morte, já perto do fim do milênio, com o surgimento das preocupações ambientais.

É um dia de verão e, como em todo verão, faz calor em Assis. Podemos imaginar a cidade sufocada pelo calor do sol, com seus habitantes movendo-se lentamente, embalados pela alegria suave da época das colheitas e das festas religiosas. Mas, naquele 1226, os dias não transcorrem como de costume, estão carregados de uma insólita solenidade, pois Francisco, natural da cidade e cuja fama de santidade se espalhara instantaneamente por toda a cristandade, está morrendo.

Das janelas do modesto palácio episcopal onde estava hospedado, ouvem-se há dias os ecos de um canto lancinante, repetido incessantemente por dois frades: "Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o Senhor Irmão Sol, o qual é dia, e por ele nos iluminas...." Não é uma melodia triste; pelo contrário, dela emana uma certa alegria, a tal ponto que o Frei Elias de Cortona, que há anos desempenha a função da direção efetiva da Ordem Franciscana, terá até que ir pedir que os cantos cessem, temendo que tamanha alegria possa ser mal interpretada pelos transeuntes. A lauda, oração de ação de graças, cantada para Francisco em seu leito de dor, chegou até nós com o nome de Cântico das Criaturas - ou também Cântico do Irmão Sol. Embora composta no dialeto da Úmbria, a língua empregada por Francisco, é considerada o primeiro grande texto da literatura italiana; oito séculos depois, ainda é estudada em todas as escolas de ensino fundamental da Itália.

Francisco começara sua composição na primavera de 1225, após ter sido transferido para uma pequena cela, perto de sua amada igreja de São Damião, ao pé das muralhas da cidade. Já não suportando mais a luz do dia, esse “idoso” de quarenta anos passou dois meses naquele abrigo, em oração, constantemente perturbado pelos ratos que corriam de um lado para o outro, deixando-lhe bem pouco descanso. Até o seu último suspiro, ele continuará a compor esse longo poema nascido da dor, da escuridão e do silêncio, ditando seus últimos versos, "Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar...", ao Irmão Pacífico, um de seus companheiros mais queridos, até o início de sua agonia final.

Parte de um todo

Poucos textos foram objeto de tantos comentários quanto esse cântico de amor, que transmite uma visão da Criação ao mesmo tempo lírica e espiritual. Nele, Francisco revela uma concepção original do cosmos, na qual o homem não é mais o centro do universo, mas sim parte de um todo, uma ideia profundamente nova no cristianismo medieval.

Francisco certamente tinha uma relação original com a natureza. No entanto, embora muitos dos seus questionamentos nos pareçam muito atuais, não deveríamos subestimar a distância que nos separa de um homem da Idade Média, e que sempre nos impedirá de nos aproximar realmente da experiência de Francisco. "Como poderia uma mulher ou um homem daquela época conceber a nossa maneira de viver o mundo, as surpreendentes categorias que usamos para delimitar e agrupar as diferentes formas de vida? O nosso mundo, onde a natureza se tornou algo tão externo a ponto de marcarmos passeios nela no fim de semana?", pergunta o antropólogo Pierre-Olivier Dittmar em L’Invention de l’animal: Essai d’anthropologie médiévale (Gallimard).

Embora possa ser difícil nos colocarmos no lugar dele, é perfeitamente possível acompanhar os seus passos. Pois os seus principais locais de retiro são bem conhecidos e, por toda a Itália central, a memória de sua presença é preservada, cultivada e amplificada.

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Francisco di Bernardone cresceu em Assis, uma pequena cidade com vista para uma planície na época conhecida como Vale de Spoleto, situada nas encostas mais baixas do Monte Subásio. As montanhas ao redor abrigam inúmeras grutas e ali, assim como em outras partes da Itália, a crença popular medieval acreditava que aquelas fendas haviam sido criadas por terremotos provocados pela morte de Cristo.

De forma que eram lugares ideais para a oração - de fato, não é raro que eremitas se estabeleçam nelas. São justamente essas grutas que abrigarão os primeiros retiros de Francisco, durante os quais renunciará aos orgulhos da juventude para abraçar uma vida religiosa extremamente exigente.

O Eremitério de Carceri, situado a menos de uma hora de caminhada de Assis, é o exemplo mais evidente. É ali, em 1205, no período de sua "revolução" espiritual, que o jovem Francisco passou longas horas em oração, num pequeno oratório.

Embora o local tenha perdido parte de sua beleza agreste devido às construções erguidas após a morte do santo, conserva uma inegável força evocativa. Outros locais, como o Eremitério de Celle, perto de Cortona; a Isola Maggiore, no Lago Trasimeno; e o Eremitério de La Verna, no coração da Toscana, são ainda mais isolados. É nesse último refúgio, segundo a tradição, que Francisco teria recebido os estigmas em setembro de 1224: duas chagas nas mãos, duas nos pés e uma no lado, como Cristo.

Por cerca de vinte anos, Francisco alternou entre períodos de pregação itinerante, nas cidades e nos arredores, e longas estadias nesses lugares agrestes e austeros, dedicados à oração e às mortificações. Também nesse caso, é preciso evitar a tentação de romantizar o passado: para o Poverello, aqueles retiros foram momentos de exaltação espiritual, mas também de sofrimento e de insegurança.

A singularidade do ser vivo

O que mais chama a atenção ao ler os diversos relatos póstumos sobre a vida de Francisco é o lugar que o reino animal ocupa neles. Do falcão que vinha despertá-lo todas as manhãs em La Verna às abelhas cujas colmeias ele aquecia no inverno, passando pelas cotovias, que ele amava acima de tudo por seu canto alegre. No entanto, essa familiaridade com os animais "não provinha nem de um apego sentimental, nem de um fervor panteísta que o teria levado a fundir-se com a natureza. É preciso renunciar, de uma vez por todas, as imagens açucaradas”, observa seu biógrafo André Vauchez em François d’Assise (Fayard, 2009). 

“Havia animais que ele amava muito e outros que amava menos, como os ratos e as moscas que lhe causavam tanto sofrimento quando estava doente e acamado." Isso não impede que, ao acompanhar Francisco passo a passo, o vejamos pegar as minhocas da estrada para colocá-las num local seguro, a fim de evitar que alguém passando as esmague. Em um mercado, troca uma capa por dois cordeiros, apenas para devolvê-los ao dono depois de fazê-lo prometer que suas vidas seriam poupadas.

Ele devolve à água os peixes que lhe são oferecidos. Sempre presentes, a qualquer hora do dia ou da noite, são sobretudo os pássaros, nos quais via a imagem perfeita dos religiosos contemplativos.

Uma cena reproduzida inúmeras vezes, das paredes de igrejas aos cartões-postais, ficou gravada nas nossas mentes a ponto de se tornar a imagem simbólica mais forte do "Poverello": a cena alegre que o mostra pregando para as cotovias no céu de Alviano, uma pequena cidade da Úmbria. No entanto, existe uma versão mais sombria da mesma história, nos escritos de um cronista inglês chamado Roger de Wendover.

Segundo ele, em Roma, após ser dispensado pelo Papa e zombado pelos habitantes da cidade, o santo teria evangelizado para corvos e gralhas, que miraculosamente teriam parado para ouvi-lo... No episódio de Alviano é exaltada a singularidade do ser vivo e o desejo de proclamar a Boa Nova aos simples e a todos os excluídos. Já no relato do clérigo inglês é evidenciada a surdez dos homens diante da mensagem de Francisco.

Ao exaltar todos os animais da criação, Francisco busca, acima de tudo, prestar graças ao Criador, presente em todas as coisas e ele demonstra um cuidado especial pelas espécies mencionadas na Bíblia. Quando se desloca montado em um burro, já no fim da vida, o faz tanto para evitar o cavalo, que lhe lembra sua vaidosa juventude, quanto para rememorar a entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, poucos dias antes da Crucificação.

Pregação minoritária

Sua benevolência pode ser infinita, mas pode se perceber que é dirigida principalmente aos animais "pacíficos". Enquanto está hospedado no mosteiro de San Verecondo, fica sabendo de uma javalina que havia matado um cordeiro e imediatamente amaldiçoa o animal, que acabará morrendo três dias depois. Essas histórias podem parecer demasiado exóticas e até um tanto infantis para um leitor contemporâneo. Contudo, não era assim na Idade Média, época em que era algo comum levar os animais domésticos à Missa, e não era raro que os animais fossem processados.

Não sobreviveu ao seu fundador esse aspecto da pregação franciscana, que existia apenas como uma visão minoritária dentro da Igreja, âmbito onde reina um antropocentrismo absoluto desde os tempos de Santo Agostinho. "As estranhas ideias de Francisco a respeito dos seres vivos não foram levadas em consideração pelos franciscanos da geração seguinte e muito menos pela Igreja como um todo", escreve Pierre-Olivier Dittmar.

Com o tempo, apenas histórias de viés infantil perdurarão, como o sermão aos pássaros ou a lenda do Lobo de Gubbio, que surgiu um século após sua morte, na qual o santo livra a população da cidade de um lobo que semeava o terror, conquistando sua confiança e propondo uma troca: os habitantes alimentariam o lobo feroz, e este os deixaria em paz.

Será somente no século XX, com o desenvolvimento das preocupações ambientais, que a natureza singular da relação de Francisco com o mundo natural é redescoberta. Em 1931, durante um congresso internacional para a proteção aos animais, em Florença, os participantes decidem designar o dia 4 de outubro, dia de São Francisco, como o Dia Mundial dos Animais. Meio século depois, em 1979, o Papa João Paulo II o nomeia como "santo padroeiro dos ecologistas".

Finalmente, quando o Papa Francisco publica sua grande encíclica sobre o meio ambiente em 2015, desenvolvendo o conceito de uma "ecologia integral", interrompe a tradição desses textos terem como título suas palavras iniciais em latim. Em vez disso, o documento será intitulado simplesmente Laudato si’, retomando as primeiras palavras do refrão do Cântico das Criaturas.

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