28 Agosto 2026
Vestida com sua saia tradicional, um adorno que cobria a parte superior do corpo e uma coroa multicolorida na cabeça, a indígena Ene Nenquimo entrou no Pavilhão dos Esportes, em Pastaza (Equador), acompanhada por cerca de trinta mulheres. Suas mãos apoiavam-se nos ombros da companheira à sua frente, enquanto as mulheres atrás imitavam seus movimentos. Com o som de seus passos e de seus cantos, ela deu as boas-vindas aos 2.500 participantes que chegaram à cidade amazônica de Puyo para a décima segunda edição do Fórum Social Pan-Amazônico (Fospa).
A reportagem é de Isabel Alarcón, publicada por El País, 22-08-2026.
“Essa dança é uma ação para demonstrar nossa cultura, para dizer a vocês que estão pisando em nosso território, onde nossos ancestrais viveram e que temos de defendê-lo”, explica Nenquimo, vice-presidente da Nacionalidade Waorani do Equador (NAWE). A organização representa um dos 11 povos indígenas que habitam a Amazônia equatoriana e um dos sete que estão na província de Pastaza, sede deste encontro realizado a cada dois anos.
Desde 2002, o Fospa reúne povos indígenas, afrodescendentes, comunidades locais, movimentos sociais, academia e sociedade civil dos nove países da bacia amazônica com o objetivo de articular esforços para enfrentar as atividades que ameaçam a região e garantir os direitos de seus habitantes. “Esta edição é especial porque é a primeira vez que é coorganizada por povos indígenas”, afirma a líder indígena waorani. Diferentemente das edições anteriores, nas quais a sociedade civil ou a academia lideravam o encontro, as sete nacionalidades de Pastaza foram as coanfitriãs.
Ao longo da semana em que ocorreu o Fospa, de 16 a 21 de agosto, os povos indígenas construíram diversos acordos que foram registrados na Declaração Política de Puyuk e no Plano de Ação: dois documentos que também orientarão as ações até o próximo Fospa, que será realizado em Mocoa, na Colômbia, em 2028.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
Uma declaração contra o extrativismo
A dinâmica do Fospa consiste em dividir os participantes em mesas de trabalho chamadas “casas”. Nesta edição, foram escolhidos quatro temas: os impactos do extrativismo; a soberania e a livre determinação dos povos e nacionalidades indígenas; economias para a vida e a justiça climática; e a violência enfrentada pelas mulheres defensoras da Pan-Amazônia.
Os compromissos e reivindicações acordados em cada casa foram incluídos na Declaração Política de Puyuk, que faz referência ao nome originário de Puyo. Nela, exige-se o reconhecimento jurídico dos territórios amazônicos como zonas de exclusão de atividades extrativas, a revogação das concessões de mineração e de exploração de petróleo e a eliminação do uso do mercúrio. O documento também reconhece o papel das guardas indígenas na proteção de seus territórios e a importância dos saberes ancestrais para impulsionar economias que respeitem o meio ambiente.
Além disso, o texto denuncia o avanço das “falsas soluções”, entre as quais são mencionados os mercados de carbono, e enfatiza a necessidade de agir diante da degradação da floresta. Segundo dados do Painel Científico para a Amazônia, divulgados em Puyo, 18% da região já foi desmatada e outros 38% encontram-se degradados. Durante o fórum, também foi feito um alerta sobre o controle territorial exercido pelo crime organizado na bacia amazônica, associado a atividades extrativas, como a mineração.
“Este é o primeiro Fospa em que se elabora um plano de ação”, acrescenta German Niño, diretor do grupo de trabalho de Economias Transformadoras da Rede Latino-Americana por Justiça Econômica e Social (Latindadd), referindo-se a outro aspecto inovador da mais recente edição. Entre as ações de destaque estão a formulação de uma ação judicial conjunta pelos impactos sofridos por todos os rios da bacia amazônica, a criação de uma rede de alerta precoce e de apoio jurídico às comunidades para responder de forma coordenada às ameaças e a defesa de que a Amazônia seja considerada uma zona de exclusão para os combustíveis fósseis.
No caso da mesa de economia, por exemplo, Niño relata que foi acordada a criação de uma “rede de experiências de economias transformadoras”. Até o momento, 50 organizações fazem parte dessa rede, com iniciativas que propõem alternativas à extração de petróleo e à mineração e que incluem a participação ativa de mulheres e jovens. A ideia é incorporar novos empreendimentos até a próxima edição do Fospa.
Por sua vez, Denisse Chávez, presidente do Grupo Impulsor Mulheres e Mudança Climática, explica que a casa das mulheres se concentrou em eixos pontuais como democracia e fundamentalismo, saúde sexual e reprodutiva, proteção das defensoras, criminalização do protesto, práticas ancestrais que vêm sendo impedidas e economia comunitária. Um dos principais resultados desse espaço foi a elaboração de um plano com ações específicas para cada país. Além disso, foi criado um grupo de WhatsApp com as 250 mulheres que participaram das discussões para o compartilhamento de informações sobre o que acontece em suas comunidades. Elas terão encontros virtuais duas ou três vezes por ano.
O plano é que, no próximo ano, sejam avaliados os primeiros resultados do Plano de Ação e que, em 2028, todos os acordos sejam revisados.
Marcha pela Amazônia
“Este evento não foi apenas para escrever, mas para agir e construir”, dizia Nenquimo antes do início da marcha realizada no último dia do Fospa. A líder waorani posicionou-se na primeira fila ao lado de suas companheiras, seguidas pelos representantes dos demais povos indígenas, afrodescendentes, camponeses e comunidades locais da região.
Carregando uma lança, percorreu as ruas de Puyo até chegar à sede do governo provincial. Ali, os presidentes de cada nacionalidade entregaram o Plano de Ação ao Governo Provincial de Pastaza, entidade que representa o governo equatoriano na província. Após a entrega do documento e depois de mais de uma hora de caminhada sob um sol de 28 °C, os manifestantes seguiram até um espaço cultural da cidade. A partir daquele momento, deixaram de ser os anfitriões do Fospa. No entanto, era apenas o início de sua caminhada para cumprir os acordos e, como afirma Nenquimo, embora já tenham passado o bastão de comando para a Colômbia, “não descansaremos até que os Estados respondam e cumpram sua obrigação de proteger nossa casa comum”.
“Este é o espaço mais importante para a articulação regional em defesa da Amazônia”, acrescenta Natalia Greene, diretora da Aliança Global pelos Direitos da Natureza e integrante do Comitê Equador, órgão organizador desta edição do Fospa. O processo para que o encontro fosse realizado em Puyo começou em 2024, durante o fórum de Rurrenabaque, na Bolívia, quando Juan Bay, presidente da NAWE, apresentou a solicitação formal. No entanto, a Colômbia também se candidatou a sediar o evento, e somente em dezembro de 2025 foi decidido que o Equador receberia a edição de 2026.
“Normalmente a organização dispõe de dois anos para preparar o evento, e nós tivemos apenas seis meses para isso, mas foi um grande sucesso”, afirma Greene, que esperava a participação de 1.500 pessoas e considera muito positivo que esse número tenha sido superado. Ao todo, 2.500 pessoas se deslocaram até essa cidade amazônica, localizada a cinco horas de carro de Quito, capital do Equador.
Leia mais
- A Amazônia não é uma reserva de recursos: é um território de vida. Artigo de Patrícia Gualinga
- Equador. Enfrentar uma equação perversa. Artigo de Alberto Acosta, Carlos Zorrilla e Pocho Álvarez
- Amazônia está secando. O que podemos fazer. Artigo de Alexandre Mansur e Luna Galera
- Quase 40% dos indígenas em territórios da Amazônia vivem sem acesso adequado à água
- Capacidade de recuperação da Amazônia é limitada: centro do mundo encontra-se ameaçado por práticas predatórias e ilegais. Entrevista especial com Bernardo Flores
- Corrida global por minerais críticos impulsiona garimpo ilegal na Amazônia
- Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu emite nota pública contra a lei da grilagem e do genocídio
- Mineração em terras indígenas: quando a proteção constitucional é transformada em promessa de exploração. Artigo de Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima
- Homicídios de mulheres indígenas no Brasil crescem 500% em 20 anos, indica estudo
- Modo de vida dos povos indígenas é antídoto para mudanças climáticas, avalia geógrafo
- A natureza como sujeito de direitos: os povos indígenas como seus legítimos representantes. Artigo de Gabriel Vilardi
- Gabriel Vilardi. Os povos indígenas e a defesa da natureza como titular de direitos na Constituição Federal: uma análise descolonial a partir de Ellacuría. Prefácio de Luis Ventura Fernández
- Redes criminosas afetam agora 67% dos municípios e 32% dos territórios indígenas na Amazônia