Estudos reforçam riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas

Imagem de satélite da Foz do Amazonas. (Foto: NASA | Divulgação)

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23 Julho 2026

A Petrobras concluirá no início de agosto a perfuração do poço Morpho no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. Recentemente, a DW teve acesso a um relatório apresentado pela petrolífera ao IBAMA que mostra que um vazamento de petróleo na área pode atingir a costa do Amapá. E dois novos estudos reforçam o grande risco de explorar combustíveis fósseis não apenas no Bloco 59, mas também em toda a bacia.

A informação é publicada por ClimaInfo, 22-07-2026.

Uma das pesquisas, feita por cientistas das universidades federais da Bahia (UFBA) e de Pernambuco (UFPE), foi publicada na revista Continental Shelf Research. O estudo coloca em xeque as simulações da Petrobras sobre os impactos de vazamentos de óleo na região. Inicialmente, a petrolífera chegou a afirmar que o petróleo não atingiria o litoral brasileiro.

Usando o software MEDSLIK-II – validado para simular potenciais derramamentos de petróleo -, os pesquisadores rodaram 48 simulações mensais em quatro pontos da Foz do Amazonas ao longo de 2023. Em geral, confirmaram o padrão de inverno e verão descrito pela Petrobras, mas encontraram uma exceção importante: em março, no início da primavera boreal, o petróleo atinge as costas do Suriname e da Guiana Francesa em seis dias, um período não contemplado nos estudos da empresa.

O risco fica ainda mais evidente nos blocos vizinhos, hoje disponíveis para leilão pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), que não foram avaliados nos estudos da Petrobras. Nesses locais, as simulações mostram que o óleo alcança a costa brasileira e a de países vizinhos em sete das 12 simulações anuais, atingindo áreas sensíveis como o Parque Nacional do Cabo Orange, a Reserva Biológica do Lago Piratuba e a Ilha de Maracá, no Amapá, e a própria foz do rio Amazonas. Um dos pontos analisados, mais a sudeste da bacia, mostrou-se particularmente vulnerável, com risco de contato costeiro em quase todos os meses fora do período de maio a setembro.

O estudo afirma que o período mais crítico do ano vai de setembro a abril. É justamente quando a Corrente Norte do Brasil enfraquece e perde sua “retroflexão”, o desvio que normalmente empurraria o vazamento de petróleo para o mar aberto, deixando ventos e marés dominarem o transporte do óleo rumo à costa. Já entre maio e setembro, quando a corrente e seu desvio se intensificam, nenhuma simulação indicou risco de contato costeiro.

Diante das divergências em relação às avaliações da Petrobras, o estudo defende a necessidade de estudos mais aprofundados, considerando diferentes tipos de óleo, a variabilidade interanual e a validação específica do modelo para a região amazônica, antes da concessão de novas licenças ambientais na Foz. E recomendam reavaliar a oferta permanente de blocos na região até que os riscos sejam melhor compreendidos. No fim de junho, a ANP indicou 36 áreas na Foz para possível inclusão em leilões, das quais oito não haviam sido oferecidas anteriormente.

O outro estudo, publicado no Journal of Marine Science and Engineering, também simula os riscos de vazamento de óleo na Foz do Amazonas. Pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), do INPE e do Climatempo fizeram 47.500 simulações probabilísticas de vazamentos em 95 poços na região, caracterizada por sua grande biodiversidade, incluindo a segunda maior área de manguezais do mundo e o sistema de recifes da Amazônia. O modelo, batizado de STFM, integra dados de correntes oceânicas, ventos e ondas e foi validado com boias de rastreamento por satélite, o que indica alta confiabilidade para previsões de até 20 dias.

Segundo a pesquisa, entre janeiro e abril, quando a Zona de Convergência Intertropical favorece ventos em direção à costa, a probabilidade do petróleo chegar à costa passa de 40% a 50% em trechos extensos do litoral da Guiana Francesa e do Amapá, levando de 10 a 20 dias para chegar à costa. Já entre julho e outubro, com os ventos mais voltados para o mar aberto, essa chance cai para menos de 15%, e o petróleo tende a ficar retido por mais tempo em correntes oceânicas, percorrendo distâncias bem maiores antes de eventualmente encalhar.

Mesmo em cenários mais “seguros”, o risco à Foz do Amazonas persiste, segundo o estudo. No período de maior risco (janeiro-abril), o estudo estima uma chance de 12,5% do óleo entrar na foz do rio Amazonas e de até 5% de atingir as baías de Marajó e São Marcos. Mesmo na estação mais favorável (julho-outubro), essa probabilidade de intrusão no rio Amazonas cai, mas não desaparece, mantendo-se em torno de 2%.

Os autores destacam ainda que um vazamento em águas brasileiras poderia atingir rapidamente a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana. O que exige acordos de cooperação internacional antes que a exploração avance na região, reforçam os pesquisadores.

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