03 Março 2026
O relatório de simulação de derramamento ignora a ameaça a esse ecossistema. As autoridades insistem que, devido à distância, não serão afetadas.
A reportagem é de Luan Matheus, publicada por El País, 01-03-2026.
Divulgado em 23 de janeiro de 2026, o relatório de simulação de derramamento de óleo para o Bloco FZA-M-59, conduzido em dezembro de 2025 pela Petrobras, reacendeu as preocupações sobre os potenciais riscos ambientais dessa área de exploração de petróleo offshore localizada na bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira. O exercício foi baseado em um cenário realista de acidente e focou em detalhar como monitorar, resgatar e cuidar da fauna que poderia ser contaminada pelo óleo. No entanto, apesar de ser um componente central da margem equatorial, o Sistema Arrecifal Amazônico não foi incluído na simulação, não fez parte da análise e não foi identificado como área estratégica para proteção.
Na prática, isso significa que, se a perfuração for aprovada e ocorrer um vazamento de petróleo, os recifes da Amazônia seriam completamente excluídos das medidas de resposta a emergências planejadas pela Petrobras. A simulação é uma das condições impostas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para a emissão da Licença de Operação (outubro de 2025), que autoriza a perfuração de um poço exploratório. No entanto, a ausência dos recifes nessa etapa do processo não é um caso isolado. Essas omissões vêm ocorrendo há algum tempo.
Essa situação persiste desde que a BP Energy adquiriu o Bloco 59 em 2013. Os estudos de impacto ambiental, apresentados em 2015, não incluíram os recifes na avaliação de risco ambiental (ARA), uma etapa fundamental no processo de licenciamento. A primeira menção a esses ecossistemas no processo partiu do Ibama em 2016, quando solicitou informações sobre a “descoberta recente de recifes na Margem Equatorial”.
Em 2017, a BP apresentou uma revisão dos estudos, caracterizando o sistema recifal, seu tamanho e biodiversidade, mas sem considerá-lo uma área de risco prioritária. Após a Petrobras adquirir o bloco em 2021, a estatal realizou uma revisão, ampliando as análises técnicas, mas mantendo a mesma avaliação de risco e excluindo os recifes como ecossistema estratégico.
Este relatório, com o apoio de Victor Vieira, engenheiro ambiental especializado em licenciamento e ex-consultor da Federação Nacional de Entidades de Engenharia Ambiental e Sanitária (FNEAS), analisou os Planos Individuais de Proteção (PIP) e os Planos de Proteção da Vida Selvagem (PPVS) entre 2015 e 2025. Após a análise, Vieira é categórico. “Há uma invisibilidade explícita do Sistema Arrecifal Amazônico ao longo de quase uma década de revisões”, afirma.
“Essa falta de designação e reconhecimento formal de um ecossistema estratégico, já amplamente discutido na literatura científica, não é apenas uma deficiência técnica, mas também simbólica e regulatória, uma vez que impede que o sistema recifal seja tratado como um sujeito legítimo para o desenvolvimento de protocolos de prevenção e resposta”, declara.
Onde o petróleo flui
A Petrobras afirmou em um comunicado à imprensa enviado por e-mail que não há evidências de sistemas recifais ou outros organismos biogênicos na área de perfuração. “As áreas mapeadas em artigos e estudos científicos recentes estão localizadas a profundidades de até 200 metros. Portanto, estão bastante distantes do poço Morpho”, declarou a empresa, referindo-se ao poço estratégico dentro do Bloco 59, onde serão testados os hidrocarbonetos que podem ser explorados comercialmente. Esse argumento foi corroborado pelo Ibama, que acrescentou em outro comunicado que “os modelos de dispersão de derramamento de óleo mostram uma tendência de deriva para o norte/noroeste, em direção a águas internacionais”. Segundo o instituto, uma avaliação rigorosa dos impactos e riscos ambientais vem sendo realizada nos últimos anos, considerando todas as características técnicas do projeto apresentado.
Mas Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atual coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, afirma que ainda existem muitas incertezas em relação aos sistemas de dispersão de petróleo, especialmente em uma região caracterizada por fortes correntes oceânicas e alta carga de sedimentos. “Esse fator está sendo subestimado nas análises, assim como o próprio comportamento do petróleo”, explica.
Além disso, o grande volume de sedimentos na área é um fator que, segundo Kerlem Carvalho, Coordenadora de Oceanos e Água do Instituto Internacional Arayara, poderia transportar pelo menos 20% do petróleo para o fundo do mar em caso de derramamento. De acordo com Carvalho, os dados da BP mostram que as correntes subsuperficiais fluem em direção a áreas com rodolitos e habitats sensíveis que não foram devidamente avaliados. “Nessas condições, a mera ausência de recifes sob o poço Morpho não exclui impactos em áreas adjacentes ou transfronteiriças”, conclui.
Segundo Vieira, as conclusões sobre a baixa probabilidade de o petróleo atingir a costa ou afetar esses ecossistemas "baseiam-se quase exclusivamente nesses modelos, o que contradiz as melhores práticas internacionais".
Além dos recifes
Adelino Cavalcante é um pescador de Limoeiro do Ajuru, município do Pará localizado na foz do rio Amazonas, onde a incerteza sobre o futuro permeia o cotidiano de seus habitantes. “Esses projetos não são para nós. E vou te dizer mais: eles vão nos destruir”, afirma, associando a exploração de petróleo ao deslocamento silencioso das comunidades pesqueiras. Sua preocupação é compreensível: afinal, as comunidades que vivem na costa equatorial não foram consultadas nem informadas sobre os projetos, como apontou uma ação pública realizada em outubro do ano passado. Isso apesar de dependerem diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos e costeiros para sua subsistência.
O Sistema de Recifes da Amazônia é resultado de uma combinação de fatores encontrados apenas na foz do Rio Amazonas, tornando-o um ecossistema único, complexo e ainda pouco conhecido. O rio funciona como um canal que drena toda a água de uma vasta rede de rios e córregos formada pela precipitação em toda a bacia, a maior do mundo. “A quantidade de água é tão grande que chega a fluir até 3 mil quilômetros mar adentro. É incrível”, afirma o oceanógrafo e professor da Universidade Federal Rural do Amazonas (UFRA), Eduardo Tavares Paes.
Essa água aparece como uma grande mancha lamacenta que se espalha pela superfície do mar, formando o que é conhecido como pluma amazônica. “É basicamente água, mas água que carrega uma grande quantidade de matéria orgânica e nutrientes, tanto dissolvidos quanto particulados. Essa matéria se transforma em alimento, se acumula no fundo do mar e começa a sustentar os organismos que ali vivem”, diz Paes.
A pluma também se conecta ao sistema de recifes, que por sua vez está ligado à vasta extensão de manguezais ao longo da costa, também a maior do mundo. “Nessas áreas, aparecem grandes esponjas, algumas com séculos de idade, que chegam a quase dois metros de altura. Estudos já mostraram que a composição química dessas esponjas é semelhante à da pluma amazônica”, explica o professor.
Esses três sistemas — o recife, os manguezais e as esponjas — funcionam como partes de um único organismo, onde cada um depende dos outros para existir. Muitos peixes, por exemplo, passam a juventude nos manguezais, onde encontram abrigo e alimento, e só migram para os recifes na fase adulta. “Essas relações mais íntimas entre os sistemas, a biologia básica das espécies, são pouco compreendidas”, afirma Paes. É isso que pode estar em risco e não tem sido levado em consideração.
E a ameaça é real. Apenas alguns dias após o exercício de simulação, um vazamento de fluido durante a perfuração do poço Morpho forçou a suspensão das operações no local. O incidente ocorreu em 4 de janeiro. Em comunicado, o Ibama informou que o fluido derramado é uma mistura de produtos utilizados em atividades de exploração e produção de petróleo e gás. Até o momento, o vazamento resultou em uma multa de 2,5 milhões de reais (aproximadamente US$ 475 mil) para a empresa e na suspensão das operações por mais de 30 dias.
*Esta reportagem contou com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, no âmbito do projeto Defensores do Meio Ambiente. Também recebeu apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (Agence Française de Développement).
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