Homicídios de mulheres indígenas no Brasil crescem 500% em 20 anos, indica estudo

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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12 Agosto 2026

Levantamento da UFPR encontrou 394 mortes de mulheres e meninas indígenas entre 2003 e 2022.

A informação é publicada por Ciência UFPR, e reproduzida por Sul21, 11-08-2026. 

Nos últimos vinte anos, o número de homicídios de mulheres e meninas indígenas no Brasil cresceu 500%. É o que conclui um artigo de pesquisadores do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Os autores analisaram homicídios registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) — base de dados que reúne informações sobre óbitos, incluindo causa da morte, dados sociodemográficos e local da ocorrência — entre 2003 e 2022, considerando apenas vítimas de 10 anos ou mais.

Ao todo, foram 394 ocorrências registradas no levantamento. Jovens de 15 a 29 anos representam a maior parte das vítimas (40,4%). Crianças e pré-adolescentes, dez a 14 anos, são 7,1% do total. A maioria era solteira (52%). Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que o estado civil é um indicador limitado, já que nem todas as uniões são formalizadas.

A maior parte das mortes aconteceu em locais não especificados (36%), mas muitas ocorreram em domicílio (28%), hospitais (18,8%) ou vias públicas (14,7%). A região Centro-Oeste apresentou a maior taxa de homicídios, com destaque para o Mato Grosso do Sul com 149 casos. O Rio Grande do Sul é o segundo colocado na pesquisa, com onze casos, atrás do Paraná e suas 16 mortes.

O uso de objetos cortantes foi predominante, representando 34% dos crimes. Isso sugere proximidade física entre o agressor e a vítima, não necessariamente implicando premeditação, avalia o estudo. O percentual de homicídios cometidos com armas de fogo também foi expressivo, de 22,1%, endossando a tese de que o acesso facilitado a armamentos afeta a segurança das mulheres.

A maioria das vítimas apresentava baixa escolaridade ou não tinha educação formal. Para os autores do artigo, uma possível explicação é que mulheres com menor nível de escolaridade tendem a ter menos autonomia financeira e menor acesso às redes de apoio. Os pesquisadores argumentam, porém, que o acesso desigual à educação não é um desafio isolado.

“Ele integra um quadro maior, que inclui racismo estrutural, expropriação territorial e desassistência do Estado”, diz o professor Clóvis Wanzinack, coordenador do Bacharelado em Administração Pública da UFPR e coautor do artigo, em entrevista à Ciência UFPR.

A pesquisa se refere exclusivamente à população indígena uma vez que mulheres e meninas indígenas enfrentam o que os autores chamam de “vulnerabilidade ampliada”, uma interseção de discriminações étnico-raciais, de gênero e de classe que se complementam. Entre 2010 e 2014, o levantamento identificou uma taxa de homicídio 2,5 vezes maior de mulheres índigenas do que a de não indígenas.

A ativista Jaqueline Gomes de Moura, indígena do Povo Kambiwá, defende que enfrentar a violência contra as mulheres indígenas exige compreender que ela está relacionada às violações territoriais e à ausência histórica de políticas públicas adequadas. “Quando um território é invadido ou permanece sem proteção, a violência contra as mulheres também se intensifica”, diz Moura, que atua na Coordenação de Promoção dos Direitos das Mulheres e Meninas Indígenas da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).

O acesso aos mecanismos de proteção previstos pela Lei Maria da Penha, por exemplo, pode ser dificultado por barreiras linguísticas, culturais e geográficas, especialmente em áreas remotas. “Em diversas situações, denunciar significa percorrer centenas de quilômetros sem recursos financeiros e, muitas vezes, retornar ao mesmo ambiente de violência por falta de alternativas”, diz Moura.

Além disso, instituições públicas não necessariamente dispõem de profissionais preparados para lidar com especificidades sociais e culturais, segundo a ativista. “Ainda é comum que servidores desconheçam as formas de organização social dos povos, seus idiomas, suas lideranças e seus protocolos comunitários, o que produz desconfiança, revitimização, e leva muitas mulheres a desistir de buscar proteção”, observa a ativista.

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