“O conceito de tocar-no-mundo em Hartmut Rosa pode ser compreendido como uma forma de relação em que o sujeito não busca dominar o mundo, mas se permite ser afetado por ele e responde de maneira recíproca”, afirma o ambientalista
Se relacionar com a natureza em um mundo que constantemente a destrói não é fácil. Dentro de uma sociedade capitalista neoliberal que visa o lucro muito mais do que a vida, o humano que age através das lentes do consumo se limita a viver como uma marionete de um sistema que corrói o mundo. Entretanto, há aqueles que buscam fugir desses padrões, perseguindo sua essência que se perdeu: a reconexão com a Terra e com a própria natureza que nos habita.
O mundo natural é cercado de seres como árvores, plantas e animais que devem ser respeitados e preservados, não só para manter nossa existência intacta, mas também porque a vida dos mais-que-humanos é tão vital quanto a nossa, ou seja, ambos possuem o mesmo direito de existir como parte deste ecossistema.
É a partir dessa visão de mundo que humanos buscam se reconectar com "seu eu natureza" dentro de comunidades como ecovilas e ecoaldeias. Tais comunidades vivem em harmonia em pequenos e grandes grupos que sustentam uma rotina mais sustentável plantando, cuidando dos animais que vivem nas proximidades, trabalhando a partir da ajuda mútua, divertindo-se, escrevendo, pintando e se movendo a partir do cuidado.
Em sua pesquisa de doutorado, intitulada “Conceções da Natureza e Vidas Sustentáveis: patrimónios de disposições e alteração dos estilos de vida”, o ambientalista Jorge Moreira realizou inúmeras entrevistas a partir de sua imersão em ecovilas e ecoaldeias de Portugal. Com base em suas vivências, o pesquisador afirma que “quando algumas pessoas vivenciam estados alterados de consciência, conseguem perceber que são o todo, que são a própria natureza, que são parte do mundo. Elas conseguem, de certa forma, alargar a sua consciência para integrar esse mundo”.
O professor conduziu sua pesquisa utilizando a teoria da ressonância de Hartmut Rosa para defender que “um sujeito terá uma boa vida se encontrar e preservar as condições materiais e existenciais que permitem a reafirmação interativa e periódica da ressonância existencial”.
Jorge Moreira participou do evento IHU ideias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 23-07-2026. Na ocasião, ministrou a conferência “Tocar-no-Mundo. Vivências transformadoras da relação com a Natureza”, a qual publicamos abaixo, no formato de entrevista.
Jorge Moreira. (Foto: Arquivo Pessoal)
Jorge Moreira é ambientalista e investigador. Licenciado em Ciências do Ambiente e em Conservação do Patrimônio Natural, é mestre em Cidadania Ambiental e Participação pela Universidade Aberta e doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra. É bolsista FCT e investigador do Centre for Functional Ecology, Science for People & the Planet, da Universidade de Coimbra, Grupo Societies and Environmental Sustainability. É vice-presidente da Associação Ambientalista para a Conservação da Biodiversidade (FAPAS), dirigente da Sociedade de Ética Ambiental (SEA) e um dos coordenadores dos movimentos socioecológicos Alvorecer Florestal, Aliança pela Floresta Autóctone, Movimento Gaia Verde e SOS Estuário do Douro. É membro do Conselho de Região Hidrográfica do Norte e representante na C7 (maiores associações ambientalistas de Portugal).
IHU – Como as concepções de natureza e de vida sustentável se relacionam com as disposições incorporadas nos indivíduos? O que leva algumas pessoas a transformarem essas concepções ecológicas em mudanças efetivas e duradouras nos seus estilos de vida?
Jorge Moreira – Nesta primeira parte eu falarei rapidamente sobre os motivos da minha investigação e por onde comecei.
Desde as décadas de 1960 e 1970, temos assistido à crescente emergência das questões ambientais. Foi a partir desse período que começou a se desenvolver uma maior consciência ecológica sobre a crise ambiental. A essa crise ecológica soma-se também uma crise climática, que tem nos afetado por meio de eventos meteorológicos extremos, entre muitos outros problemas. Na verdade, já ultrapassamos vários limites planetários, incluindo aqueles relacionados à integridade da biosfera, à alteração do uso do solo, às mudanças climáticas, ao uso da água doce, aos fluxos de nitrogênio e fósforo e, mais recentemente, à poluição por novas substâncias.
Isso significa que a humanidade já opera muito para além daquilo que é um espaço seguro. Portanto, estamos a caminhar no fio da navalha, como se diz aqui em Portugal, e é nesse contexto que surge o segundo aviso da comunidade científica para a humanidade, que foi divulgado em 2017, embora tenha sido publicado em 2018, 25 anos depois do primeiro aviso de 1992. Em comparação com o primeiro, este segundo alerta é mais grave por mostrar o agravamento em praticamente todos os indicadores analisados. Há um aumento contínuo da população humana, que também representa um problema. Tivemos ainda um crescimento do número de ruminantes e da produção de carne per capita, além da perda da cobertura florestal e, consequentemente, do aumento do desmatamento. Observamos também um maior consumo de energia per capita, o aumento das emissões de dióxido de carbono e da temperatura global, bem como um crescimento acentuado do número de espécies ameaçadas e da área total de terras destruídas ou convertidas para atividades humanas, como a agricultura e outras práticas.
A única melhoria observada diz respeito à camada de ozônio, que, em 1992, representava um problema sério. Com a implementação de políticas globais que proibiram o uso de diversos gases que afetavam a camada de ozônio, esse problema começou a ser revertido. Esse é um fato relevante, pois nos permite manter a esperança de que ainda seja possível corrigir a situação e evitar o abismo, desde que haja vontade política e que essa vontade seja amplamente compartilhada.
A crise ecológica e climática tornou-se, pois, um problema sistêmico e global, evidenciando que a perda da biodiversidade e as mudanças climáticas possuem causas humanas comuns e afetam diretamente a qualidade de vida.
Sabemos que o principal fator impulsionador das mudanças ambientais é de origem antropogênica. Essa informação consta do relatório conjunto do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) publicado em 2021. Esse relatório é particularmente importante porque, ao abordar os fatores indiretos que impulsionam as mudanças ambientais, destaca elementos como as instituições, a economia, a demografia, a tecnologia, a governança e o ordenamento, mas especialmente os fatores socioculturais, que estão na base de todo esse processo. Entre esses fatores estão os valores, as normas, as crenças e a educação, que também influenciam os fatores diretos, como a introdução de espécies invasoras, a exploração dos rios, a poluição e as alterações no uso do solo, contribuindo para a perda da biodiversidade e o agravamento das mudanças climáticas.
É importante destacar que o relatório evidencia a interligação entre esses processos: as mudanças climáticas agravam a perda da biodiversidade, e a perda da biodiversidade, por sua vez, também contribui para o agravamento das mudanças climáticas.
Nesse sentido, tanto o IPBES quanto o IPCC ressaltam que, embora estejamos diante de um problema grave, ainda é possível reverter esse cenário. Para isso, é necessária uma mudança transformadora da sociedade, entendida como uma reorganização profunda dos sistemas tecnológicos, econômicos, sociais e culturais, incluindo também a transformação de valores, paradigmas e objetivos. Trata-se de uma mudança necessária para interromper essa trajetória em direção ao precipício.
Atualmente, a extração de recursos naturais já excede a capacidade regenerativa dos ecossistemas. Para reverter esse overshoot ecológico (sobrecarga ecológica), seria necessária uma redução absoluta do uso de energia e de materiais de aproximadamente 50%, de modo a aproximar o consumo da capacidade de regeneração natural dos ecossistemas. Este é exatamente o argumento apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para selecionar a promoção de vidas e estilos de vida sustentáveis como uma das suas prioridades.
Os sociólogos conhecem bem o paradoxo de Anthony Giddens, que evidencia a distância entre o reconhecimento abstrato da crise climática e a dificuldade de agir de forma consequente no presente. Ou seja, mesmo diante das mudanças e dos impactos que já ocorrem em nossas vidas, muitas vezes continuamos mantendo os mesmos comportamentos, porque percebemos esses problemas como distantes ou não suficientemente graves para justificar mudanças imediatas.
No entanto, o conhecimento que fui adquirindo por meio do contato com as pessoas mostrou-me que muitas delas efetivamente transformaram seus estilos de vida. Começaram a reorganizar seus padrões de consumo, suas prioridades, sua relação com o trabalho e suas formas de habitar o mundo e, de certa maneira, passaram a contrariar o paradoxo de Giddens. Foi justamente essa constatação que me levou a pensar: se a teoria aponta para uma determinada tendência, mas encontramos pessoas que fazem algo diferente, então vale a pena estudar esse fenômeno.
Estou falando exatamente sobre o que é utilizado na ecoaldeia Tamera, em Portugal. Ela é a maior ecoaldeia do país e uma das mais importantes do mundo. Essa tecnologia é utilizada, por exemplo, na cantina, onde os alimentos são preparados utilizando energia solar ou biogás, quando não há disponibilidade de sol. Lá existe uma estrutura parabólica em que os raios solares são concentrados em uma área específica, onde se encontra o fogão ou forno solar utilizado para preparar os alimentos. Trata-se de uma tecnologia utilizada de forma sustentável.
Diante da crise ecológica e climática, da iniciativa da ONU para a promoção de estilos de vida sustentáveis e da necessidade de uma mudança transformadora da sociedade para evitar o colapso civilizacional e a perda de muitas das espécies que compartilham conosco esta odisseia terrestre, essa questão tornou-se especialmente importante para mim.
Assim como o contato com pessoas que contrariaram o paradoxo de Giddens, essa experiência contribuiu para o surgimento do meu trabalho de doutorado, cujo objetivo é compreender por que determinados indivíduos optam por estilos de vida mais sustentáveis, como vivem atualmente e quais são as suas concepções sobre sustentabilidade e natureza. Posteriormente, meu trabalho também passou a integrar os esforços no âmbito da década internacional da ciência para o desenvolvimento sustentável.
Conhecer as forças motrizes que levaram essas pessoas a abandonarem estilos de vida insustentáveis e adotarem formas de viver mais em harmonia com a natureza pode ajudar a inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo e, assim, contribuírem para a mudança transformadora que se pretende alcançar e que tem sido defendida nos debates atuais.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um estilo de vida sustentável corresponde a qualquer padrão de consumo individual e de comportamento social que possa ser compartilhado por todos, mantendo a integridade ecológica. Nessas comunidades, observei algumas construções e elementos feitos com materiais como palha e madeira. O interior é muito bonito e apresenta um ambiente bem interessante. É também uma forma de utilizar materiais mais amigáveis ao meio ambiente.
Nesse sentido, torna-se importante compreender o papel das comunidades sustentáveis e intencionais, ou seja, comunidades que procuram colocar em prática estilos de vida sustentáveis, resilientes e de baixo consumo. Nas zonas rurais, dei maior atenção aos participantes integrados em ecocomunidades, como as ecoaldeias, também designadas por ecovilas.
Nas zonas urbanas, entrevistei indivíduos envolvidos em movimentos de transição. São movimentos que, embora estejam inseridos nas cidades, desenvolvem tecnologias e metodologias muito interessantes, como hortas comunitárias, iniciativas de reparação de equipamentos elétricos e eletrônicos, promoção do uso de bicicletas, entre outras práticas. São, portanto, movimentos que também procuram promover transformações concretas nos modos de vida urbanos.
A ecoaldeia de Tamara tem até um templo natural em sua estrutura. É a maior ecoaldeia que temos em Portugal e uma das mais importantes, muito conhecida, onde fazem também muitas investigações.
IHU – Como os retratos sociológicos contribuíram para compreender as trajetórias de vida dos participantes e as razões que os levaram a mudar seus estilos de vida?
Jorge Moreira – A metodologia utilizada neste estudo seguiu uma abordagem qualitativa, estruturada em dois eixos principais. O primeiro eixo, voltado à compreensão de como vivem os indivíduos que optaram por estilos de vida sustentáveis, consistiu em um estudo etnográfico baseado na vivência e na observação direta em campo. O segundo eixo foi desenvolvido por meio de entrevistas não estruturadas com o objetivo de construir retratos sociológicos dos participantes e, assim, investigar as razões que os levaram a alterar seus estilos de vida.
O retrato sociológico, desenvolvido pelo estudioso francês Bernard Lahire, constitui uma abordagem em escala individual. Embora a realidade seja muito mais complexa, podemos compreendê-la simplificadamente a partir da ideia de que disposições, em interação com determinados contextos, dão origem a hábitos, capacidades, competências, tendências e inclinações. Essas disposições podem assumir diferentes formas (corporais, mentais, emocionais, discursivas, perceptivas e avaliativas) que, em conjunto, podem potencializar paixões, gerar crises ou mesmo provocar rupturas. Nesse contexto, podemos relacionar essas disposições diretamente à alteração dos estilos de vida. Nesta segunda parte, apresentarei alguns dados sobre o meu trabalho de campo.
Foram entrevistados 32 indivíduos portugueses que vivem ou participam de comunidades sustentáveis intencionais. A metodologia dos retratos sociológicos exige a realização de várias entrevistas com o mesmo indivíduo, o que facilita a evocação de acontecimentos passados e a reflexão sobre sua trajetória de vida. O retrato consiste, portanto, em um conjunto de entrevistas que procura reconstruir a trajetória do indivíduo desde suas primeiras lembranças e experiências até o momento atual, buscando compreender quais foram as razões que o levaram a alterar seu estilo de vida. Normalmente, essas entrevistas foram realizadas em dias diferentes, permitindo que os participantes retomassem e aprofundassem suas reflexões ao longo do processo.
Além dos retratos sociológicos, foi realizado um grupo focal em uma comunidade composta exclusivamente por indivíduos estrangeiros, em Terra Amada, no Algarve, Portugal. Praticamente todos os participantes possuíam formação superior, com apenas três exceções, e muitos também tinham outras formações alternativas, o que caracterizava um grupo bastante qualificado. Durante um ano, participei de 31 comunidades sustentáveis intencionais, percorrendo aproximadamente 8 mil quilômetros pelo território português, de norte a sul do país.
As comunidades eram heterogêneas, embora a maioria fosse do tipo ecoaldeia. Algumas também faziam parte de duas redes internacionais de comunidades sustentáveis intencionais, além de dois movimentos de transição urbana. Entre as ecoaldeias, destacam-se algumas comunidades como Tamera, Ananda Marga, Cabrum, Terra Amada e Montofocus, entre outras. Algumas dessas comunidades mantinham escolas com propostas de educação alternativa, enquanto outras estavam associadas a ecofestivais, ateliês de arte e diferentes iniciativas culturais e educativas.
Nas comunidades sustentáveis intencionais, eram desenvolvidas práticas e atividades bem diversificadas, que incluíam o ativismo socioambiental, a reflexão sobre as relações entre os seres humanos e o mundo mais-que-humano, a agricultura orgânica, a permacultura, a agrofloresta sintrópica, a gestão florestal, o restauro ecológico e ações de enfrentamento às mudanças climáticas.
Essas iniciativas também se articulavam com as artes e o ativismo, a educação, os ecossistemas, as hortas urbanas, as reflexões sobre o amor e a sexualidade, os modelos alternativos de sociedade, os santuários de animais, o alojamento, os espaços de peregrinação, as terapias naturais e diferentes experiências relacionadas à estética e ao cuidado.
Por sua vez, nas comunidades entrevistei pessoas com perfis também diversos, incluindo arquitetos, paisagistas, engenheiros, eletrotécnicos, juristas, profissionais de informática, gestores, economistas, contadores, autores, artistas, curadores de arte, construtores, artesãos, agricultores, jardineiros, coaches, políticos, missionários e cuidadores de animais. Essa diversidade revela a pluralidade de saberes, práticas e sensibilidades presentes nesses contextos.
IHU – Como a sua inserção nas comunidades, tanto pela participação nas atividades cotidianas quanto pela construção de relações de reciprocidade, influenciou a produção dos dados e fez emergir novos temas e conceitos para a investigação?
Jorge Moreira – Uma das questões que considerei fundamental durante o trabalho de campo foi evitar qualquer forma de extrativismo acadêmico, ou seja, a lógica de entrar em uma comunidade, recolher apenas as informações que interessam à pesquisa e sair sem oferecer nenhuma contrapartida. Essa postura não estava de acordo com meus princípios, com meu estilo de trabalho nem com a minha forma de compreender a relação entre pesquisador e comunidade.
Como forma de retribuir as refeições e as estadas que me foram oferecidas, na maioria das vezes gratuitamente, disponibilizei minhas habilidades para realizar trabalhos de que as comunidades necessitavam e que eu sabia executar. Também tenho formação em eletrônica, carpintaria e alvenaria, além de experiência em diversos outros ofícios, que eu dominava em maior ou menor grau.
Ao longo desse período, realizei trabalhos de eletrônica, carpintaria, serviços de eletricista, construção civil, como pedreiro e ajudante de obra, além de atividades como lenhador, agricultor, trabalhador florestal, consultor em ecologia, transportador de alimentos, ajudante de cozinha, descascador de batatas, companheiro de caminho, colocador de sinalização, limpeza de represas e escritor. Foram, portanto, muitas tarefas e atividades diferentes que desempenhei durante o trabalho de campo.
Essa participação foi muito importante, porque o fato de eu estar ali trabalhando e fazendo parte do cotidiano das comunidades permitiu que as pessoas também se sentissem mais à vontade e se abrissem mais. Muitas informações, experiências e conversas surgiram fora do contexto formal das entrevistas. Essas conversas também foram registradas e contribuíram significativamente para enriquecer o trabalho de campo. A convivência e a participação nas atividades permitiram, assim, construir relações de empatia e confiança com os participantes.
No fim, o trabalho de campo resultou em 336 páginas de registros, organizadas, aproximadamente, em quatro linhas complementares. A primeira correspondia ao registro do espaço e do tempo, situando o local da observação, o ambiente físico e o contexto temporal. A segunda reunia os registros descritivos, incluindo os participantes, as cenas, as práticas, as interações e as conversas complementares às entrevistas. A terceira correspondia aos registros interpretativos, nos quais eram analisadas relações, tensões, emoções, padrões e significados das situações observadas. A quarta reunia registros relacionados aos meus próprios sentimentos, dilemas éticos, à posição do pesquisador e às questões ou conceitos que poderiam ser aprofundados em investigações futuras.
Depois do trabalho de campo, precisei revisitar, e continuo revisitando, a literatura científica, uma vez que diversas novas temáticas emergiram durante a experiência. Entre elas, destaco a ecoespiritualidade, a educação alternativa, o artivismo e conceitos como atos multiespécies, assembleias, ressonância e pós-humanidade. Também emergiu o conceito de praxiografia ambiental, que deu origem a um artigo científico e a um ensaio fotográfico.
Esta última parte da investigação está centrada, especificamente, no conceito de ressonância e na sua relação com as comunidades sustentáveis intencionais. A ideia de ressonância tem me acompanhado há muito tempo, como uma forma de pensar a relação entre o sujeito e o mundo para além de uma lógica baseada apenas na observação ou no controle.
Nesse percurso, há muitos anos deparei-me inicialmente com a ideia de ressonância mórfica, proposta por Rupert Sheldrake, biólogo que formulou a hipótese de que as formas, os comportamentos das espécies e determinados hábitos poderiam tornar-se mais prováveis pela influência de padrões semelhantes ocorridos no passado.
Por meio daquilo que Sheldrake denomina campos mórficos, essa perspectiva propõe que aquilo que já aconteceu deixaria uma espécie de memória na natureza, tornando mais provável a repetição de padrões semelhantes em seres vivos ou em outros sistemas. De forma simplificada, Sheldrake sugere que não herdamos apenas os genes, mas também uma espécie de memória coletiva não material, acessível pela semelhança, que contribuiria para explicar a formação dos organismos, os instintos e determinados hábitos, através daquilo a que Sheldrake chama de campos mórficos.
Nesta perspectiva, aquilo que já aconteceu deixaria uma espécie de memória na natureza, tornando mais provável a repetição de padrões semelhantes nos seres vivos ou em outros sistemas. De forma simplificada, Sheldrake sugere que não herdamos apenas os genes, mas também uma espécie de memória coletiva não material, acessível por meio da semelhança, que ajudaria a explicar a formação dos organismos, os instintos e determinados hábitos. Trata-se, assim, de um campo que permitiria a partilha de informações e influenciaria a forma, o desenvolvimento e o comportamento dos organismos vivos.
Posteriormente, surgiu a teoria das cordas, que propõe uma nova leitura das partículas subatômicas. Nessa perspectiva, elas deixam de ser concebidas como pontos indivisíveis e passam a ser compreendidas como pequenas cordas de energia em vibração. Cada padrão de vibração corresponderia a uma partícula diferente, contribuindo para explicar a existência e as propriedades de partículas como quarks, elétrons e outros elementos fundamentais.
De forma muito simples, a teoria parte da ideia de que essas cordas podem vibrar de diferentes maneiras, tal como acontece com uma corda de guitarra, que produz notas distintas de acordo com a frequência de sua vibração. É justamente o tipo de vibração dessas cordas que, nessa perspectiva, daria origem às diferentes formas de matéria. Em síntese, é a vibração que ocupa um lugar central na teoria das cordas.
Mais recentemente, encontramos a teoria da ressonância de Hartmut Rosa, uma abordagem sociológica crítica que se refere às relações internas e relacionais que nos permitem sentir o mundo, ser afetados por ele e responder de maneira significativa. Trata-se, portanto, de uma forma viva de relação, aberta e transformadora, entre o ser humano e o mundo.
Deixando um pouco de lado as teorias da evolução biológica e os fundamentos da física, concentremos nossa atenção agora na ressonância em Hartmut Rosa e em seu diálogo com os discursos de nossos entrevistados nas comunidades sustentáveis e tradicionais. A partir deste momento, começarei a apresentar algumas falas desses diálogos, que também darão origem aos retratos sociológicos.
No entanto, para falar de ressonância, é importante, antes de tudo, abordar uma das características centrais da sociedade hegemônica: a alienação. Essa corresponde a um modo de relação no qual não existe uma resposta significativa entre o sujeito e o mundo, constituindo uma marca da modernidade tardia. Trata-se de uma experiência de desconexão, indiferença ou até mesmo hostilidade em relação ao mundo.
Nas palavras de Rosa, o self (sujeito) e o mundo parecem estar relacionados de uma forma marcada pela indiferença ou até mesmo hostil. Ao retomarmos as falas dos nossos entrevistados, podemos encontrar algumas equivalências que expressam precisamente esse tipo de relação.
Por exemplo, Bárbara Leite afirma que “é verdade que o sistema capitalista escraviza pessoas, muitas vezes a horas e horas e horas a trabalhar, escraviza e deixa as pessoas, desculpe a expressão, estúpidas”. A sua fala evidencia uma experiência de alienação associada às condições de trabalho e à lógica do sistema capitalista.
Fátima Cabeleira, por sua vez, amplia essa crítica para além do capitalismo, referindo-se também à exploração dos recursos naturais e ao patriarcado. Em suas palavras, “há uma falta de poder e há uma falta de amor”.
Entre a experiência de desconexão e a possibilidade de uma resposta significativa ao mundo, encontramos também o testemunho de Tito Lopes. Ele afirma que “a forma como tratamos a natureza, a forma como tratamos uns aos outros, que tratamos quem tem uma ideia diferente do que quer que seja, a falta de tolerância, isso mexia muito comigo. Fazia-me pensar que não conseguiria viver no meio disto”. A fala de Tito revela um profundo desconforto diante de uma forma de relação com o mundo marcada pela intolerância, pela falta de cuidado e pela ausência de abertura à diferença.
Por seu turno, Daniela Velho relata uma experiência distinta, mas igualmente reveladora. Ela e o companheiro compraram uma propriedade numa zona rural e começaram a trabalhar no terreno. Inicialmente, Daniela envolveu-se de forma bastante intensa na tentativa de moldar e transformar o espaço de acordo com aquilo que imaginava que ele deveria ser. Essa tentativa de controle acabou por lhe provocar um grande mal-estar físico e emocional. Posteriormente, Daniela percebeu que o problema não estava propriamente no espaço, mas na sua própria relação com ele. “Depois entendi que não era o espaço em si, era a minha percepção sobre o espaço e sobre aquilo que eu queria impor a ele o que fazia com que eu ficasse doente”, diz.
Este relato nos permite aproximar a experiência de Daniela da noção de alienação apresentada por Rosa. A dificuldade não estava apenas nas características objetivas do mundo, mas na impossibilidade de estabelecer com ele uma relação aberta e receptiva. A tentativa de controlar o espaço e de submetê-lo às suas próprias expectativas acabou por interromper a possibilidade de uma relação de ressonância. A transformação ocorre quando Daniela reconhece essa dinâmica e passa a compreender o espaço não como algo a ser dominado, mas como algo com o qual é possível estabelecer uma relação de escuta e reciprocidade.
Acho que esta relação com a terra me trouxe muito sobre a minha relação com a vida e, também, sobre o meu lugar. O meu lugar na terra. Ora, a ressonância, em Rosa, é uma resposta à alienação, assim como à dominação, ao controle e à aceleração encontrados na modernidade. A ressonância representa uma interação responsiva entre o indivíduo e o mundo e tem quatro elementos principais. O primeiro é a afeição, no sentido de uma experiência que nos toca profundamente. Por exemplo, quando Cláudia Zerbedo diz que, quando estamos na natureza, é como se estivéssemos unidos ao todo. É quando estamos em paz.
O segundo elemento é a emoção, enquanto experiência de elevada eficácia e capacidade de resposta, em oposição a uma experiência puramente instrumental e racional. Muitas vezes, quando vejo uma coisa pela primeira vez, faço aquela cara de “Uau! Isto é espetacular!”. Foi assim, por exemplo, ontem, quando cheguei em casa e havia um pirilampo, que vocês chamam no Brasil de vagalume.
O terceiro elemento é a qualidade transformadora, plasmada nas palavras da cantora e compositora Ana Maria Pinto, que menciona: “Comecei a conectar-me mais com a natureza e com as forças da natureza: a força do mar, a força do rio, a força da floresta. Comecei a sentir isto, sim, através da música”. Ela produz música, e muita da música que cria é inspirada na natureza.
Por último, temos o momento intrínseco de indefinição, aquele momento de incontrolabilidade ou de não disponibilidade. Diria que, na minha perspectiva, é uma espécie de serendipidade. Isso aparece, por exemplo, na fala de Fátima Cabuleira. Ela estava em Trás-os-Montes, uma zona rural no interior de Portugal, na sua aldeia, na sua família, e foi para um lugar muito especial para ela: um promontório, com uma capelinha, de onde se via o rio ao fundo. Nisso, de repente, viu as montanhas que se estendem ao longo do rio a mexerem-se, como se revelassem que estavam vivas. Ora, isto foi um insight. Ela falou dessa experiência de uma forma comovida, algo que passou a fazer parte da sua interioridade. Nunca mais ela vai esquecer disto. As montanhas tocaram-lhe a alma e a partir disso ela começa a tocar-no-mundo, com respeito e cuidado, como se toca uma vida que se ama.
A ressonância, em Rosa, possui três eixos particulares. O primeiro é o eixo horizontal, que se refere às relações sociais. Sara Silva, uma das pessoas que entrevistei, diz que para ela “estar viva é estar sempre cada vez mais atenta e conseguir conectar-me com as pessoas para além. Sabes? Ter intimidade. Não física, não é esse tipo de intimidade. É estar em conjunto com as pessoas e com o mundo à minha volta”. João que também vive neste espaço explica que “os animais que habitam nosso entorno também fazem parte deste lugar, sendo parte também de nossa comunidade”.
Isto é muito interessante. Eu vi a conexão que tantas dessas ecoaldeias tinham com a fauna selvagem. Vi javalis passarem muito perto de mim, sempre num contexto de respeito. Aliás, alguns desses locais eram espaços onde não havia caça; a caça era proibida. E muita da fauna selvagem ia precisamente habitar esses lugares porque sabia que estava segura. Os animais não atacam os seres humanos que lá vivem. Lá, humanos e animais viviam em paz. Foi uma coisa muito interessante que assisti.
Por sua vez, o eixo diagonal, que se refere ao mundo das coisas e das instituições, é exemplificado por Joel Barros. Ele fala que não se trata apenas de nos conectarmos com algo, mas de estabelecermos uma relação com esse algo: ter uma relação com aquela árvore, com aquele espaço, com aquela almofada, com aquela pedra.
Para além destas falas, muitas das comunidades sustentáveis e internacionais de que participei tinham projetos educativos alternativos, com uma educação que procurava estabelecer uma relação com o mundo. Vou falar um pouco mais sobre isso adiante. Mas, antes, importa referir o eixo vertical, que traduz a experiência espiritual e estética e que está presente em muitas das falas dos nossos interlocutores.
Deixo aqui o exemplo do Tito. Ele estava num espaço privilegiado como aquele e viveu muitos anos num Parque Natural. Desculpem a interrupção, mas é importante referir que ele também é um ativista ligado a uma organização não governamental de defesa do ambiente em Portugal, em Coruche. Ele vivia e trabalhava dentro de um Parque Natural e dizia que estar num espaço privilegiado como aquele, em que acordava e, depois de vários anos, já tinha uma relação com as espécies ali. Os abutres vinham cumprimentá-lo, a raposa o visitava ali todas as noites. Esta relação prolongada com o lugar e com as espécies revela precisamente essa dimensão vertical da ressonância como uma experiência que ultrapassa a relação meramente funcional com o espaço e se transforma numa experiência espiritual, estética e profundamente significativa.
Toda essa relação com aquilo que posso dizer que é a minha igreja, minha catedral, encontra-se num espaço natural e selvagem. Ainda sobre o eixo diagonal material, e como já tinha referido, encontrei nas comunidades modelos de educação com metodologias que reúnem abordagens alternativas e holísticas, como a Waldorf, a Escola da Floresta, o neo-humanismo, o método Montessori e a inspiração em Agostinho da Silva, filósofo português. Encontrei também práticas de ensino doméstico e modelos livres dos sistemas formais de educação, muitas vezes em formatos mistos.
Estes ensinamentos valorizam as artes e os ofícios, o aprender pela experiência e a construção de relações éticas entre seres humanos e seres mais-que-humanos, como forma de aprender a tocar-no-mundo. Portanto, trata-se de uma educação verdadeiramente empática, muitas vezes orientada para a relação conosco próprios, com os outros e com o mundo. Agora, sobre o eixo vertical e existencial, trazendo algumas falas relacionadas com a ecoespiritualidade e a ecologia espiritual, algo que também surgiu de forma muito evidente e, aliás, transversal, neste meu trabalho de campo.
Nas comunidades, a ecoespiritualidade surgia sobretudo como uma forma de ecologia espiritual válida e híbrida, que integrava tradições cristãs, budistas, hinduístas, druidas e afro-brasileiras, bem como práticas como o yoga, a meditação vipassana. Surgiam também rituais de ayahuasca e temazcal, assim como correntes como o espiritismo, a antroposofia e filosofias diversas. Encontrei ainda referências às práticas dos Brahma Kumaris, nomeadamente ao seu Awakening Life Project (Projeto Despertar), bem como à radiestesia e à geobiologia.
Esta dimensão espiritual não se apresentava de forma única ou homogênea. Pelo contrário, assumia uma natureza plural, híbrida e transversal, reunindo diferentes tradições, práticas e formas de compreender a relação entre o ser humano, a natureza e aquilo que está para além do mundo material.
Em conjunto, essas expressões revelam uma busca de ligação entre interioridade, comunidade e natureza, orientada para o sagrado, o cuidado e interdependência entre todos os seres. É uma forma de tocar-no-mundo para além de uma dimensão que é mais palpável.
E como forma de tocar-no-mundo, de uma maneira muito mais profunda, deixo aqui algumas falas dos nossos interlocutores que entrevistei. Pedro Lopes diz que “sinto que existem espíritos das árvores, os espíritos do terreno, espíritos das rochas, espíritos que também lidam com a natureza, que ajudam a transformar este organismo vivo em algo realmente grandioso”. Estando ali, tentei respeitar ao máximo isso.
“Quando estou na natureza, é como se começasse a desenvolver algo em mim que me permite entrar em contato. A partir disso, sinto que toda a minha essência está na filosofia taoísta. É aquela que faz mais sentido para mim”, conta Patrícia Neto. Ao falar a respeito do assunto, Neto comenta que “os taoístas eram observadores da natureza. Essa conexão entre o estudo e a energia que nós já temos naturalmente, e o que precisamos para nos reencontrarmos em estados mais puros de conexão, é algo que nos permite encontrar o centro para que essa ligação possa acontecer”.
As entrevistas revelaram, de uma forma geral, uma vivência profundamente comunitária, marcada pela paz e pela reconexão com o todo. Para estas pessoas, estar na natureza significa participar num ritmo vivo e sagrado, em que o fluir das estações, os sons, os ciclos e a presença dos outros seres despertam sentimentos de gratidão, respeito e pertença. Esta experiência é descrita tanto através de uma linguagem religiosa como energética ou meditativa, mas surge sempre como uma forma de diálogo com uma inteligência maior, com a vida ou, simplesmente, com tudo aquilo que existe.
Uma das entrevistadas me disse que “há todo um lado emocional e espiritual que sempre experimentei de alguma forma na natureza, mas que quando era criança não tinha forma de ser acolhido, muito menos expressado, muito menos valorizado, muito menos visto”. Desde criança, ela já tinha esta percepção para além daquilo que é habitualmente considerado um sentimento normal. No entanto, nunca recebeu um feedback que acolhesse ou valorizasse verdadeiramente estas experiências. Em entrevista, ela me explicou que “podem ser entidades, podem ser seres, pode ser a própria biologia a comunicar-se. Sabes? E, nos dias de hoje, eu não tenho nem quero ter rótulos”. Ou seja, essa pessoa não procura definir ou nomear aquilo que experiencia. Sabe que existe, sente-o e percebe-o desde criança, mas não quer atribuir-lhe um rótulo específico.
Continuando mais um pouco, encontramos nas falas uma dimensão espiritual e ecológica da existência, marcada pela interdependência entre todos os seres e pela percepção da natureza como algo sagrado.
Várias correntes religiosas e espirituais aparecem como expressões de uma mesma sensibilidade. Meditar, cuidar e relacionar-se com o mundo natural, desde os animais às árvores, às pedras e aos restantes elementos da terra, é entendido como parte de uma vida mais simples, integrada e orientada pelo conhecimento e pela experiência espiritual. Por exemplo, Manuela Corrêa fala que escolheu ter “uma vida mais natural, uma vida mais simples, mais conectada com a natureza, mais integrada com a própria natureza, da qual nós fazemos parte”.
Somos seres espirituais, mas estamos vivendo uma experiência na matéria. Ainda no âmbito do eixo vertical existencial da ressonância de Rosa, encontramos uma dimensão que é uma constante na vida destas comunidades que é a arte. Ela é uma ação não apenas como forma de ativismo e de despertar consciências, mas também como elemento decorativo e, sobretudo, como forma de relação com o mundo.
Havia sempre o cuidado de construir através da arte e de projetar em consonância com os elementos materiais e espirituais dos territórios. Isto acontecia tanto na edificação de estruturas humanas, como as habitações, quanto na produção de alimentos biológicos. Havia, portanto, sempre uma espécie de desenho sagrado por trás destas práticas. Há sempre algo que emerge da arte, do trabalho artístico e da procura da beleza dentro das comunidades. Mesmo as paredes das casas muitas vezes eram espaços de criação artística e tinham esculturas integradas.
Portanto, a arte, a beleza e a estética estão sempre presentes nestas comunidades. No meu trabalho, também verifiquei que existe uma interseção entre a boa vida em Rosa e o conceito de bem-viver andino. Para Rosa, um sujeito terá uma boa vida se encontrar e preservar as condições materiais e existenciais que permitem a reafirmação interativa e periódica da ressonância existencial. Ou seja, viver de um modo ressonante.
A procura por uma vida boa através do paradigma da modernidade tardia é, para Rosa, equívoca porque pode conduzir à alienação. Por sua vez, o conceito de bem-viver, Sumak Kawsay, ou Suma Qamaña, associado à ideia de viver bem, vinculado à cosmovisão andina, sintetiza uma visão de sociedade sustentável assente na diversidade e na harmonia com a natureza.
É precisamente neste encontro entre estes conceitos que surge a ideia de uma vida boa como uma vida em relação, em equilíbrio e em conexão com o mundo. É nesse viés que Manuela Corrêa fala que “todos os dias agradeço a minha vida, a vida simples que tenho, poder acordar de manhã, olhar para esta natureza à minha volta e dizer assim: meu Deus, que abençoada sou por não ser mais escrava de um sistema falido”. Esta fala sintetiza, de forma muito clara, a procura por uma outra forma de viver de forma mais simples, mais conectada com a natureza e menos subordinada às lógicas de um sistema entendido como alienante.
Manuela era uma pessoa que vivia na cidade e tinha dois empregos muito bem remunerados. Tinha uma vida que, aos olhos de muitas pessoas, correspondia àquilo que é socialmente entendido como sucesso, a partir de sua estabilidade financeira, reconhecimento profissional e uma carreira consolidada. Certo dia, ela sofreu um acidente de automóvel que a fez repensar toda sua vida. Percebeu que o modo que estava vivendo não correspondia verdadeiramente com à vida que queria viver.
Foi assim que encontrou uma nova morada no centro de Portugal e começou a adquirir algumas casas. A partir daí, criou uma comunidade chamada Aldeia de Cabrum. Hoje, é uma aldeia belíssima, com uma comunidade muito interessante, rodeada por uma natureza que constitui um exemplo de uma outra forma de viver. São pessoas que alteraram profundamente o seu estilo de vida para torná-lo mais sustentável. Embora, como veremos, esta seja uma palavra complexa e, muitas vezes, equívoca.
Por sua vez, Cláudia Azevedo considera que a natureza nos proporciona aquela sensação de que está tudo bem, independentemente das nossas emoções e dos nossos hábitos. Ela própria dizia que as árvores eram uma referência para ela. Está sempre ali, não é? As estações passam e ela continua firme, segura. E transmite-nos, também, essa sensação de segurança.
Sílvia Barbosa comenta que a natureza é generosa e diz que procura trabalhar nessa mesma frequência, na frequência da natureza e que isso se aplica às relações com as pessoas, com os animais e com tudo aquilo que está à nossa volta. Ela ainda traz a seguinte questão: o que realmente precisamos para sermos felizes? Água? Comida? Abrigo? Amor? Energia? Ser aceitos como somos sem máscaras? No fundo, andamos muitas vezes à procura de algo que nos afasta da nossa verdadeira essência.
Existe uma ligação forte entre a ressonância e a natureza. A natureza pode ser entendida a partir de duas dimensões. Por um lado, a nossa natureza interna que é a consciência, a alma, o espírito, como quiserem chamar. Por outro, a natureza enquanto realidade geradora e sustentadora da vida, aquilo a que, de forma talvez errônea, chamamos natureza externa.
Embora, na realidade, não exista uma separação absoluta entre o externo e o interno. Se queremos ultrapassar a alienação, temos de reconhecer que somos parte de um todo. Poderia trazer aqui muitas das falas dos nossos interlocutores, uma vez que muitos deles abandonaram a vida urbana para procurar uma maior proximidade com a natureza que Rosa expressa bem esta ideia. A natureza, em particular, é experienciada como uma realidade última, abrangente e responsiva. Ouvir a voz da natureza é também uma prática de cuidado e de cura.
Mas esta relação manifesta-se igualmente através de muitas rotinas e práticas cotidianas. Muitas pessoas afirmam, regularmente, que precisam de ir para a floresta, para as montanhas, para o oceano ou para o deserto para se encontrarem e sentirem a si próprias. Acreditam que só conseguem ouvir verdadeiramente a sua própria voz quando, no silêncio, conseguem escutar aquilo que a natureza lhes comunica. Tal como acontece no caso da oração, há aqui uma espécie de reconfiguração da nossa natureza interna a partir da relação com uma realidade externa. Ou seja, é através do encontro com o mundo que, paradoxalmente, conseguimos reencontrar-nos conosco próprios.
O encontro entre a ressonância e utopia surge a partir da perspetiva do pós-crescimento. Rosa fala que uma forma mais ressonante de relação da modernidade com o mundo não pode ser alcançada sem substituirmos a maquinaria cega da exploração capitalista e as práticas que condicionam as decisões sobre a forma, os meios e os objetivos da produção, retomando como referência os critérios de uma vida bem-sucedida.
Já que falamos de sustentabilidade, trago aqui, de uma forma muito breve, uma objeção forte que encontrei entre os nossos entrevistados relativamente a este conceito. A partir delas, eles deixam algumas propostas muito interessantes em torno de um outro conceito que surgiu deste trabalho e que deu origem a um artigo que, neste momento, está em preparação. Para estas pessoas, sustentabilidade tornou-se um chavão, uma forma de greenwashing, ou seja, é entendida como uma tentativa de manter as coisas tal como estão, algo que reflete muitas vezes, numa sociedade doente. E há, entre os entrevistados, um claro cansaço em relação à utilização desta palavra.
Silvia, por exemplo, comenta que não quer comentar nada disso e que está “farta da palavra. Estou farta que as pessoas usem essa palavra”. Estamos, portanto, perante a uma espécie de reação crítica ao próprio conceito de sustentabilidade. A partir daqui, os entrevistados fornecem alguns elementos muito interessantes para a construção de um novo conceito, que denomino de pós-sustentabilidade, representado nesta pirâmide.
Não vou particularizar nenhum dos seus elementos, como disse há pouco, porque não é esse o objetivo desta sessão. Mas todos estes elementos que foram emergindo do trabalho de campo refletem a ideia de ressonância, especialmente através do conceito de regeneração, de que vou falar agora um pouco.
A regeneração vai para além da sustentabilidade. Implica uma transformação ativa da relação com a terra, com o solo, com a natureza e com a sociedade. Em vez de apenas preservar ou manter, propõe-se restaurar, enriquecer e tornar mais férteis os sistemas ecológicos, sociais e comunitários. Trata-se de criar abundância, biodiversidade, tranquilidade e melhoria contínua, deixando a comunidade e o planeta em melhores condições do que aquelas em que os encontramos.
Resumidamente, este conceito de pós-sustentabilidade, que emerge deste trabalho de campo, procura ultrapassar a lógica da sustentabilidade tradicional. Surge como resposta à destruição da natureza, à alienação produzida pelas sociedades hegemônicas e, também, ao esvaziamento do próprio conceito através de práticas de greenwashing. Sabemos que muitas empresas afirmam desenvolver práticas sustentáveis, enquanto continuam a apresentar níveis muito elevados de emissões e poluição. Fazem uma pequena ação ambiental e, a partir daí, passam a apresentar-se como empresas sustentáveis.
A pós-sustentabilidade procura, portanto, uma abordagem integrada e dinâmica das questões ambientais, orientada por princípios éticos e espirituais ecocêntricos e pela ideia de interdependência com a teia da vida. Mais do que conservar o futuro, propõe-se a cocriação de técnicas, tecnologias e estilos de vida capazes de regenerar os sistemas ecológicos e sociais. A grande maioria dos entrevistados apresenta, neste sentido, uma visão ecocêntrica.
O ecofilósofo Warwick Fox explica que, quando nos damos conta de que estamos unidos ao todo, a separação desaparece e passamos a identificar-nos mais amplamente com o mundo de que fazemos parte. Neste sentido, o próprio desdobramento do eu torna-se cada vez mais ligado a outras identidades e formas de vida. É, portanto, uma ampliação da consciência, em que deixamos de nos perceber como indivíduos isolados e passamos a reconhecer-nos como parte de uma rede mais ampla de interdependência.
O resumo da ideia crítica propõe substituir a lógica neoliberal por uma perspectiva baseada na escuta e na resposta, apresentada como uma alternativa à alienação produzida pela racionalidade capitalista, que gera tanto relações instrumentais e de indiferença quanto atitudes de repulsa em relação ao mundo. Isso pode ser percebido em uma sociedade cada vez mais conectada aos equipamentos tecnológicos, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais desconectada das próprias pessoas e dos demais seres vivos. Estamos mais próximos das máquinas e mais distantes de uma relação com a vida e com a natureza.
Nesse sentido, essa perspectiva se aproxima do conceito de bem viver, ao privilegiar a qualidade das relações e uma vida em equilíbrio, em vez da acumulação de recursos. Ao mesmo tempo, busca fortalecer a conexão entre o nosso mundo interior e o mundo exterior, incluindo a natureza. Essa reconexão surge como uma condição necessária para romper a barreira de distanciamento que construímos, permitindo não apenas uma reconciliação conosco mesmos, mas também a regeneração do ambiente e da natureza. Nesse sentido, podemos destacar a fala de Alfredo Sendim, segundo a qual “temos uma crise profunda de relacionamento com a vida, que é seguramente responsável pela crise ecológica”.
Por todas essas crises que estamos vivendo, perdemos grande parte da nossa sensibilidade e enfraquecemos as relações que tínhamos com os demais seres. Isso representa um empobrecimento brutal da nossa existência. Em algum momento, os seres humanos se desconectaram desse todo, ou talvez tenham criado a ilusão de que poderiam se desconectar. Para mim, uma metáfora que ajuda a compreender essa condição é a de uma célula que faz parte de um corpo. Ela pertence ao todo, mas pode estar ali, isolada e lutando, justamente porque tem a ilusão de que não faz parte desse conjunto. Acredito que a nossa condição humana, neste momento, seja muito semelhante. Precisamos, pois, de uma regeneração da nossa relação com a Terra.
Nesse sentido, as comunidades sustentáveis e intencionais, como a Roça Nossa, surgem como um fio vibrante que articula transformação pessoal e coletiva. Nelas, o estar no mundo se transforma em uma disposição ética e sensível de relação com aquilo que nos cerca, de tocar-no-mundo, abrindo espaço para uma crítica prática da alienação e para a reconstrução do sentido da existência.
O conceito de tocar-no-mundo em Hartmut Rosa pode ser compreendido como uma forma de relação em que o sujeito não busca dominar o mundo, mas se permite ser afetado por ele e responde de maneira recíproca. As comunidades sustentáveis e intencionais incorporam essa perspectiva por meio de práticas de cuidado, cooperação e escuta da natureza. Os vínculos com a terra, com os outros e consigo mesmo deixam de ser instrumentais e passam a assumir um caráter transformador.
Essa experiência dialoga diretamente com a mudança proposta pelo IPBES, que enfatiza a necessidade de transformar estruturas e práticas, incluindo paradigmas, metas e valores, para conter a perda da biodiversidade, enfrentar a lógica de domínio sobre a natureza e promover relações recíprocas, justas e adaptativas entre as sociedades humanas e o mundo natural.
Nesse sentido, as comunidades intencionais podem funcionar como laboratórios sociais de mudança, pois materializam, em pequena escala, práticas capazes de reduzir a alienação e de abrir novos caminhos para enfrentar e evitar o colapso ecológico e climático.
IHU – Como é possível realizar a conscientização ecológica e a educação das novas gerações, mesmo diante da crescente lógica de consumo impulsionada pelas redes sociais e plataformas de consumo digital?
Jorge Moreira – Não sei se tenho uma resposta definitiva para essa questão. Afinal, essa é uma resposta que todos procuram. O que considero é que a educação tem um papel muito importante na formação e na construção da consciência, tanto das gerações atuais quanto das futuras. O problema é que a educação atual acaba por reproduzir o status quo da nossa sociedade. E estamos falando de uma sociedade insustentável e exploradora; de certa forma, a própria educação acaba refletindo e reproduzindo essas características. Então, como romper esse ciclo de educação, formação e reprodução de uma lógica de exploração? Como mudar essa mentalidade? Não é fácil.
O que tenho observado é que, muitas vezes, as pessoas são inspiradas por outras pessoas, por documentários ou por livros e, a partir dessas experiências, passam a questionar seus próprios modos de vida. Algumas mudam seus hábitos, aproximam-se da natureza, vão viver em áreas rurais ou passam a ter mais cuidado com aquilo que compram, produzem e consomem. São mudanças que envolvem uma atenção maior aos próprios estilos de vida e às consequências das escolhas que fazemos.
Ainda assim, não é um processo simples. Para além das redes sociais e da escola, que têm modelado nossa sociedade atual, não sei exatamente como podemos mudar esse cenário. Talvez as pessoas ativistas tenham um papel importante nesse processo, ao incentivar e inspirar mudanças.
Espero também que meus relatos sociológicos sejam publicados depois em um livro e que, ao lê-los, outras pessoas possam se reconhecer nessas experiências, inspirar-se e transformar suas próprias atitudes. Afinal, muitas das pessoas que mudaram seus estilos de vida também foram inspiradas por outras que fizeram esse caminho antes delas.
IHU – Como iniciativas locais de ética ecológica podem se expandir em escala geográfica, tornando-se um contraponto ao mundo consumista e destrutivo que nos envolve?
Jorge Moreira – Essa é mais uma pergunta muito interessante que, de certa forma, se cruza com a primeira. Penso que algumas dessas universidades, no âmbito acadêmico, têm desenvolvido trabalhos muito interessantes. Em Tamera, por exemplo, há vários investigadores analisando diferentes aspectos da vida e das práticas desenvolvidas nesses locais, desde questões relacionadas à engenharia e à gestão da água até as formas como as pessoas se relacionam entre si e com os elementos da comunidade. Esse conhecimento acaba chegando ao público por meio de artigos científicos, documentários e notícias, dando visibilidade a outras realidades e mostrando que existem formas mais sustentáveis de viver.
Não se trata de um mundo perfeito, que também tem seus problemas, mas são experiências que representam importantes exemplos de mudança de paradigma. Precisamos olhar para esses exemplos e tentar compreender por que essas pessoas decidiram mudar seus estilos de vida. É isso que estou procurando fazer ao conhecer essas experiências e entender o que levou essas pessoas a fazer essas escolhas, porque essas histórias podem inspirar outras pessoas.
O que observei nas comunidades é que, muitas vezes, as pessoas não tomaram essa decisão espontaneamente. Em muitos casos, algum acontecimento em suas vidas as levou a repensar suas escolhas tal como um problema de saúde, um colapso financeiro, uma grande desilusão com a vida ou com o sistema social em que estavam inseridas. Em outros casos, foram inspiradas por outras pessoas.
Algumas, por exemplo, foram influenciadas por movimentos dos quais seus pais participavam. Pelo menos dois dos entrevistados estiveram na Inglaterra e, antes disso, nunca tinham tido contato com questões relacionadas à sustentabilidade ou ao meio ambiente. Lá, conheceram líderes e ativistas, começaram a se interessar pelo tema, aprofundaram seus conhecimentos e passaram a estudar essas questões. Quando retornaram a Portugal, alguns foram em busca dessas comunidades e chegaram a fundar suas próprias comunidades, enquanto outros passaram a viver em comunidades que já existiam.
Acredito que essa dinâmica esteja crescendo. Em Portugal, por exemplo, há cada vez mais pessoas conhecendo essas comunidades e se interessando por processos de transformação social, por novas formas de fazer política e pelo enfrentamento da crise ecológica. Mas, sem uma divulgação mais ampla dessas experiências, é difícil que elas alcancem e inspirem mais pessoas.
Muitas vezes faço educação ambiental em escolas. Procuro levar esses exemplos para os estudantes, estimulando-os a pensar e mostrando que existem alternativas ao nosso modelo consumista e à lógica de exploração dos seres humanos, dos animais e da natureza. Por isso, acredito que essas histórias precisam ser divulgadas, podendo inspirar outras pessoas a fazer mudanças semelhantes.
E, mais uma vez, voltamos à questão educacional. A educação é muito importante porque também é uma forma de refletir sobre a vida e de aprender a viver. Muitas das escolas que existiam dentro dessas comunidades tinham justamente essa dimensão. Não se limitavam ao ensino de matemática, português, inglês, geografia ou biologia. Havia também uma preocupação em refletir sobre como nos relacionamos conosco mesmos, com os outros e com a natureza.
Era, portanto, uma abordagem mais profunda daquilo que significa tocar-no-mundo e compreender a nossa relação com tudo aquilo que nos cerca. Há ainda um aspecto que achei particularmente interessante, o de que algumas pessoas que viviam nas cidades decidiram mudar seu estilo de vida depois de terem filhos. Queriam proporcionar aos filhos uma educação diferente, mais próxima da natureza e baseada em outros valores. Encontrei três ou quatro casos em que o nascimento dos filhos foi justamente o fator que levou essas pessoas a repensarem suas escolhas e a buscar uma outra forma de viver.
IHU – Se somos parte da natureza, como reconhecer nossa profunda conexão com tudo aquilo que sustenta a vida e, a partir disso, repensar nossa forma de existir?
Jorge Moreira – Acontece que essa conexão se perdeu pelo sentimento de possuir, de ter e de transformar. Publiquei recentemente um artigo sobre a esperança que aborda um pouco essas questões. O ter e o possuir são sentimentos cada vez mais marcantes na nossa sociedade. Muitas vezes, o ter acaba sendo mais importante do que o ser. Existem várias questões relacionadas a isso, algumas no âmbito da filosofia e da psicologia, mas também podemos encontrar reflexões nas filosofias orientais. Nelas, percebemos que a desconexão que muitas vezes temos com a natureza acontece porque criamos um fosso entre nós e aquilo que, na realidade, nos constitui.
Existe aquilo que muitos filósofos chamam de uma percepção equivocada da realidade. Na verdade, não conseguimos viver sem tudo o que há na natureza, não consigo viver sem a água que preciso beber para me hidratar, sem os alimentos, sem as bactérias que existem dentro do meu corpo e no meu intestino para processá-los e tantos outros elementos. Portanto, tudo isso faz parte de mim. É claro que existem algumas membranas, algumas barreiras ou cascas que nos separam, mas essa ideia profunda de estarmos separados da natureza muitas vezes é uma percepção equivocada da nossa própria realidade.
Quando algumas pessoas vivenciam estados alterados de consciência, conseguem perceber que são o todo, que são a própria natureza, que são parte do mundo. Elas conseguem, de certa forma, alargar a sua consciência para integrar esse mundo. Algo que, na linguagem de Hartmut Rosa, é o tocar-no-mundo.
Afinal, por que vou possuir se já sou? Na ecologia profunda, quando chegamos ao ponto de integrar a natureza como parte de nós, passamos a defendê-la de uma forma natural, porque somos a própria natureza. Não vamos querer excluir ou destruir aquilo que somos. Essa preocupação surge naturalmente dentro de nós. É claro que vivemos numa sociedade altamente materialista, marcada pelo paradigma de que todos devem ter um automóvel, uma casa, uma conta bancária, roupas, smartphones e, se possível, tudo de última geração. Existe a ideia de que tudo isso nos proporcionará felicidade. Mas, na realidade, essa felicidade é efêmera. Podemos adquirir determinado equipamento e sentir uma pequena satisfação, uma pequena felicidade, mas, pouco tempo depois, aquilo já não nos diz nada.
É claro que precisamos trabalhar essa questão. Essa transformação não é fácil e deveria começar nas escolas. É, sobretudo, uma evolução da própria consciência.
IHU – A partir das reflexões e dos resultados desta pesquisa, o senhor também fez uma autoentrevista, voltando o olhar para si mesmo? O que esse exercício revelou sobre a sua própria relação com a natureza?
Jorge Moreira – É uma excelente pergunta, não é? Quando comecei a optar por fazer esse tipo de entrevista, de certa forma, também passei a me rever em muitas das pessoas entrevistadas. Sei que tenho muitas coisas a melhorar, mas fui alterando os meus estilos de vida e a minha percepção sobre o mundo, sobre aquilo que me rodeia, sobre os outros, sobre os animais e sobre a natureza. É um processo que começou desde que eu era pequeno e que, embora já tivesse alguma sensibilidade, não via nem tinha a consciência que tenho agora.
Hoje, por exemplo, tenho cuidado com aquilo que compro, com aquilo que produzo, com os transportes que utilizo, com os locais que frequento e até com as roupas que compro. Muitas vezes, opto por adquirir roupas de segunda mão. Portanto, existe sempre esse cuidado. Não vou dizer que sou perfeito, porque não sou. Também não vivo numa ecoaldeia. Vivo numa zona relativamente mista, próxima da cidade, mas também próxima do campo. Ao mesmo tempo, procuro cuidar dos meus animais e também dos animais selvagens que habitam a minha propriedade. Tenho, portanto, esse cuidado presente no meu cotidiano.
Mas fazer uma autoentrevista é algo que faço todos os dias, a toda hora. As perguntas estão sempre presentes. Perante cada situação, pergunto a mim mesmo como é que devo agir? O que é que posso fazer? É uma questão de consciência. Essa questão está muito presente em mim. Naquilo que faço, naquilo que compro, existe sempre essa pergunta por trás.
Então, o que uma autoentrevista revelaria sobre mim? Não revelaria um ser perfeito, porque ninguém é perfeito, nem mesmo as pessoas que entrevistei. Revelaria, talvez, uma pessoa que procura ter muito cuidado na sua relação com a natureza, com os outros seres e com os demais seres vivos, que considero nossos irmãos nessa vivência terrestre, como mencionei durante o trabalho.
IHU – Pode nos falar das ecoaldeias e comunidades urbanas em transição, e em que lugares do mundo e contextos surgem? Elas têm como ser suficientemente duradouras em países onde a prioridade é o capital? É possível viver dentro desse bem-viver em um ambiente urbano?
Jorge Moreira – Muito bem. Há algumas ecoaldeias históricas, como a Findhorn na Escócia, que acabaram se espalhando bastante por todo o mundo. São comunidades que começam a questionar o modelo capitalista, o modelo dominante e o modelo de exploração em que vivemos nas cidades. São, normalmente, pessoas que não se reveem nesse modelo, que possuem uma sensibilidade mais apurada e que desejam viver de forma mais próxima da natureza e dos outros seres vivos.
Para viver mais perto da natureza, normalmente essas pessoas procuram sair dos grandes centros urbanos. É por isso que muitas ecoaldeias se estabelecem em áreas rurais. Algumas surgiram há muitos anos e continuam vivas e prosperando; outras são mais voláteis, aparecem e desaparecem depois de algum tempo. Em Portugal, por exemplo, existem várias ecoaldeias que surgiram e acabaram desaparecendo, enquanto outras permanecem há muitos anos. Talvez a mais importante seja a Tamera, que existe há cerca de 30 anos. Não sei se é a mais antiga, mas certamente é uma das mais importantes. Há, inclusive, uma fila de espera para entrar na comunidade. Ao longo do tempo, houve algumas transformações, mas não é qualquer pessoa que pode simplesmente entrar. Existe um processo de seleção e integração para que alguém possa pertencer à comunidade.
Há também pessoas que não conseguiram se adaptar à dinâmica dessas comunidades e acabaram formando comunidades satélites. Ao redor de Tamera, por exemplo, existem várias comunidades desse tipo. São pessoas que conheceram o paradigma de Tamera, consideraram-no interessante, mas perceberam que havia algumas particularidades que gostariam de desenvolver de outra maneira. Então, criaram comunidades próprias, mantendo alguns princípios, mas acrescentando outras tendências e formas de organização.
É claro que cada comunidade possui as suas peculiaridades. Isso também é reflexo das pessoas que vivem nelas, dos seus modos de vida e das suas formas de compreender o mundo. Algumas têm uma dimensão mais religiosa ou espiritual; outras, embora também possuam essa dimensão espiritual, não a manifestam de forma tão explícita. Há, portanto, um pouco de tudo.
A questão da volatilidade também está presente. Conheço algumas comunidades que surgiram e acabaram por colapsar depois de algum tempo, porque existem problemas sociais que precisam ser enfrentados e nem sempre é fácil viver em comunidade. Posso citar o caso de uma comunidade que estudei e que precisou reiniciar o seu processo há alguns anos. Ela havia sido formada inicialmente por pessoas muito diferentes, mas algumas começaram a desestabilizar a própria comunidade. Foi necessário fazer uma espécie de reset e começar quase do zero, estabelecendo critérios mais cuidadosos para a entrada de novos membros. Afinal, aparece todo tipo de pessoa nessas comunidades, inclusive pessoas que precisam de acompanhamento psicossocial ou de algum tipo de terapia.
As ecoaldeias ou ecovilas estão hoje espalhadas praticamente por todo o mundo. Portugal, por exemplo, é um cluster de ecoaldeias e ecocomunidades. Isso também acontece porque o país ainda possui áreas de natureza relativamente preservada e uma certa ruralidade. Muitas pessoas vindas de países do centro da Europa encontraram em Portugal essa ligação com uma natureza ainda mais selvagem e decidiram criar comunidades, comprar terrenos ou revitalizar aldeias antigas, algumas delas abandonadas.
Já os movimentos de transição apresentam algumas diferenças. Também são movimentos voltados para comunidades sustentáveis e intencionais, mas não é necessário que as pessoas vivam juntas. Cada pessoa pode continuar vivendo na sua própria casa, inclusive no meio de uma cidade, mas adotar, no seu cotidiano, práticas diferentes e mais sustentáveis. Essas pessoas podem se reunir em pequenas associações ou em espaços onde desenvolvem atividades comunitárias. A agricultura comunitária é um exemplo. Nessas comunidades existem hortas comunitárias, iniciativas de reparação de equipamentos elétricos e eletrônicos ou de bicicletas, promoção da mobilidade suave, como o uso da bicicleta e a caminhada, além da criação e recuperação de espaços verdes dentro das próprias cidades, permitindo que as pessoas tenham maior contato com a natureza. Também há iniciativas de ajuda mútua, como a produção de alimentos para posterior distribuição às pessoas mais necessitadas.
Muitas dessas pessoas que vivem nesses espaços também adotam determinados hábitos relacionados à alimentação. Algumas são vegetarianas e outras veganas. Aliás, a maior parte das pessoas que encontrei nas ecocomunidades eram vegetarianas e algumas eram veganas. Embora também existam comunidades em que as pessoas comem de tudo, a tendência que observei era mais voltada para o vegetarianismo.
E como essas comunidades lidam com o capitalismo? De certa forma, elas procuram ser um antídoto ao capitalismo. Não querem estar submetidas completamente à lógica capitalista; procuram maior liberdade. O capitalismo prende, obriga e exige que as pessoas trabalhem constantemente. Nessas comunidades, as pessoas continuam trabalhando, mas podem trabalhar apenas quatro ou cinco horas por dia e o restante do tempo é dedicado a usufruir da vida, algo para o qual muitas vezes não temos tempo no mundo hegemônico.
Ter tempo para ler, estar com a família, conversar com outras pessoas, divertir-se, criar arte e simplesmente viver são aspectos importantes dentro dessas ecocomunidades. Tudo isso surge como uma espécie de antídoto ao capitalismo. É, no fundo, o contrário da alienação, pois procuram reencontrar-se consigo mesmas, com os outros e com a própria natureza.
É claro que continuam vivendo dentro de um mundo capitalista e não deixam necessariamente de comprar determinadas coisas. Mas procuram escapar, sempre que possível, daquilo que consideram desnecessário. Os movimentos de transição seguem uma lógica semelhante. São movimentos que muitas vezes acontecem dentro das cidades, mas procuram desenvolver práticas que escapem à lógica do domínio, da subjugação e da dependência característica do modelo capitalista.
IHU – É possível viver bem e escolher habitar o mundo como sendo natureza dentro das zonas urbanas?
Jorge Moreira – Sim, é possível. Como estava dizendo, cada um de nós, mesmo vivendo na cidade, pode fazer escolhas diferentes e adotar práticas mais conscientes.
Podemos, por exemplo, nos fazermos algumas perguntas quando vamos comprar coisas ou quando sentimos que precisamos de algo. Precisamos nos questionar se realmente precisamos disso. Se a resposta for sim, devemos nos perguntar se realmente necessitamos de algo novo ou podemos comprar algo usado.
Se for possível comprar usado, melhor. Além de economizar dinheiro, contribuímos para que um objeto seja reutilizado. Dependendo do equipamento, isso também pode reduzir o impacto ambiental, pois o produto deixa de ser descartado, enviado para um aterro ou encaminhado para a reciclagem, podendo continuar a ser utilizado. Quando realmente é necessário comprar algo novo, devemos nos questionar se tal equipamento, roupa ou se o objeto resulta de exploração humana, envolve exploração animal ou se é feito por meio da exploração da natureza, levando sempre em consideração como foi feito o processo de produção.
Hoje, temos muita informação disponível e podemos utilizar esse conhecimento para fazer escolhas mais conscientes e sustentáveis. Trata-se de procurar viver de uma forma mais integrada e em maior ressonância com a própria vida e com aquilo que nos rodeia.
Portanto, é possível viver bem mesmo em uma zona urbana. Podemos procurar fugir um pouco do ruído e da aceleração da cidade, encontrando espaços verdes onde seja possível observar os pássaros, as flores e as árvores e, dessa forma, restabelecer o contato com a natureza. Esse também pode ser um caminho para o bem viver na cidade, construindo uma relação com um espaço urbano mais equilibrado.
Algumas zonas das cidades são realmente difíceis, marcadas pelo excesso de ruído, pela aceleração e pelo ritmo intenso. Para quem vive nesses lugares, pode ser necessário procurar espaços mais tranquilos ou deslocar-se, pelo menos durante parte do dia, para ambientes mais verdes, que permitam uma maior conexão e ressonância com a nossa própria existência e com a vida.
IHU – Considerando a falta de visibilidade dada às questões ambientais, especialmente aos impactos das rodovias sobre a fauna silvestre, e a ideia de que existe uma falta de amor nas relações produzidas pelo capitalismo, como uma investigação que amplia o olhar para diferentes pessoas, experiências e formas de relação com a natureza pode revelar aquilo que permanece invisível e contribuir para repensarmos nossa relação de cuidado e pertencimento com os outros seres vivos?
Jorge Moreira – O amor é realmente algo que talvez seja a coisa mais importantes do mundo. Mas também existem muitas ideias falsas e erradas sobre o que é o amor. Por isso, seria necessário, antes de tudo, definir o que entendemos por amor. De uma forma mais profunda, podemos compreendê-lo como aquilo que liga as pessoas e conecta o próprio universo. Costumo dizer que o amor é o “cimento do universo”, aquilo que nos liga uns aos outros e nos liga à natureza. Ele está presente nas relações entre os átomos, entre as pessoas, na relação com a natureza e até na dinâmica das estrelas.
O próprio Sol, ao irradiar para a Terra toda a energia necessária à existência da vida, realiza, de certa forma, um ato de amor. Se somos expressões desse amor, então não deveria haver espaço para guerras ou exploração. O ciúme, por exemplo, não é amor. O amor é algo muito mais profundo.
Com um amor verdadeiro e profundo, não haveria espaço para guerras, exploração ou para um modelo de capitalismo baseado na exploração. Poderíamos pensar em outras formas de organização econômica, baseadas na partilha e na solidariedade, em que as pessoas mais vulneráveis fossem amparadas coletivamente. Em vez de termos os mais ricos acumulando cada vez mais riqueza e poder enquanto exploram aqueles que estão em situações mais frágeis, poderíamos construir relações baseadas no cuidado e na cooperação. Isso nos leva novamente à questão do ter e do ser. A lógica da acumulação e da exploração está justamente relacionada à valorização do ter em detrimento do ser.
A questão dos animais selvagens também é algo que me preocupa muito. Em Portugal, essa realidade não é diferente. Temos, por exemplo, o lince-ibérico, uma espécie que esteve entre os mamíferos mais ameaçados do mundo. Portugal e Espanha realizaram um grande esforço para desenvolver projetos de reintrodução dessa espécie na natureza. No início, porém, surgiram alguns problemas, entre eles a morte de alguns animais por atropelamento.
Nos locais onde se identificou uma maior incidência desses acidentes, foram instaladas estruturas para impedir a passagem dos animais pelas estradas. Existem diferentes soluções. Em alguns lugares, são construídas passagens por baixo das autoestradas; em outros, são construídas passagens por cima delas. São os chamados corredores ecológicos, que permitem conectar os habitats e possibilitam que os animais atravessem as estradas com maior segurança.
O ideal seria que essas questões fossem consideradas desde o início, no momento em que começamos a planejar e construir as vias. No entanto, isso envolve custos e investimentos, e muitas vezes a lógica econômica acaba se sobrepondo às necessidades dos animais e da própria natureza. Ainda assim, atualmente já começamos a perceber uma maior preocupação com a criação desses corredores ecológicos, tanto por baixo quanto por cima das estradas.
Mesmo com essas iniciativas, milhares de animais continuam morrendo atropelados em Portugal. É uma situação muito triste. Alguns animais que são atropelados, mas ainda estão vivos, são encaminhados para centros de recuperação de fauna selvagem. Aqui no Porto, por exemplo, existe o Parque Biológico de Gaia, que recebe alguns desses animais. Existem também outros centros espalhados pelo país.
Há casos em que conseguimos salvar animais atropelados. Em outras situações, quando chegamos ao local, já não há mais nada a fazer. Por isso, talvez uma das coisas mais importantes seja dar visibilidade a esse problema e não permanecer em silêncio.
É fundamental falar sobre essa realidade e pressionar para que sejam desenvolvidas políticas públicas de proteção aos animais. Afinal, muitos desses seres existem na Terra há muito mais tempo do que a própria espécie humana e, por isso, merecem todo o nosso respeito e cuidado.