O "consumismo egocêntrico" nos separa de todos, até de nós mesmos. Artigo de Franco Arminio

Foto: Jakub Żerdzicki/Unplash

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20 Agosto 2026

"O consumismo egocêntrico é a intersecção do consumismo com uma transição do real para o irreal da vida da terra para a terra sem vida do mundo digital", escreve Franco Arminio, poeta italiano, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 15-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Hoje, é difícil definir a situação de uma pequena localidade, quanto mais de uma nação inteira. Vou me aventurar a nomear o mal italiano. Eu o chamaria de "consumismo egocêntrico". Pier Paolo Pasolini tinha falado muito e com maestria sobre o consumismo. Ele próprio acabou sendo parado, vítima em certo sentido, do consumismo: o consumismo sexual. A dissipação do mundo, impulsionada pela engrenagem produção-consumo, continuou em frente e tornou-se onipresente. Acredito que afeta o mundo inteiro, mas eu só conheço um pouco da Itália, e é sobre a Itália que quero falar.

Parece-me que está enganado quem avalia nossos problemas pela balança direita-esquerda. Não creio que qualquer um dos lados seja culpado ou mereça crédito pelo estado de nossa nação. A sociedade que vemos não é moldada pelas classes dirigentes; pelo contrário, as classes dirigentes parecem moldadas por uma "sociedade-medusa", na qual cada indivíduo busca conquistar seu próprio espaço, em vez de tentar entender o que existe dentro de cada espaço.

Seja cidade ou vilarejo, no Norte ou no Sul, o sentimento predominante é sempre de um lugar inadequado, habitado por seres humanos em desconforto. O consumismo egocêntrico é a intersecção do consumismo com uma transição do real para o irreal da vida da terra para a terra sem vida do mundo digital.

Na época de Pasolini, o consumismo se confrontava com uma estrutura social ainda forte. Existiam partidos políticos e comunidades; os interesses eram claros, assim como quem os defendia e os obstaculizava. Em certo momento, algo se rompeu; cada um se virou para a sua própria vida e se viu diante de seu próprio fantasma, pois uma vida que tenta ser tudo acaba, no fim das contas, não sendo nada.

O próprio ato de querer transformou-se em um já não sei o que quero, do que preciso, com quem devo estar, quem devo evitar. As relações de amor e de amizade entraram em um ciclo de multiplicação que dissipa. Não sei onde você está; você não sabe onde estou. Sempre nos encontramos na mesma encruzilhada: o tédio ou o rancor. Relações que se esvaziam à medida que se preenchem.

Da modernidade "líquida" de Bauman à sociedade "gasosa": cada um vive em seu próprio balão de ar; já não habitamos mais a Terra, nem compartilhamos os mesmos espaços. O consumismo egocêntrico nos separa de todos e até de nós mesmos; tornamo- nos uma criatura ambígua, não está claro se somos o que dizemos ser ou o seu oposto, se somos os promotores de nós mesmos ou os roedores do nosso ser que se afinou até a inconsistência: certamente não serão as mercadorias com que nos adornamos que nos conferirão realidade.

Corremos o risco de nos tornar como uma árvore de Natal em que a própria árvore desapareceu, restando apenas os enfeites.

Evocar o fascismo em uma situação como essa é como travar uma guerra de bolas de neve no deserto. O verdadeiro mal é a mercantilização de tudo, até mesmo das almas, e um processo dessa natureza não pertence nem à direita nem à esquerda; é o capitalismo, que é ao mesmo tempo feroz e abúlico. Não há planos para conduzir o mundo em uma direção em detrimento de outra. Mesmo a deriva autoritária de Trump parece motivada mais pelo desejo de atenção do que por qualquer agenda política ponderada. É um mundo de improvisadores em todas as áreas, e a soma dessas improvisações é um mundo sem destino, uma bola que quica de forma imprevisível, pode ser uma conversa entre amantes ou as disputas entre nações. Não podemos simplesmente parar e nos livrar de todos os adornos superficiais.

O consumismo egocêntrico nos transforma em faíscas que não provêm de fogo algum; não aquecemos ninguém, e ninguém encontra calor neste mundo freneticamente imóvel. Se existe uma cura, reside unicamente em reconhecer o mal, chamá-la pelo seu verdadeiro nome. Por enquanto, é só o que conseguimos fazer. No entanto, nem sempre será assim. O consumismo egocêntrico também escolheu o caminho da aparência e poderia perfeitamente dissolver-se antes mesmo que descubramos como combatê-lo.

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